Share the post "Hantavírus: o que é, como se propaga e que cuidados ter após surto"
Um surto de hantavírus num cruzeiro no Atlântico matou três pessoas em Maio de 2026 e deixou a comunidade científica em alerta. Não por risco de pandemia, as autoridades de saúde são claras quanto a isso, mas porque o caso expôs uma realidade: há vírus mortais transmitidos por roedores que circulam em zonas específicas do planeta e que exigem precauções concretas.
A Direção-Geral da Saúde avalia o risco para Portugal como muito baixo e não recomenda medidas preventivas ao nível nacional. No entanto, deixa orientações claras para quem viaja para zonas endémicas e para quem lida com espaços potencialmente contaminados. Saiba o que é o hantavírus, como se propaga, o que aconteceu no cruzeiro e que cuidados deve seguir.
O que é o hantavírus?
Os hantavírus são vírus zoonóticos pertencentes à família Hantaviridae. Cada hantavírus está associado a uma espécie específica de roedor que funciona como reservatório natural, infetando-se cronicamente sem apresentar sintomas.
Existem várias espécies de hantavírus identificadas em todo o mundo, mas apenas algumas estão associadas a infecção humana. As manifestações clínicas dependem do tipo de vírus, que difere entre zonas geográficas.
Dois tipos principais de doença
Nas Américas, os hantavírus causam síndrome pulmonar por hantavírus (SPH), doença respiratória grave que afeta pulmões e coração, com taxa de mortalidade até 50%. Os vírus Andes (ANDV) e Sin Nombre (SNV) são os principais responsáveis.
Na Europa e Ásia, os hantavírus causam febre hemorrágica com síndrome renal (FHSR), que afeta principalmente os rins e vasos sanguíneos. Os vírus Puumala, Dobrava, Hantaan e Seoul são os mais comuns nesta região. A taxa de mortalidade varia entre 1% e 15% consoante o vírus.
Na Europa, a maioria das infeções humanas é causada pelo vírus Puumala, seguido de um número baixo de casos causados por Dobrava.
Como se propaga: inalação de aerossóis contaminados
A transmissão ocorre principalmente através da inalação de aerossóis provenientes de urina, fezes ou saliva de roedores infetados. A fonte mais provável de infeção é o contacto com os aerossóis quando se mexe em material contaminado, especialmente em espaços fechados ou mal ventilados.
O vírus não se transmite por mordedura de rato. A infeção acontece quando partículas microscópicas contaminadas ficam suspensas no ar e são inaladas.
Cenários de exposição típicos:
Limpeza de espaços fechados há muito tempo (celeiros, armazéns, garagens, casas de campo). Trabalhos agrícolas ou florestais em zonas com alta densidade de roedores. Actividades ao ar livre que envolvem contacto com habitats de roedores (campismo, caminhadas, observação de vida selvagem em zonas endémicas).
O período de incubação, tempo entre exposição e sintomas, é normalmente de duas semanas, mas pode variar entre sete dias e seis semanas. A DGS especifica que o período habitual é entre duas a quatro semanas, existindo períodos mais atípicos de uma a oito semanas.
Transmissão entre pessoas:
Os hantavírus europeus não se transmitem entre pessoas. A transmissão inter-humana só foi documentada para o vírus Andes da América do Sul. Quando ocorre, é extremamente rara e exige contacto próximo e prolongado, normalmente entre membros do mesmo agregado familiar ou parceiros íntimos, sendo mais provável durante a fase inicial da doença.
O surto de Maio de 2026: o que aconteceu no cruzeiro MV Hondius
O MV Hondius partiu de Ushuaia, Argentina, em 1 de Abril de 2026 com 149 pessoas a bordo, 114 passageiros e 35 tripulantes, de 23 nacionalidades diferentes, incluindo nove países da União Europeia.
O primeiro caso apresentou sintomas a 6 de Abril durante a viagem. Tratava-se de um passageiro adulto que viajava com o parceiro e que tinha embarcado após viajar pela Argentina, Chile e Uruguai. Este passageiro morreu a bordo a 11 de Abril.
O parceiro do primeiro caso desembarcou na ilha de Santa Helena a 24 de Abril apresentando sintomas gastrointestinais ligeiros. A 25 de Abril viajou para Joanesburgo, África do Sul, onde colapsou à chegada e morreu num serviço de urgência a 26 de Abril. Amostras deste doente testaram positivo para hantavírus por PCR a 4 de Maio. As autoridades sul-africanas confirmaram a 6 de Maio que se tratava do vírus Andes através de sequenciação genética.
Até 6 de Maio, sete pessoas apresentaram sintomas incluindo febre, sintomas respiratórios e gastrointestinais. Pelo menos quatro progrediram rapidamente para pneumonia, síndrome respiratória aguda e choque.
Balanço final do surto:
Três mortos. Um doente em cuidados intensivos na África do Sul. Dois doentes sintomáticos a bordo a necessitar de assistência médica. Um doente diagnosticado após desembarcar e regressar à Suíça.
No total, amostras de dois doentes testaram positivo para hantavírus por PCR e uma amostra adicional confirmou especificamente o vírus Andes.
Como terá começado: hipótese de infeção em terra
A Organização Mundial de Saúde afirmou que a hipótese mais provável é que a infecção de hantavírus no navio tenha ocorrido fora do cruzeiro. Os investigadores argentinos acreditam que o caso índice terá contraído o vírus em terra, possivelmente durante actividades de observação de aves em zonas remotas da Patagónia, antes do embarque.
A estirpe Andes circula naturalmente em roedores silvestres da Argentina e Chile. Atividades ao ar livre em habitats remotos destas regiões como observação de fauna, caminhadas, acampamentos, podem expor viajantes ao vírus se houver contacto com fezes ou urina de roedores, mesmo que indirecto.
O ECDC sublinhou que ainda não se sabe com certeza se a transmissão no surto atual ocorreu apenas por exposição ambiental ou se houve também transmissão entre pessoas a bordo. Várias investigações epidemiológicas e laboratoriais ainda estão em curso.
Sintomas do hantavírus
Numa primeira fase, a infecção por hantavírus provoca sintomas indistinguíveis de gripe comum: febre, dores musculares, fadiga, dores de cabeça. Podem surgir também sintomas gastrointestinais como dor abdominal, náuseas ou vómitos.
Na forma pulmonar (América), após quatro a dez dias dos primeiros sintomas, surgem tosse, extrema falta de ar e acumulação de líquidos nos pulmões. A progressão para pneumonia, síndrome respiratória aguda e choque pode ser muito rápida.
Na forma renal (Europa e Ásia), os sintomas incluem dor de cabeça, dor abdominal, náuseas, visão turva, hemorragias internas, vermelhidão no rosto e olhos, e insuficiência renal aguda.
Não há tratamento específico
Não existe tratamento antiviral específico licenciado para hantavírus. O tratamento primário foca-se na gestão de sintomas através de cuidados de suporte hospitalar. Em casos graves, os doentes podem necessitar de oxigenoterapia, ventilação mecânica e, em situações de insuficiência renal, diálise.
Não existe vacina licenciada para uso na Europa. O diagnóstico precoce e o acesso rápido a cuidados intensivos melhoram significativamente as hipóteses de sobrevivência.
Quando procurar cuidados médicos
Estes são os sinais de alerta que exigem urgência hospitalar:
- Febre alta com dificuldade respiratória progressiva;
- Tosse com falta de ar que piora rapidamente;
- Dor no peito ou sensação de aperto torácico;
- Confusão mental ou tonturas graves;
- Histórico de viagem recente a zonas endémicas (Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai) nas últimas oito semanas.
O diagnóstico nas primeiras 72 horas de infecção é difícil porque os sintomas são facilmente confundidos com gripe comum. Por isso, informar o médico sobre potencial exposição a roedores ou viagem recente a zonas de risco é fundamental.
Risco muito baixo em Portugal
Até à data, não existe qualquer caso humano confirmado de hantavírus em Portugal. O Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge realiza testes regulares a roedores em Portugal e nunca foi detetado nenhum animal infetado no país.
O hantavírus prospera em climas temperados a frios. Com um clima mediterrânico e influências atlânticas, Portugal não oferece as condições ideais para a circulação das estirpes mais perigosas.
Orientações da DGS: o que fazer e quando preocupar-se
A DGS não emitiu recomendações gerais para a população portuguesa porque o risco é muito baixo e não há circulação do vírus no país. Mas deixa orientações claras para situações específicas.
Para quem viaja para zonas de risco:
A quem se desloque para Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai, países onde a maioria dos casos de síndrome pulmonar por hantavírus ocorre, a DGS recomenda cuidados especiais:
- Evitar contacto com roedores e seus habitats naturais;
- Limpar espaços potencialmente contaminados seguindo precauções rigorosas;
- Evitar acumulação de lixo em áreas peri-domésticas durante estadias em zonas rurais;
- Usar armadilhas para roedores em alojamentos onde haja sinais de infestação.
Quem tenha viajado para zonas de risco e apresente febre, fadiga, dores musculares ou dificuldade respiratória deve contactar os serviços de saúde e informar obrigatoriamente o histórico de viagem recente.
Para limpeza de espaços fechados ou potencialmente contaminados:
As autoridades europeias e a OMS são claras: nunca varrer a seco nem aspirar. Primeiro ventila-se o espaço abrindo todas as janelas e portas. Depois humedece-se o material contaminado com desinfectante à base de lixívia, usam-se luvas resistentes e máscara, e só então se procede à limpeza.
Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças. (2026, 5 de maio). Hantavirus outbreak on cruise ship under investigation: risk for Europe very low. ECDC. https://www.ecdc.europa.eu/en/news-events/hantavirus-outbreak-cruise-ship-under-investigation-risk-europe-very-low
Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças. (2026, 6 de maio). Hantavirus-associated cluster of illness on a cruise ship: ECDC assessment and recommendations. ECDC. https://www.ecdc.europa.eu/en/publications-data/hantavirus-associated-cluster-illness-cruise-ship-ecdc-assessment-and
Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças. (2026). Hantavirus infection: Disease information. ECDC. https://www.ecdc.europa.eu/en/hantavirus-infection