Em certos pontos da Beira Interior, a paisagem parece ter decidido parar para escutar o vento. Linhares da Beira é um desses lugares.
Aldeia histórica, sentinela de pedra sobre o vale do Mondego, Linhares não se anuncia com ruído nem com pressa. Está ali. Antiga, inteira, a observar.
Integrada na rede das Aldeias Históricas de Portugal, Linhares da Beira conserva uma coerência rara, com ruas empedradas que não fingem ser decorativas, casas graníticas marcadas pelo tempo e uma relação direta, quase física, com a paisagem envolvente.
Não há aqui separação clara entre património e quotidiano. Tudo acontece ao mesmo ritmo lento, como se a aldeia tivesse recusado aprender outra cadência.
Linhares da Beira e o seu castelo altaneiro
O ponto mais visível, e inevitável, é o Castelo de Linhares, estrutura medieval implantada num cabeço rochoso que domina a aldeia e o território em redor.
A subida é curta, mas simbólica. Lá em cima, as muralhas oferecem uma leitura ampla da Serra da Estrela, do vale e da função defensiva que esta aldeia teve durante séculos.
O castelo não impressiona pela grandiosidade, mas pela posição estratégica e pela forma como parece prolongar a própria rocha.
No interior da aldeia, o percurso faz-se quase sozinho. As ruas conduzem a pequenos largos, fontes antigas, igrejas discretas.
A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção guarda elementos manuelinos e barrocos, enquanto outras capelas surgem sem aviso, encaixadas na malha urbana como se sempre tivessem pertencido àquele exacto lugar.
O casario é um dos grandes protagonistas. Casas robustas, muitas delas com balcões de madeira, portas baixas, inscrições antigas. Algumas recuperadas com critério, outras ainda marcadas pelo uso contínuo. Não há cenografia. Há vida.
Linhares e o vento: uma relação improvável

Talvez surpreenda, mas Linhares da Beira é hoje uma referência nacional e internacional no parapente.
A posição elevada, a abertura do vale e os ventos regulares transformaram a aldeia num ponto privilegiado para desportos aéreos. Em certos dias, o céu enche-se de cores lentas, contrastando com a pedra antiga lá em baixo.
Este cruzamento entre património histórico e prática desportiva contemporânea não parece forçado. Pelo contrário. Dá à aldeia uma vitalidade inesperada, sem lhe retirar identidade. O silêncio mantém-se, mesmo quando o céu está em movimento.
A paisagem em redor e os caminhos possíveis
Linhares da Beira está inserida num território que convida a caminhar. Existem trilhos pedestres nos arredores, caminhos rurais antigos, percursos que ligam a aldeia a campos agrícolas, linhas de água e zonas de mato baixo.
Não são trilhos espetaculares. São caminhos usados, ainda hoje, por quem ali vive.
A proximidade à Serra da Estrela faz-se sentir no clima, na vegetação e na luz. No inverno, o frio é sério. No verão, o calor é seco, mas suportável. As estações marcam o território sem pedir licença.
Celorico da Beira: logo ali ao lado

A poucos quilómetros, surge Celorico da Beira, vila com um papel histórico distinto, mas complementar.
Conhecida como a “Capital do Queijo da Serra”, Celorico tem uma identidade própria, mais urbana, mais aberta, mas igualmente ligada à história e à paisagem beirã.
O Castelo de Celorico da Beira, embora menos imponente do que o de Linhares, oferece outra perspetiva sobre o território e ajuda a compreender a importância estratégica da região ao longo da Idade Média.
O centro histórico merece atenção, com ruas antigas, edifícios religiosos e espaços de memória ligados à produção do queijo e à economia local.
A visita a Celorico permite também uma pausa gastronómica mais estruturada. Restaurantes, lojas de produtos regionais, mercados locais. Aqui, a Serra da Estrela entra pela mesa dentro, sem pedir desculpa.
O que comer em Linhares da Beira
Em Linhares da Beira, come-se como o território manda, sem truques e sem pressa. A gastronomia local assenta na robustez da Beira Interior, com pratos pensados para aguentar invernos frios e dias longos.
À mesa surgem com frequência o cabrito assado, o borrego, os enchidos regionais e os pratos de caça, quando a época o permite.
O Queijo da Serra da Estrela aparece quase sempre, simples, sem necessidade de apresentações, muitas vezes acompanhado por pão de centeio e vinho da região.
Como lá chegar
Linhares da Beira exige alguma intenção para se lá chegar. De automóvel, o acesso mais comum faz-se pela A25, saindo em direção a Celorico da Beira e seguindo depois pelas estradas municipais que sobem em direção à aldeia.
O percurso final é sinuoso, mas faz parte da experiência. A paisagem abre-se, a altitude nota-se, o ritmo abranda quase sem pedir licença.
Não há estação de comboio em Linhares e os transportes públicos são limitados, pelo que o carro continua a ser a opção mais prática para quem quer explorar a aldeia e as redondezas com alguma liberdade.