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Marta Maia
Marta Maia
22 Out, 2020 - 10:22

Nudge: conheça o “empurrão” que nos ajuda a poupar

Marta Maia

O conceito foi inventado por um Nobel da Economia e pode ter várias aplicações. Saiba o que é “Nudge” e como pode servir para incentivar à poupança.

nudge

Já ouviu falar no termo “Nudge”? Se não ouviu, está na altura de o conhecer: é uma teoria que influencia a forma como tomamos decisões e que pode ser aplicada à poupança com resultados verdadeiramente surpreendentes.

“Nudge” é um modelo económico de incentivo subtil a comportamentos previsíveis. Foi desenvolvido por Richard Thaler, prémio Nobel da Economia em 2017, e explorado por Cass Sunstein no livro “Nudge”. Além disso, tem servido de base a várias experiências económicas em todo o mundo.

Para entendê-lo, precisa de compreender as bases da economia comportamental.

A Economia Comportamental e a nossa irracionalidade

família poupança

A Economia Comportamental é uma variante teórica que defende que os humanos não são totalmente racionais no momento em que tomam decisões – nem mesmo quando tomam decisões económicas e financeiras de grande impacto.

Com base neste princípio, os peritos em Economia Comportamental acreditam que é possível influenciar as nossas escolhas através da alteração subtil de pequenos detalhes do nosso processo de tomada de decisão, “facilitando” um caminho em detrimento de outro.

O termo “Nudge” surge assim como uma espécie de “empurrãozinho”, que nunca pode ser agressivo nem proibitivo. A ideia nunca é forçar um comportamento, mas somente torná-lo mais convidativo do que as alternativas.

O funcionamento simples do “Nudge”

A simplicidade do modelo do “empurrão” chega a ser surpreendente. Assenta sobre a criação de barreiras subtis aos comportamentos indesejáveis e incentivos igualmente subtis aos comportamentos desejáveis. No final, e sem sequer darmos conta, adaptamos o nosso comportamento ao caminho que nos é indicado.

Vamos a um exemplo prático: as cookies. Navegando na internet, certamente já notou que quase todos os sites lhe pedem consentimento para guardar cookies no seu computador. Se prestar atenção, vai reparar que é sempre muito mais fácil aceitar todas as cookies e avançar do que escolher criteriosamente aquelas que quer e não quer guardar. Não é coincidência: é um esquema para que o consentimento total seja mais provável.

Se está a pensar que tudo isto é simples de mais para ser tão eficiente, prepare-se para a melhor parte: Thaler acredita que o “Nudge” nem sequer tem de ser invisível. Para o economista, é perfeitamente possível um consumidor ter noção de que está a ser “empurrado” e, ainda assim, aceitar e seguir esse empurrão, porque concorda que é o caminho mais ajustado às suas necessidades e interesses.

Exemplos de “Nudge” que tiveram sucesso

Não precisamos sequer de passar a fronteira portuguesa para encontrar um exemplo em que o “Nudge” foi usado com indiscutível sucesso. Falemos de doação de órgãos: a lei em Portugal diz que, por defeito, todos nós somos doadores de órgãos, a menos que nos registemos como não doadores. Isto é “Nudge”: o comportamento desejável (ser doador de órgãos) requer muito menos esforço do que o seu contrário. Resultado: Portugal é o segundo país do mundo com maior número de doações de órgãos.

Outro exemplo está a ser implementado no Reino Unido, onde a baixa taxa de poupança para a reforma era preocupante para o Governo. Neste caso, o “Nudge” consistiu em inscrever automaticamente todos os trabalhadores nos planos de pensões das respetivas entidades patronais. O dinheiro passa a ser automaticamente descontado do ordenado, mas os trabalhadores podem sair quando quiserem. Mais uma vez, a permanência no programa requer menos esforço do que a saída.

“Nudge” e o “empurrãozinho” da poupança

Nas várias entrevistas que deu após ser galardoado com o Nobel da Medicina, Richard Thaler falou na “aversão à perda” e em como tendemos a valorizar muito mais aquilo que já temos do que aquilo que podemos ter.

Aplicado à poupança, este instinto diz-nos muitas vezes que é preferível manter o que temos (mesmo que não ganhemos nada com isso) do que arriscar e perder tudo mais para a frente. É uma questão de gestão de incerteza: sabemos o que temos e precisamos hoje, mas não sabemos o que vamos ter e precisar amanhã. 

Num contexto prático, o economista explica que não é a mesma coisa recebermos um cheque de mil euros uma vez ou dez cheques de 100 euros durante dez meses: no primeiro caso, tendemos a poupar mais (porque queremos preservar o que temos); no segundo caso, tendemos a gastar mais, porque sabemos sempre que no próximo mês chega uma nova quantia. É jogando com estes comportamentos – e criando “Nudge” – que podemos incentivar ou desincentivar a poupança.

Outra sugestão de Thaler é a poupança progressiva: programas em que o beneficiário desconta percentagens cada vez maiores à medida em que o seu salário também aumenta. Este modelo é uma forma de combater a aversão à perda – quando desconta mais também ganha mais, por isso a perceção do risco é menor.

Como criar o seu próprio “Nudge”

Uma vez compreendida a teoria, torna-se possível até criar o seu próprio “Nudge”, ou seja, organizar as suas contas para que a poupança lhe apareça convidativa.

Pode, por exemplo, aderir à poupança com descontos progressivos ou até optar por descontar o que quer poupar logo depois de receber o salário, para evitar a sensação de perda. Também pode deixar o dinheiro poupado numa conta diferente daquela que usa diariamente, fazendo com que não seja fácil gastá-lo num impulso. 

Outras estratégias mais simples podem também surtir efeitos: ter sempre o carro estacionado na garagem vai aumentar o trabalho de o usar; desinstalar as aplicações de entrega de comida em casa vai dificultar o processo de encomendar as refeições fora; comprar legumes frescos vai incentivá-lo a cozinhá-los antes que apodreçam para não perder o que investiu…

Não sendo um perito em economia comportamental, basta um pouco de atenção aos comportamentos que penalizam a sua poupança e alguma criatividade na imaginação de estratagemas que os tornem menos convidativos. Vai ver que, no fim de contas, era só dar um “empurrãozinho”!

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