Cláudia Pereira
Cláudia Pereira
20 Fev, 2026 - 12:00

20 comprimidos de paracetamol: o desafio do TikTok que pode matar

Cláudia Pereira

Desafio do paracetamol já provocou hospitalizações na Europa. Descubra por que este medicamento comum pode matar e como proteger adolescentes desta tendência perigosa.

A Europa acordou em fevereiro de 2026 com um alerta vermelho das autoridades de saúde. Um desafio viral está a colocar adolescentes no hospital — e não envolve drogas ilegais nem substâncias exóticas. O culpado é um medicamento que está em praticamente todas as casas portuguesas: o paracetamol.

Como funciona o desafio do paracetamol

O chamado “desafio do paracetamol” transformou um medicamento comum numa roleta russa. Adolescentes filmam-se a tomar doses massivas, publicam nas redes sociais e competem: quanto mais comprimidos, mais likes, mais “coragem” demonstrada.

Em Málaga, o Hospital Materno-Infantil recebeu nas últimas semanas vários adolescentes entre os 11 e 14 anos com sintomas graves de intoxicação. Alguns ingeriram 10 gramas de paracetamol de uma só vez — 20 comprimidos de 500 miligramas. Dose suficiente para destruir um fígado jovem. Face aos casos reportados na Europa, a Ordem dos Médicos emitiu um comunicado a alertar para a situação.

O medicamento que todos têm e poucos respeitam

Aqui reside o paradoxo trágico desta história. O paracetamol é tão comum e acessível que perdeu o estatuto de “medicamento a sério” no imaginário coletivo. Dor de cabeça? Paracetamol. Febre? Paracetamol. Gripe? Paracetamol.

Está nas farmácias sem receita, nos supermercados, nas gavetas de todas as casas. Esta familiaridade criou uma ilusão de não perigo. Se está à venda livre, se toda a gente usa, se nem precisa de receita médica, então não pode ser assim tão perigoso, certo? Completamente errado.

O paracetamol é um fármaco eficaz e seguro quando usado corretamente. Em sobredosagem pode causar lesão hepática grave, por vezes irreversível, com necessidade de internamento urgente e, em casos extremos, transplante hepático. O mais perigoso é que, nas primeiras horas, e até no primeiro dia, pode não haver sintomas relevantes. A aparente normalidade engana e atrasa um tratamento que pode salvar vidas. – Carlos Cortes, Bastonário da Ordem dos Médicos

As doses que fazem a diferença entre seguro e letal

A dose segura de paracetamol para adultos e adolescentes situa-se entre 500 miligramas e 1 grama por toma, com intervalo mínimo de quatro a seis horas. O limite diário? 4 gramas nas 24 horas. Ultrapassar isto é jogar à roleta russa com o fígado.

A Ordem dos Médicos considera potencialmente tóxica qualquer dose única acima de 150 miligramas por quilo de peso. Um adolescente de 50 quilos entra em zona de perigo a partir de 7,5 gramas. Um de 70 quilos, aos 10 gramas. Os jovens de Málaga que ingeriram 10 gramas estavam literalmente a apostar a vida.

O risco dispara em situações comuns entre adolescentes: consumo de álcool aos fins de semana, dietas restritivas, refeições saltadas, baixo peso. Quantos jovens portugueses se enquadram neste perfil? Demasiados.

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O fígado não perdoa, mas avisa tarde demais

O aspeto mais traiçoeiro da intoxicação por paracetamol é a janela silenciosa. Nas primeiras horas, e até no primeiro dia após a ingestão excessiva, pode não haver absolutamente nada. Nenhuma dor, nem nenhum sinal de que algo está errado.

Quando os sintomas finalmente surgem (náuseas, vómitos, mal-estar, sonolência) o fígado já está em sofrimento. As células hepáticas começaram a morrer. A toxicidade instalou-se. E quanto mais tempo passa sem tratamento, menor a probabilidade de reverter os danos.

Como proteger adolescentes deste desafio

Em caso de suspeita de intoxicação, não espere pelos sintomas. Contacte imediatamente o Centro de Informação Antivenenos (800 250 250, número gratuito) ou ligue para o 112. Se possível, leve consigo a embalagem do medicamento, pois, o tratamento é mais eficaz quando iniciado precocemente, e conhecer a quantidade exata ingerida pode fazer a diferença entre recuperação completa e danos permanentes.

As famílias são a primeira linha de defesa, por isso, converse com os adolescentes sobre os riscos sem alarmismo excessivo. Explicar que medicamentos não são inofensivos, que a ausência de sintomas não significa ausência de problema, que as redes sociais premiam conteúdo extremo e não seguro, e que nenhum número de visualizações vale um fígado destruído.

O que fica desta história

As redes sociais criaram um ecossistema onde likes valem mais que bom senso e o algoritmo premeia o extremo. O desafio do paracetamol é apenas mais um numa lista que já incluiu canela, gelo e sal, e cápsulas de detergente. Todos perigosos, todos virais e todos evitáveis.

O paracetamol é seguro quando usado corretamente, salva vidas e alivia sofrimento. Transformado em ferramenta de competição viral, torna-se letal. As autoridades portuguesas estão vigilantes, os profissionais de saúde redobraram a atenção, mas a primeira linha de defesa continua a ser a família.

Se suspeitar que um jovem ingeriu doses excessivas de paracetamol, não hesite: ligue 800 250 250 (Centro de Informação Antivenenos) ou 112. O tempo pode fazer a diferença entre vida e morte. E se tiver adolescentes em casa, comece hoje essa conversa desconfortável mas necessária sobre os riscos reais escondidos atrás de desafios virais.

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