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Miguel Pinto
Miguel Pinto
30 Out, 2020 - 11:30

Pedro e Inês: amor proibido de onde jorrou uma fonte de lágrimas

Miguel Pinto

Em Coimbra a Fonte das Lágrimas marca a aventura amorosa de Pedro e Inês, um dos episódios mais lendários da História de Portugal.

A tragédia de Pedo e Inês

Dirão muitos que na história de Pedro e Inês a lenda se sobrepôs quase de forma definitiva aos factos históricos. Talvez seja verdade, mas as lendas têm sempre o seu quê de encantador, procuram sempre uma certa redenção, criam heróis imaculados, mesmo que pejados de defeitos.

Esta é um história de um amor impossível, muito possivelmente a mais famosa história de amor que Portugal algum vez registou na sua imensa história. Pedro e Inês amaram-se até ao final, mesmo que esse final tenha sido trágico e recambolesco, marcaram de forma indelével o futuro dinástico de uma país ainda recente e em constante sobressalto com o poderoso vizinho castelhano.

Há precisamente 660 anos, em 1360, D. Pedro I fazia uma declaração solene de que casara com Inês de Castro e segredo e abria a porta a uma vingança atroz. E aqui começa a fantástica lenda.

Pedro e Inês: amor à primeira vista

Pedro era o infante de Portugal, o herdeiro do rei D. Afonso IV e, como tal, educado desde o berço para suceder ao pai. Como tal, tudo na sua vida foi sendo programado para que nada falhasse na altura de assumir os destinos do reino, incluindo, como é óbvio, o seu casamento.

Os matrimónios, na altura, estavam longe de ser uma matéria do coração. Eram longas e complicadas negociações diplomáticas, base de sustentação de alianças entre diferentes reinos e, muitas vezes, motivo de discórdia e guerra entre outros tantos. A noiva escolhida para Pedro foi Constança Manuel, uma nobre castelhana, tendo o casamento sido celebrado em Lisboa, a 24 de agosto de 1339.

Túmulos de Pedro e Inês em Alcobaça

A aia Inês

Como era hábito na altura, para além do dote, as noivas reais faziam-se acompanhar por um séquito de confiança. Constança não fugiu à regra e chegou a Portugal com um considerável número de aias, entre elas Inês de Castro, uma jovem filha de um poderoso fidalgo galego. Conta a história e a lenda, que se sobrepõem, que Pedro e Inês se apaixonaram no momento em que colocaram os olhos um no outro. Mas este era um romance amaldiçoado.

É que a relação de ambos tinha intrincadas implicações políticas, fruto a influência que a poderosa família galega de Inês, em especial os seus irmãos, passavam a ter sobre o infante e futuro rei de Portugal. Mas nada disso obstou a que Pedro e Inês se amassem, tendo inclusivamente gerado descendência. Quem não gostou do arranjo foi el-rei D. Afonso IV, que, furioso, exilou Inês em Albuquerque, na zona da Guarda.

A distância não fez esmorecer os amores de Pedro e Inês, que após a morte de Constança Manuel se instalaram em Coimbra, no Paço de Santa Clara. D. Afonso IV decidiu então que só a morte de Inês de Castro poderia colocar um ponto final em toda esta atribulada história e aproveitando a ausência do seu filho Pedro, deslocou-se a Coimbra com um grupo de nobres para executarem a antiga aia.

A vingança de Pedro

Inês morreu, mas, reza a lenda, as lágrimas por derramadas no rio Mondego terão dado origem à Fonte das Lágrimas, na Quinta das Lágrimas, e as algas vermelhas que por ali crescem serão o seu sangue derramado. Este assassinato levou a que Pedro se revoltasse contra o pai, uma querela que só ficou resolvida com a intervenção da então rainha D. Beatriz, momentos antes de pai e filho se enfrentarem em batalha.

Só que entretanto D. Afonso IV morre e sucede-lhe, em 1357, o seu filho, passando à história como D. Pedro I. Três anos depois,, em 1360, na Declaração de Cantanhede, este assegurava ter casado com Inês de Castro, fazendo dela rainha póstuma de Portugal e lançando-se numa caça ao homem contra os verdugos da sua amada.

Dois deles, fugidos em Castela, foram capturados e executados em Santarém. Mais uma vez, a lenda sobrepõem-se aos factos, já que ficou no no ideário popular a sentença de Pedro que terá ordenado que a um fosse arrancado o coração pelo peito e ao outro pelas costas, assistindo execução enquanto se banqueteava.

Rainha Póstuma

Finalmente, a lenda conta ainda a macabra coroação de Inês, já morta, como rainha de Portugal, tendo D. Pedro obrigado a sua corte ao beija-mão do cadáver. Para argumento de um filme sobre os tempos medievais dificilmente se arranjava melhor.

D. Pedro I reinou durante dez anos, numa altura de prosperidade e, pasme-se, sem guerras a assombrar o reino. Apelidado de o Justiceiro, morreu em 1367 e jaz no Mosteiro de Alcobaça, num monumental túmulo em frente ao da sua amada. O amor de Pedro e Inês começou na história, mas ficou gravado no imaginário lendário de Portugal.

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