Miguel Pinto
Miguel Pinto
20 Jan, 2026 - 15:30

Ponte da Misarela: passeio à travessia que o Diabo construiu

Miguel Pinto

Descubra a Ponte da Misarela, ou Ponte do Diabo, em Montalegre. Um lugar de lendas, ideal para uma caminhada inesquecível.

ponte da misarela em montalegre

As pontes ligam margens, mas algumas vão além disso e contam histórias, medos antigos, superstições e pedra bruta. A Ponte da Misarela, mais conhecida como Ponte do Diabo, pertence claramente ao segundo grupo.

Não impressiona pela escala nem pela grandiosidade técnica. Impressiona porque parece estar exatamente onde não devia estar, suspensa sobre o rio Rabagão, encaixada num desfiladeiro estreito, rodeada por silêncio, musgo e lendas que não pedem confirmação.

Chegar aqui não é um simples desvio de estrada. É um pequeno ritual. Caminhos apertados, trilhos irregulares, curvas fechadas. Tudo ajuda a criar aquela sensação de aproximação lenta, quase cerimonial, como se a paisagem estivesse a preparar quem chega.

Talvez seja isso que mantém a ponte viva na memória coletiva, mesmo num tempo em que quase tudo é fotografado antes de ser sentido.

Ponte da Misarela e a origem do nome

A designação “Ponte do Diabo” não é gratuita. Segundo a tradição oral, a ponte terá sido construída com ajuda demoníaca, em troca da alma do primeiro ser vivo que a atravessasse.

A solução, dizem, foi engenhosa e um cão foi empurrado primeiro. História antiga, contada com variações, mas sempre com o mesmo efeito. Cria-se respeito imediato.

Do ponto de vista histórico, acredita-se que a ponte tenha origens medievais, possivelmente sobre uma estrutura romana anterior, o que ajuda a explicar a sua localização estratégica e o traçado austero. Uma única arcada de pedra, robusta, funcional. Nada decorativa. Aqui, a beleza nasce da utilidade.

Onde fica e como chegar

A ponte situa-se no concelho de Montalegre, numa zona de transição entre o Barroso e a influência direta da Serra do Gerês. Não há grandes placas a anunciar a chegada. E isso, honestamente, joga a favor do lugar.

De carro, o acesso faz-se por estradas secundárias estreitas, muitas vezes ladeadas por vegetação cerrada e muros de pedra. O último troço exige atenção e alguma paciência. Não é um sítio para chegar com pressa. Nunca foi.

Trilhos para percorrer e perceber o território

visitantes na ponte da misarela

É a pé que a Misarela faz mais sentido. Existem vários trilhos informais utilizados por caminhantes, habitantes locais e curiosos persistentes.

O mais conhecido parte das imediações da aldeia da Misarela, descendo progressivamente até ao vale do Rabagão.

É um percurso curto, mas irregular, com piso de terra, pedras soltas e zonas mais húmidas nos meses de inverno. Nada técnico, mas convém calçado decente e alguma atenção.

Há também trilhos mais longos, usados por praticantes de caminhada e trail, que ligam a ponte a pontos elevados da serra, oferecendo vistas amplas sobre o vale encaixado.

Estes percursos atravessam bosques, campos de pasto e antigos caminhos de ligação entre aldeias. São trilhos que contam histórias sem palavras. Basta caminhar.

E depois existem os atalhos, os caminhos “não oficiais”, usados há gerações. Segui-los implica aceitar alguma desorientação temporária. Faz parte da experiência.

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O que ver ao longo do caminho

A aproximação à ponte é quase tão marcante como a ponte em si. O vale do Rabagão é profundo, verde, áspero. As margens do rio alternam entre zonas de rocha nua e manchas densas de vegetação.

Em dias de chuva, o som da água amplifica-se e domina tudo. Em dias quentes, o silêncio volta a ganhar espaço.

A própria ponte, vista de baixo, revela outra dimensão. A arcada parece menor do que se imaginava, mas a sensação de suspensão é real.

Olhar para cima, ver a linha da ponte contra o céu, provoca sempre um pequeno aperto. Mesmo em quem diz que não acredita em lendas.

Ponte da Misarela: o que ver na envolvente

A visita à Ponte da Misarela raramente acontece isolada. A região pede mais tempo.

Montalegre, a curta distância, oferece um centro histórico sólido, com o castelo a dominar a paisagem e uma relação muito forte com a cultura barrosã. É uma paragem natural para comer, descansar e perceber melhor o território.

O Parque Nacional da Peneda-Gerês, logo ali ao lado, amplia as possibilidades. Trilhos sinalizados, cascatas, aldeias comunitárias e miradouros tornam fácil prolongar a experiência por um dia inteiro, ou mais. Não é preciso ir longe para sentir que se entrou noutro ritmo.

A albufeira do Rabagão também merece atenção, sobretudo em épocas mais quentes, oferecendo contraste entre a aspereza da serra e a tranquilidade da água represada.

Quando visitar e o que ter em conta

ponte do diabo ou da misarela

A Ponte da Misarela pode ser visitada durante todo o ano, mas a experiência muda bastante conforme a estação. No inverno, o ambiente é mais dramático, húmido, quase sombrio. No verão, o acesso é mais fácil e o vale ganha outra luz, mais aberta.

Convém ter em conta que os trilhos podem tornar-se escorregadios e que não existem infra-estruturas de apoio junto à ponte. Levar água, calçado adequado e algum respeito pelo espaço não é conselho. É regra não escrita.

A verdade é que a Ponte da Misarela não se explica facilmente. Não é um postal turístico clássico nem um ponto de visita confortável. É um lugar de transição, física e simbólica.

Talvez por isso continue a atrair quem prefere caminhar mais devagar e sentir primeiro, fotografar depois.

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