Os portugueses sabem o que querem do seu banco. E o recado é claro: menos complicações, mais transparência, transferências gratuitas. Um estudo da Nickel e DATA E, realizado em abril de 2025 com mais de mil portugueses, mostra que 79% dos inquiridos consideram as transferências gratuitas o fator decisivo na escolha de uma instituição financeira. Logo a seguir aparecem as transferências imediatas gratuitas (75%) e a credibilidade da instituição (68%).
O que fica na cauda das prioridades? Produtos de investimento, referidos por apenas 28% dos participantes. A mensagem parece ser simples: o português quer um banco que funcione bem no dia a dia, não um conselheiro financeiro sofisticado que lhe complique a vida.
A geografia das prioridades bancárias
O padrão repete-se pelo país, mas com nuances regionais interessantes. No Alentejo, 82% dos inquiridos valorizam transferências gratuitas, a percentagem mais alta do país. O Algarve e o Norte seguem de perto, com 72% e 71%, respetivamente. Quando o assunto são transferências imediatas, o Alentejo volta a liderar (78%), seguido do Algarve (73%).
A credibilidade da instituição ganha mais peso no Algarve (64%) e no Norte (54%). Pode ser coincidência, mas estas são também regiões onde a população tem memória viva de crises bancárias e escândalos financeiros. A confiança, pelos vistos, não se recupera com publicidade.
Simplicidade acima de tudo
No momento de abrir uma conta à ordem, três fatores dominam a decisão dos portugueses: transferências gratuitas, custo da comissão de manutenção e uma aplicação móvel que não precise de manual de instruções para funcionar.
Os portugueses estão mais informados, mais exigentes e menos dispostos a pagar por serviços que consideram básicos. – João Guerra, CEO da Nickel Portugal
A mudança de mentalidade é clara. Se há dez anos o prestígio da marca bancária pesava na decisão, hoje o que conta é a competitividade da oferta. O consumidor quer saber quanto paga, o que recebe e se pode fazer uma transferência às três da manhã sem ter de ligar para uma linha de apoio.
Esta procura por simplicidade e custos reduzidos explica o crescimento dos bancos digitais em Portugal. Instituições como ActivoBank, Revolut, Moey! e a própria Nickel têm conquistado terreno entre consumidores que valorizam agilidade e transparência. O mercado português conta já com dezenas de opções digitais, desde bancos tradicionais com forte componente online até fintechs puramente digitais.
Credibilidade: o fator intangível
A credibilidade da instituição financeira, terceiro critério mais valorizado pelos portugueses, não se mede em euros. Constrói-se com transparência, respostas rápidas a problemas e ausência de surpresas desagradáveis no extrato bancário.
O facto de 68% dos inquiridos valorizarem este fator mostra que o cliente português não quer apenas um banco barato, quer um banco em que possa confiar. E confiança, no setor financeiro, ganha-se devagar e perde-se num instante. Basta um atendimento deficiente, uma taxa escondida ou uma falha de sistema no momento errado.
Investimentos? Não, obrigado
A baixa valorização de produtos de investimento (28%) pode surpreender, mas faz sentido. O estudo captou a opinião de portugueses entre os 18 e os 64 anos, uma faixa etária que inclui desde jovens a iniciar carreira até pessoas próximas da reforma. Para muitos, a prioridade não é fazer crescer o património, mas gerir o dia a dia sem sobressaltos.
Além disso, o português médio tem literacia financeira limitada quando o assunto são investimentos. Fundos, ações, obrigações soa a terreno complicado para quem só quer ter a certeza de que o dinheiro está seguro e acessível quando necessário.
O que os números revelam sobre 2026
A preferência por serviços bancários simples insere-se numa tendência mais ampla do consumidor português e europeu. Dados de 2025 e início de 2026 mostram consumidores mais cautelosos com gastos e que exigem transparência nas transações financeiras. A inflação dos últimos anos deixou marcas: mesmo famílias com situação financeira estável procuram minimizar custos fixos, e as comissões bancárias entraram na lista de cortes possíveis.
Os bancos digitais beneficiam deste contexto. Sem agências físicas ou com redes reduzidas, conseguem oferecer serviços gratuitos ou a custos significativamente inferiores aos da banca tradicional. Mas há um porém: nem todas as soluções digitais oferecem IBAN português, o que pode criar entraves em débitos diretos e pagamentos a entidades nacionais. E nem todas têm integração com MB Way, funcionalidade que os portugueses apreciam.
O que esperar daqui para a frente
A tendência para 2026 e além parece clara: os bancos que oferecerem serviços simples, transparentes e a custos reduzidos vão continuar a ganhar terreno. A banca tradicional terá de se adaptar ou arrisca-se a perder relevância entre consumidores mais jovens e digitalmente nativos.
Para o consumidor, mais opções significam mais poder de escolha. Mas também mais responsabilidade: é preciso ler as letras pequenas, comparar preçários e perceber o que cada instituição oferece de facto. No fim do dia, o melhor banco não é o que promete mais, é o que cumpre o prometido sem surpresas.
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