Ekonomista
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27 Fev, 2026 - 12:30

Carros usados: procura explode 20% mas oferta desaparece em Portugal

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Janeiro 2026 revela crise na oferta de carros usados em Portugal. Procura sobe 15% mas faltam veículos abaixo de 15.000€. Preços disparam para 24.300€.

O mercado automóvel português arrancou 2026 com uma reviravolta surpreendente. Enquanto a oferta de carros usados encolheu cerca de 5% face a janeiro de 2025, a procura disparou 15%, criando uma dinâmica que está a empurrar os preços para cima. Os dados do Barómetro Standvirtual/ACAP revelam que os veículos mais acessíveis são os grandes protagonistas desta história.

Carros até 15.000€ disparam nas preferências

Janeiro de 2026 registou um crescimento explosivo de 20% na procura de automóveis abaixo dos 15.000€. Esta faixa de preço tornou-se o epicentro do mercado de usados, refletindo a realidade económica de quem procura mobilidade sem quebrar o orçamento. Os veículos entre 15.000€ e 30.000€ também subiram 3%, enquanto os modelos acima dos 30.000€ cresceram 2%.

Do outro lado da equação, a oferta conta uma história diferente. Os carros mais acessíveis, precisamente os mais procurados, viram a sua disponibilidade cair 10%. Na faixa intermédia, a descida foi de 6%. Apenas os veículos premium, acima dos 30.000€, registaram um aumento de oferta de 3%. O resultado? Uma pressão crescente sobre os preços, particularmente nos segmentos mais populares.

Marta Espadeiro, analista de negócio do Standvirtual, apresentou estes números num webinar realizado em parceria com a ACAP. A dinâmica de mercado positiva de 20% face a janeiro de 2025 confirma a tendência de recuperação que já se desenhava ao longo de 2025.

Preço médio sobe para 24.300€

O preço médio praticado pelos vendedores profissionais fixou-se em 24.300€ em janeiro, representando uma subida de 3,4% face ao período homólogo. Este valor marca uma inversão clara da tendência descendente que vinha a dominar o mercado desde fevereiro de 2024. A conjugação entre procura elevada e oferta reduzida está a reforçar o poder negocial dos vendedores.

Esta pressão nos preços não é exclusiva do mercado nacional. Especialistas europeus, como Matas Buzelis da carVertical, alertam que os automóveis com três a seis anos estão a desvalorizar muito mais lentamente do que antes. A escassez de seminovos, consequência da crise dos chips entre 2020 e 2023, continua a fazer-se sentir no mercado secundário.

Importações batem recorde de janeiro

A importação de veículos usados mantém a tendência ascendente. Janeiro de 2026 registou cerca de 11.000 unidades importadas, um crescimento de 10,2% face a janeiro de 2025 e de impressionantes 61,5% comparado com 2019. Este foi o melhor mês de janeiro dos últimos dois anos em termos de importações.

Portugal consolidou em 2025 o estatuto de destino preferencial para automóveis usados europeus, com um recorde de 120.787 ligeiros de passageiros importados ao longo do ano. Este volume representa 53,7% das vendas de carros novos no país. A ACAP tem manifestado preocupação com este fenómeno, alertando para o impacto no envelhecimento do parque automóvel nacional, cuja idade média dos veículos importados se fixa em 7,9 anos.

Transferências de propriedade em queda

Apesar da procura elevada em janeiro, dezembro de 2025 revelou um recuo nas transferências de propriedade. O mês registou uma descida de 16% face a dezembro de 2024 e de 7% comparado com o último mês de 2019. No total de 2025, as transferências caíram 10% relativamente a 2024.

Esta aparente contradição entre procura forte e transferências em queda pode refletir diferentes fatores. Por um lado, a antecipação de matrículas em dezembro influencia negativamente os números de janeiro. Por outro, a escassez de oferta e os preços mais elevados podem estar a adiar decisões de compra, mesmo entre quem manifesta interesse.

Mercado de novos em alta reforça tendências

O crescimento de 18% no mercado de carros novos em janeiro, segundo dados da ACAP, reforça a dinâmica positiva do setor automóvel. As energias alternativas dominaram com 80% do mercado total de ligeiros, um salto significativo face aos 22% de janeiro de 2025.

Este boom dos novos, liderado por modelos como o Peugeot 208 (1.051 unidades) e o Peugeot 2008, contrasta com a escassez no mercado de usados. A Stellantis garantiu quase um terço das vendas totais em janeiro, enquanto marcas chinesas como a MG surpreenderam com crescimentos de 191% (672 unidades).

O mercado dos veículos elétricos novos também acelerou. Foram vendidos 3.918 elétricos em janeiro de 2026, uma subida de 33,5% face ao ano anterior. Os híbridos plug-in cresceram 30,6% e os híbridos convencionais 25,7%. Em contraste, os modelos a gasolina caíram 11,8% e os diesel 1,3%.

Elétricos usados: a exceção à regra

Enquanto os usados convencionais mantêm preços elevados, os veículos elétricos de segunda mão começam a contar outra história. A oferta de elétricos usados aumenta à medida que os primeiros contratos de leasing chegam ao fim, exercendo pressão descendente sobre os preços.

Especialistas preveem que 2026 será um ponto de viragem para quem procura um elétrico usado. A crescente disponibilidade, combinada com a natural desvalorização dos primeiros anos, está a tornar estes modelos mais acessíveis. Contudo, os compradores devem estar atentos ao estado da bateria e ao histórico de carregamentos antes de avançar.

Regulamentação ambiental pressiona mercado

As restrições ambientais crescentes nas cidades europeias estão a moldar as escolhas dos condutores. Desde janeiro de 2026, os países da UE proibiram a entrada de veículos diesel que não cumpram a norma Euro 5 e gasolina que não cumpram a Euro 2 em zonas de baixas emissões. As multas começaram a ser aplicadas em março.

Lisboa mantém a única zona oficial de baixas emissões em Portugal, dividida em duas áreas com requisitos distintos. A Zona 1 exige norma Euro 3, enquanto a Zona 2 aceita Euro 2. O Porto opera uma zona de acesso condicionado no centro histórico. A partir de 2027, a introdução da norma Euro 7 trará requisitos ainda mais rigorosos, abrangendo não apenas emissões de escape mas também poluição por desgaste de travões e pneus.

Perspetivas mantêm-se desafiantes

O cenário para os próximos meses mantém os preços elevados como principal desafio. A combinação entre oferta reduzida de seminovos, custos de produção ainda pressionados e procura sustentada não aponta para uma descida significativa dos valores no curto prazo.

Para quem procura comprar um usado em 2026, a estratégia passa por avaliar bem as prioridades. Os modelos mais acessíveis enfrentam maior concorrência e menor margem de negociação. Os elétricos usados podem representar oportunidades interessantes para quem tem autonomia suficiente para as necessidades diárias. E os modelos híbridos convencionais equilibram eficiência e praticidade sem depender de infraestrutura de carregamento.

O mercado automóvel português entrou em 2026 com dinâmicas contraditórias mas claras. A procura está aqui, os preços também. Quem quiser poupar terá de fazer os trabalhos de casa, comparar bem e estar preparado para agir rapidamente quando surgir a oportunidade certa.

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