Cláudia Pereira
Cláudia Pereira
29 Ago, 2025 - 18:00

Violência doméstica: como identificar os sinais e quebrar o ciclo de silêncio

Cláudia Pereira

Saiba como identificar sinais de violência doméstica, que tipos existem e onde procurar ajuda em Portugal. Informação prática para vítimas, familiares e amigos.

A violência doméstica não se limita a agressões visíveis. Pode surgir sob várias formas, silenciosa, invisível ou constante. Em Portugal, há leis e apoios pensados para cuidar de quem está a sofrer.

Este artigo explica o que é a violência doméstica, os tipos, os sinais de alerta e como agir — com dados atuais e indicações claras de onde procurar ajuda.

O que é a violência doméstica?

A violência doméstica vai muito além de agressões físicas, é qualquer forma de abuso exercido no contexto de uma relação próxima — seja familiar, conjugal ou de coabitação. Pode assumir várias formas:

  • Física, como empurrões, bofetadas, puxões de cabelo ou pontapés. São os sinais mais visíveis, mas nem sempre os mais perigosos;
  • Psicológica, através de humilhações, ameaças, manipulação emocional ou isolamento da vítima dos seus círculos de apoio. Muitas vezes, deixa feridas que não se veem;
  • Sexual, quando há coerção ou imposição de atos sem consentimento, por exemplo, toques forçados, violações e chantagem sexual, mesmo dentro de uma relação;
  • Económica, ao impedir a vítima de aceder ao seu próprio dinheiro, controlar todos os gastos ou reter documentos importantes. É uma forma de criar dependência e manter o controlo;
  • Digital, cada vez mais comum, manifesta-se com vigilância constante, controlo de mensagens e redes sociais, ou partilha de conteúdos íntimos sem autorização.

Em Portugal, a violência doméstica é considerada crime público. Isso significa que qualquer pessoa pode — e deve — denunciar, mesmo que não seja a vítima direta. Porque proteger não é só dever das autoridades, é também responsabilidade de todos nós.

Sinais de alerta de violência doméstica

A violência doméstica nem sempre começa com gritos ou nódoas negras. Muitas vezes, instala-se de forma discreta, em gestos pequenos ou atitudes que parecem normais à primeira vista. Estar atento a esses sinais pode ser decisivo para quebrar o ciclo.

Marcas físicas explicadas com desculpas estranhas ou pouco convincentes podem ser o primeiro indício. Mas há sinais mais subtis: afastamento repentino de amigos ou familiares, como se a pessoa estivesse a perder o contacto com o mundo lá fora. O medo constante, a ansiedade ou a quebra de confiança também são alertas importantes — muitas vítimas vivem em estado de alerta permanente, sem se darem conta.

Outro sinal é a forma como a vítima justifica o comportamento do parceiro, pedindo desculpa por ele ou assumindo culpas que não são suas. Quando há dificuldade em gerir o próprio dinheiro, ou quando é excluída de decisões financeiras, pode estar a ocorrer abuso económico. Já no mundo digital, o controlo excessivo das redes sociais, das mensagens ou até das passwords revela um padrão de vigilância e manipulação.

Nenhum destes sinais deve ser ignorado. Isolados, podem parecer pouco, mas quando somados, contam uma história, que merece ser ouvida — e interrompida.

Estatísticas recentes em Portugal

Durante o quarto trimestre de 2024, foram registadas cerca de 30 086 queixas por violência doméstica pela PSP e pela GNR em conjunto, um número muito próximo do verificado no ano anterior — uma descida de apenas 0,6 %. Neste período, 22 pessoas morreram em contexto de violência doméstica: 19 mulheres e 3 homens.

Apesar desse panorama grave, os atendimentos especializados cresceram: a APAV registou 105 747 atendimentos em 2024, o que representa um aumento significativo nos últimos anos. Foram apoiadas diretamente 16 630 vítimas, das quais 76,3 % eram mulheres. A média diária de vítimas atendidas rondou as 45 por dia.

Como procurar ajuda em Portugal

Procurar apoio é um passo corajoso e em Portugal há recursos sólidos, gratuitos e disponíveis 24 horas por dia.

A linha nacional de apoio ao serviço das vítimas funciona todos os dias, ao longo do ano, de forma gratuita, anónima e confidencial. Pode ligar para o 800 202 148, onde profissionais formados explicam direitos, orientam e direcionam para apoio jurídico e psicológico.

Se não puder telefonar, pode enviar uma mensagem de texto para o 3060, com o mesmo nível de confidencialidade. Também está disponível o email [email protected] para pedidos de apoio ou esclarecimento.

A APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima) oferece uma linha de apoio telefónico — o 116 006, disponível em dias úteis das 08h às 23h. A APAV assegura também gabinetes locais, serviço de apoio online e casas de abrigo para situações mais urgentes.

Para casos relacionados com cibercrime, especialmente os ligados ao uso abusivo de tecnologias, a Linha Internet Segura da APAV responde através do 800 219 090 (dias úteis das 09h às 21h), com suporte confidencial por telefone ou online.

Em situações urgentes, pode sempre recorrer às forças de segurança — PSP ou GNR — que contam com equipas especializadas (como NIAVE ou EPAV) e, em caso de emergência imediata, use o 112.

Orientações práticas para familiares e amigos

Ajudar alguém que está numa relação abusiva exige empatia, paciência e presença. Não se trata de resolver por ela, mas de estar ao seu lado. Ouvir sem julgar pode ser mais poderoso do que se imagina — o simples facto de saber que não está sozinha já pode fazer diferença. Se existir a possibilidade de guardar mensagens, fotografias ou qualquer outro tipo de prova, isso pode vir a ser essencial numa denúncia futura.

Acompanhá-la nas suas escolhas, mesmo quando estas parecem hesitantes ou contraditórias, é fundamental. Apoiar não é forçar, é dar espaço e segurança. Encaminhar a vítima para serviços especializados, como os que referimos anteriormente, oferece-lhe orientação concreta e acesso a recursos que podem ser vitais. E, acima de tudo, é preciso respeitar o ritmo de cada um. A decisão de sair pode levar tempo — mas a certeza de que alguém está por perto, disponível e atento, pode ser o primeiro impulso para a mudança.

Orientações para vítimas

A quem vive em silêncio, o primeiro passo pode parecer o mais difícil. Mas falar com alguém de confiança pode quebrar esse ciclo. O silêncio protege o agressor — a voz protege quem o quebra. Ao planear uma saída segura, convém juntar documentos importantes, números de contacto e avaliar o momento certo com calma e apoio.

Recorrer a serviços especializados pode parecer assustador, mas há respostas preparadas para acolher cada história, com respeito e segurança. E, em qualquer circunstância, a prioridade deve ser a sua segurança — e também a das pessoas que estão consigo.

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