Share the post "Aldeia da Luz: desapareceu debaixo de água para logo renascer"
A Aldeia da Luz, no concelho de Mourão, no coração do Alentejo, teve um destino trágico. Foi submersa pelas águas da Barragem do Alqueva, levando para o fundo da albufeira memórias, saberes e tradições. Mas o que podia ser uma história para contar aos netos, transformou-se numa realidade pujante.
A Aldeia da Luz foi reconstruída de raiz num outro local ali perto e, hoje, guarda, entre muros brancos e espelhos de água, uma história de memória, resistência e identidade. Assim, ali na margem esquerda do Rio Guadiana, perto da vila de Mourão e integrada na vasta região do Alqueva, está ali viçosa e sempre pronta a receber quem a visita.
A nova Aldeia da Luz ocupa agora cerca de 2 040 hectares nas Herdades da Julioa e Pássaros de Cima e merece uma visita.
A história da Aldeia da Luz: das origens à submersão
A presença humana neste território remonta ao Paleolítico e ao Neolítico, comprovada por vestígios arqueológicos encontrados na zona do Castelo Romano da Lousa, uma vila defensiva romana que guardava a passagem pelo Guadiana.
A aldeia terá também surgido na confluência de antigas estradas romanas que atravessavam o rio, fosse por barcos, por portos fluviais ou por pontes.
A própria designação “Luz” tem raízes profundas na tradição religiosa local.
Conta a lenda que Nossa Senhora apareceu a Santo Adriano enquanto este guardava o seu rebanho, surgindo sobre uma azinheira, rodeada de anjos e num resplendor de luz, revelando ser a Senhora da Luz, padroeira da freguesia. Foi nesse mesmo lugar que se ergueu o Altar-Mor da Igreja.
Administrativamente, a Aldeia da Luz foi durante séculos um curato de apresentação do Bispo de Évora, estando durante algum tempo anexada ao concelho de Reguengos de Monsaraz.
O concelho de Mourão chegou a ser suprimido entre 12 de julho de 1895 e 13 de janeiro de 1898, período durante o qual a Luz pertenceu a Reguengos. Depois disso, voltou definitivamente à tutela de Mourão.
Construção do Alqueva e o fim de uma aldeia
Com a decisão de avançar com a Barragem do Alqueva (o maior lago artificial da Europa Ocidental), o destino da antiga Aldeia da Luz ficou selado.
A aldeia original seria submersa pelas águas da albufeira, obrigando a um processo sem precedentes em Portugal, ou seja, a transferência integral de uma comunidade e a construção de uma nova aldeia de raiz.
O processo de mudança começou a 26 de junho de 2002 e concluiu-se a 1 de abril de 2003, com a população luzense a transitar da aldeia antiga para a nova, construída a apenas 2 quilómetros de distância. A inauguração oficial da nova Aldeia da Luz aconteceu a 19 de novembro de 2002.
A reconstrução seguiu uma lógica de “casa por casa, terra por terra”, mantendo as relações de vizinhança e a configuração urbanística da aldeia original, mas com uma arquitetura contemporânea que dialoga com as tradições do Alentejo.
O que visitar na Aldeia da Luz

A Aldeia da Luz é um lugar onde a história aconteceu muito recentemente, onde uma comunidade inteira foi obrigada a reinventar-se para sobreviver.
Museu da Luz: o lugar da memória
O Museu da Luz é, sem dúvida, o ponto de visita mais importante desta aldeia. Erguido entre a nova aldeia e a margem do lago de Alqueva, o museu foi pensado como espaço interpretativo das profundas transformações vividas neste território.
O próprio edifício é uma obra de referência, sendo construído em xisto pelos arquitetos Pedro Pacheco e Marie Clément.
Aberto ao público desde 2003, o Museu da Luz recebeu em 2005 uma menção honrosa da Associação Portuguesa de Museologia, na categoria de Melhor Museu do País, e integra desde 2010 a Rede Portuguesa de Museus.
O museu dispõe de três salas principais. Na Sala da Luz, uma pequena janela permite avistar o local exato onde a antiga aldeia existiu, agora submersa.
Já na Sala da Memória, há coleções etnográficas e arqueológicas que documentam o quotidiano da comunidade, a que se segue uma sala de exposições temporárias, dedicada a temas como a identidade, a paisagem e a história da região.
O serviço educativo do museu organiza visitas guiadas em português e inglês (mediante marcação prévia), bem como percursos pedestres, passeios de barco e de canoa pelo lago.
Horários: Inverno (outubro a março): 9h30–13h00 / 14h30–17h30 | Verão (abril a setembro): 10h00–13h00 / 14h30–18h00.
Encerrado às segundas-feiras. Aos domingos e feriados, a entrada é gratuita entre as 9h30 e as 13h00.
Monte dos Pássaros, a única construção que sobreviveu
O Monte dos Pássaros é a única edificação que resistiu à submersão e que foi transferida para a nova aldeia.
Uma casa tipicamente alentejana, com cozinha, chaminé, forno e grande estábulo com manjedoura corrida de xisto, o Monte dos Pássaros integra hoje o circuito do Museu da Luz e pode ser visitado mediante reserva prévia.
O espaço é também utilizado para workshops, residências artísticas e piqueniques.
Igreja de Nossa Senhora da Luz
A nova Igreja Paroquial é uma réplica da primitiva igleja do século XV que existia na antiga aldeia. Edificada no mesmo espírito arquitetónico, mantém a ligação espiritual e simbólica da comunidade com as suas origens.
Fonte Santa e lavadouro público
A nova aldeia preserva ainda uma réplica da Fonte Santa da aldeia original, que segundo a tradição brotava águas com propriedades milagrosas.
O Lavadouro Público funciona também como miradouro, oferecendo uma vista privilegiada sobre a Barragem do Alqueva.
Passadiços da Aldeia da Luz
Um dos percursos mais apreciados da região, os Passadiços da Aldeia da Luz têm cerca de 1,6 km (ida e volta) e serpenteia pelas margens do Lago do Alqueva, ligando a aldeia ao seu ancoradouro.
O trilho atravessa braços de água, um pequeno ilhéu, e oferece vistas panorâmicas sobre o lago e os montados. A entrada é gratuita e o percurso é especialmente recomendado na primavera e no outono, de preferência ao pôr do sol.
O que visitar nas redondezas da Aldeia da Luz

Se está pelos domínios do Alqueva, não faltam atrações para conhecer e sítios para comer divinalmente.
Monsaraz
A cerca de 20 km, a vila medieval de Monsaraz é uma das mais emblemáticas de Portugal e foi vencedora do concurso 7 Maravilhas de Portugal na categoria “Aldeias Monumento”.
Com as suas ruas de calçada, castelo e vistas deslumbrantes sobre o lago de Alqueva, é uma visita imperdível para qualquer viajante nesta região.
Mourão e o seu castelo
A sede de concelho, Mourão, dista apenas 7 quilómetros da Aldeia da Luz. O Castelo de Mourão, de origem medieval, domina a paisagem e oferece vistas sobre o território alentejano.
A vila tem também uma praia fluvial para quem queira mergulhar no Guadiana.
Cromeleque do Xarez
Um dos mais singulares exemplares do megalitismo em Portugal, o Cromeleque do Xarez fica nas proximidades de Reguengos de Monsaraz.
Com cerca de 50 pedras fincadas em círculo e alinhamentos, este monumento pré-histórico rival em importância com o famoso Cromeleque dos Almendres.
Barragem e Lago do Alqueva
A Barragem do Alqueva, com o seu enorme espelho de água, é um destino em si mesmo.
O miradouro da barragem oferece perspetivas únicas sobre o maior lago artificial da Europa Ocidental.
A região é palco de turismo náutico, observação de aves e astroturismo, já que o céu do Alqueva é um dos mais escuros e limpos de Portugal, certificado como Destino Starlight.
Praia Fluvial de Amieira
Considerada a maior praia fluvial do Alentejo, a Praia de Amieira, junto ao Lago do Alqueva, é ideal para um dia de praia, desportos náuticos ou simplesmente para contemplar a imensidão de água que caracteriza esta região.
Castelo Romano da Lousa
Submerso pelas águas do Alqueva, o Castelo Romano da Lousa é um dos monumentos mais emblemáticos e mais melancólicos da região.
Em épocas de seca e quando o nível da albufeira baixa, as ruínas voltam a emergir, tornando-se um espetáculo único. Para os visitantes habituais desta região, observar o castelo a emergir das águas é uma experiência marcante.
Como chegar à Aldeia da Luz
A Aldeia da Luz fica a cerca de 65 quilómetros de Évora. Vindo do norte, segue-se na direção Reguengos de Monsaraz e depois Mourão até à Luz.
Vindo do sul, a partir da Barragem de Alqueva, segue-se na direção Moura e depois Póvoa de São Miguel até à Luz.
Existem autocarros expressos entre Lisboa e Mourão, bem como ligações regulares entre a Luz e Évora.