Share the post "Comida na mesa: cabaz alimentar nunca foi tão caro em Portugal"
Os números divulgados pela Deco Proteste são claros e preocupantes, com o cabaz alimentar monitorizado pela associação de defesa do consumidor a atingir 254,12 euros, o mais elevado desde que o acompanhamento foi iniciado, em janeiro de 2022.
Comparando com o mesmo período do ano passado, o aumento chega a 12 euros. Apenas na última semana, entre 4 e 11 de março, o cabaz subiu 2,36 euros.
Mas o dado que mais impressiona é a perspetiva de longo prazo. Em janeiro de 2022, os mesmos 63 produtos custavam menos 66,42 euros.
Em pouco mais de quatro anos, o peso financeiro de encher o cesto das compras com o essencial cresceu 35,39%, uma escalada que não encontra paralelo na evolução dos salários da generalidade dos trabalhadores portugueses.
Cabaz alimentar: os produtos que mais subiram
Nem todos os produtos subiram ao mesmo ritmo.
Na última semana, os aumentos mais expressivos em termos percentuais registaram-se no atum posta em óleo vegetal (+33%, para 1,69 €/kg), nas salsichas de Frankfurt (+20%, para 1,94 €) e na massa espirais (+12%, para 1,35 €).
Produtos que, pela sua acessibilidade de preço, costumavam ser alternativas económicas para muitas famílias de menores rendimentos.
Desde o início do ano, a curgete disparou 38%, a dourada subiu 28% e a couve-coração 27%. Numa comparação anual, a curgete lidera com uma subida de 45%, seguida pelo robalo (+41%) e pelo café torrado moído (+33%), este último um produto de consumo praticamente universal entre os portugueses.
Numa perspetiva de quatro anos, os aumentos mais drásticos recaem sobre a carne de novilho para cozer (+121%, para 12,85 €/kg), a couve-coração (+87%) e os ovos (+84%, para 2,10 €/dúzia).
Os ovos, que durante décadas foram considerados uma proteína barata e acessível, viram o seu preço quase duplicar num período relativamente curto.
Custo de vida: quanto sobra para comer?

Para compreender o verdadeiro impacto destes números, é necessário enquadrá-los no rendimento real das famílias portuguesas.
O salário mínimo nacional fixado para 2026 é de 920 euros mensais. Isto significa que, para quem aufere o mínimo legal, o cabaz alimentar para uma única pessoa representa cerca de 29% do salário líquido mensal.
Para um agregado familiar com dois adultos e crianças, a pressão multiplica-se exponencialmente.
A esta realidade soma-se o contexto macroeconómico adverso. As recentes tempestades que afetaram o país perturbaram cadeias de abastecimento locais, e o aumento do preço dos combustíveis encarece o transporte de mercadorias.
A Deco Proteste alerta explicitamente que, embora os preços estejam em rota ascendente desde o início do ano, é possível que possam vir a subir ainda mais nos próximos meses, à medida que este impacto se vai fazendo sentir ao longo das cadeias de abastecimento.
Para as famílias em situação de maior vulnerabilidade, a questão não é teórica, é a escolha concreta entre pagar a renda, a eletricidade ou garantir comida suficiente para o mês.
Como mitigar o impacto no orçamento familiar
Face à persistência desta tendência inflacionista nos bens alimentares, especialistas em finanças pessoais e organizações de defesa do consumidor têm destacado algumas estratégias práticas que podem ajudar a aliviar a pressão sobre os orçamentos familiares.
Comparação de preços entre superfícies comerciais. As diferenças entre retalhistas podem ser significativas para o mesmo cabaz de produtos. Ferramentas como o Radar de Preços do ECO e as plataformas de comparação da Deco Proteste permitem identificar onde cada produto é mais barato.
Privilegiar marcas próprias. Em categorias como massas, arroz, produtos de limpeza e lácteos, as marcas dos distribuidores apresentam preços substancialmente inferiores às marcas de fabricante, com qualidade frequentemente comparável.
Planear as refeições com antecedência. Reduz o desperdício alimentar e permite comprar apenas o necessário, evitando compras por impulso que inflacionam a fatura.
Sazonalidade dos produtos hortofrutícolas. Comprar fruta e legumes da época e de produção nacional é, em geral, mais económico e contribui para reduzir a pegada ambiental. A curgete e a dourada, que registaram subidas expressivas, podem ser substituídas temporariamente por alternativas mais acessíveis.
O que pode o estado fazer?
A discussão sobre o papel do Estado na contenção dos preços dos bens alimentares não é nova em Portugal.
A medida de isenção de IVA em produtos essenciais, que vigorou temporariamente durante o período de maior pico inflacionista de 2023, foi considerada pela generalidade dos especialistas como insuficiente e de impacto limitado na cadeia de valor.
A médio prazo, as políticas que maior efeito estrutural podem ter passam pelo reforço do rendimento disponível das famílias, bem como por investimentos em resiliência das cadeias de abastecimento alimentar nacionais.
É que o recorde do cabaz alimentar de março de 2026 é, antes de mais, um sinal de alarme sobre o estado real do custo de vida em Portugal.