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A Revolução de 25 de Abril de 1974 ficou conhecida como a “Revolução dos Cravos” ou a “Revolução dos Capitães”, mas poucos sabem ao certo quem foram os militares que arriscaram as suas carreiras e vidas para derrubar o regime do Estado Novo. O Movimento das Forças Armadas (MFA), inicialmente chamado Movimento dos Capitães, foi o grupo responsável por organizar e executar o golpe militar que, em menos de 24 horas, pôs fim a 48 anos de ditadura em Portugal.
O nascimento do Movimento dos Capitães
Tudo começou no verão de 1973, quando jovens oficiais do Exército, insatisfeitos com a guerra colonial que já durava 13 anos e com as condições precárias de carreira impostas pelo Decreto-Lei 353/73, começaram a reunir-se clandestinamente. A primeira reunião que marcou simbolicamente o nascimento do movimento aconteceu no Monte do Sobral, em Alcáçovas, no dia 9 de setembro de 1973.
Nesse encontro secreto, disfarçado como uma confraternização de camaradas, participaram cerca de 136 capitães que assinaram uma carta de protesto dirigida ao Presidente do Conselho, Marcello Caetano. O evento foi meticulosamente preparado por cinco jovens capitães que se tornariam figuras centrais do movimento: Diniz de Almeida, Vasco Lourenço, Rosário Simões, Carlos Camilo e Bicho Beatriz.
Inicialmente, as preocupações eram sobretudo de ordem profissional, relacionadas com questões de carreira e promoções. Contudo, à medida que as reuniões clandestinas avançavam, o movimento foi evoluindo e ganhando uma dimensão muito mais ambiciosa. A questão do fim da guerra colonial tornou-se central, e os capitães começaram a perceber que a única forma de pôr termo ao conflito seria derrubar o próprio regime.
A evolução para o golpe de Estado
Durante o outono e inverno de 1973, o movimento intensificou a sua atividade conspirativa. Realizaram-se várias reuniões secretas em diferentes locais do país, incluindo uma importante assembleia em Óbidos, no dia 1 de dezembro de 1973, onde participaram cerca de 180 oficiais representando mais de 420 militares. Nessa reunião foi eleita a primeira Comissão Coordenadora do Movimento dos Capitães.
A Comissão Coordenadora inicial incluía nomes que marcariam a história de Portugal: Vasco Lourenço, Otelo Saraiva de Carvalho e Vítor Alves. Em março de 1974, o movimento passou a designar-se oficialmente Movimento das Forças Armadas, refletindo a adesão de elementos de outras patentes e ramos das forças armadas.
O contexto político acelerou os acontecimentos. Em fevereiro de 1974, o general António de Spínola publicou o livro “Portugal e o Futuro”, onde defendia uma solução política, e não militar, para a guerra colonial. A demissão forçada dos generais Spínola e Costa Gomes dos seus cargos, em março de 1974, foi o catalisador final que levou o MFA a decidir avançar com o golpe militar.
A tentativa falhada das Caldas da Rainha
Antes do 25 de Abril, houve uma tentativa gorada de golpe. No dia 16 de março de 1974, devido à destituição dos generais ligados ao MFA e às ordens dadas à PIDE para reprimir o movimento, os oficiais do Regimento de Infantaria 5 saíram das Caldas da Rainha em direção a Lisboa com o objetivo de derrubar a ditadura.
Esta tentativa, conhecida como o Levantamento das Caldas, fracassou porque foi a única unidade a sair, numa ação descoordenada. Cerca de 200 militares foram presos, incluindo os capitães Almeida Bruno, Manuel Monge, Casanova Ferreira, Armando Ramos e Virgílio Varela. Contudo, este episódio mostrou aos oficiais do MFA ainda hesitantes que a única opção era fazer um golpe de Estado bem coordenado, e aceleraram os preparativos para a tomada do poder.
Os arquitetos do 25 de Abril
O planeamento da operação militar que derrubaria o regime ficou a cargo de um grupo restrito de oficiais. Otelo Saraiva de Carvalho, que na altura do golpe era major e não capitão, foi o responsável por elaborar o plano de operações e coordenar toda a ação militar a partir do posto de comando instalado no Regimento de Engenharia 1, na Pontinha.
Vítor Alves, nascido em Mafra em 1935, ficou encarregado da direção política do movimento. Foi ele quem redigiu o programa do MFA e o responsável pelo comunicado divulgado à população no dia 25 de Abril. Vítor Alves substituiu Otelo no posto de comando da Pontinha a partir das 16h00, passando a coordenar o desenvolvimento da ação.
Vasco Lourenço, natural de Castelo Branco e que tinha combatido na Guiné entre 1969 e 1971, era outro membro fundamental da Comissão Coordenadora. No entanto, em março de 1974 foi afastado para os Açores pelo regime, numa tentativa de difundir a conspiração. Este “exílio” impediu-o de estar presente fisicamente no dia 25 de Abril, mas o seu papel na preparação foi decisivo.
Salgueiro Maia: o herói do Largo do Carmo
Se Otelo foi o estratega que planeou e coordenou o golpe, Fernando Salgueiro Maia tornou-se o rosto mais visível e consensual da revolução. Nascido em Castelo de Vide em 1944, Salgueiro Maia tinha 29 anos quando foi escolhido pelos oficiais da Escola Prática de Cavalaria de Santarém para comandar a coluna de blindados que saiu rumo a Lisboa na madrugada de 25 de Abril.
No dia 17 de abril, Otelo entregou-lhe a missão operacional da Escola Prática de Cavalaria. Salgueiro Maia partiu de Santarém depois de ouvida a senha “Grândola, Vila Morena” na Rádio Renascença, às 00h20 de 25 de abril. Chegou a Lisboa entre as 05h30 e as 05h45, ocupando rapidamente os objetivos determinados no plano de operações.
O momento mais emblemático da sua atuação aconteceu no Largo do Carmo, onde cercou o quartel da GNR onde se tinham refugiado Marcello Caetano e alguns ministros. Salgueiro Maia demonstrou uma maturidade invulgar, tanto no plano operacional como na perceção política do que estava em jogo. Evitou confrontos desnecessários e nunca afastou o povo dos locais das operações, ao contrário do que seria expectável numa ação militar.
Foi no Quartel do Carmo que Salgueiro Maia confrontou o Presidente do Conselho com a exigência de rendição. Marcello Caetano só aceitou entregar-se a um general, no caso António de Spínola, para que “o poder não caísse na rua”.
Outros capitães fundamentais
Para além das figuras mais conhecidas, dezenas de outros capitães tiveram papéis cruciais na organização e execução do 25 de Abril. Diniz de Almeida foi fundamental na ligação entre as reuniões preparatórias em Portugal continental e as comissões coordenadoras nas colónias. Depois da revolução, ficou conhecido como o “Fittipaldi das Chaimites” pela sua atuação no dia 11 de março de 1975, quando travou a tentativa de golpe spinolista.
Vítor Crespo, da Marinha, foi outro dos principais dirigentes do MFA, integrando a equipa do posto de comando da Pontinha nas operações do 25 de Abril. Mais tarde assumiu o cargo de Alto-Comissário de Moçambique até à independência deste território.
A preparação do golpe envolveu também a participação de oficiais de outros ramos das forças armadas. Hugo dos Santos, Almada Contreiras e Pedro Lauret foram alguns dos elementos da Marinha que garantiram a coordenação entre os diferentes ramos.
O dia que mudou Portugal
Na noite de 24 para 25 de abril de 1974, depois de ouvidas as senhas radiofónicas, as unidades militares saíram dos quartéis para cumprir os objetivos definidos no plano de operações. Otelo coordenou tudo por telefone, minuto a minuto, a partir da Pontinha.
Os militares ocuparam pontos estratégicos fundamentais como a RTP, a Emissora Nacional, o Rádio Clube Português, o Aeroporto de Lisboa, o Quartel-General, o Estado-Maior do Exército, o Ministério do Exército, o Banco de Portugal e as estações de telecomunicações. As forças paramilitares leais ao regime, como a Legião Portuguesa, começaram a render-se. A PIDE acabou por se entregar também.
A ditadura foi derrubada em menos de 24 horas, quase sem derramamento de sangue. Apenas quatro pessoas morreram nos confrontos, todas vítimas de disparos da PIDE na Rua do Carmo. O povo saiu à rua em festa, colocando cravos vermelhos nos canos das espingardas dos soldados, criando a imagem icónica que deu nome à revolução.
Após o 25 de Abril, os capitães do MFA tiveram percursos muito diferentes. Otelo Saraiva de Carvalho assumiu o comando do COPCON (Comando Operacional do Continente) e tornou-se uma figura controversa do período revolucionário. Concorreu às eleições presidenciais de 1976, ficando em segundo lugar com quase 800 mil votos. Mais tarde foi acusado de envolvimento com as Forças Populares 25 de Abril, tendo cumprido cinco anos de prisão antes de ser amnistiado. Morreu em 2021.
Salgueiro Maia recusou cargos políticos e manteve-se discreto após a revolução. Foi promovido a coronel e dedicou-se à vida militar até à sua morte prematura em 1996. O seu funeral foi um acontecimento nacional, com milhares de pessoas a prestarem-lhe homenagem.
Vasco Lourenço passou à reserva como tenente-coronel e tornou-se presidente da Associação 25 de Abril, fundada em 1982. Mantém-se como uma das vozes mais ativas na preservação da memória da revolução.
Vítor Alves foi ministro em vários governos provisórios, responsável pelas pastas da Defesa Nacional, Comunicação Social e Educação. Foi ele quem aprovou a primeira lei de imprensa pós-25 de Abril, que vigorou até 1999. Morreu em 2011.
Diniz de Almeida manteve-se ligado às causas da esquerda e à defesa dos valores de Abril até à sua morte em 2021, vítima de covid-19.
O legado dos capitães de Abril
O Movimento das Forças Armadas não se limitou a derrubar uma ditadura. O programa do MFA, baseado nos “três Dês” – Descolonizar, Democratizar e Desenvolver – tornou-se a lei fundamental do país até à promulgação da Constituição da República de 1976.
Os capitães de Abril eram, na sua maioria, jovens oficiais com experiência direta na guerra colonial, que conheciam bem os horrores do conflito e a impossibilidade de uma vitória militar. O capitão era a peça fundamental da guerra colonial, o que lhes deu uma experiência de comando e capacidade operacional muito grandes. Esta vivência foi determinante para o sucesso do golpe.
A revolução permitiu a libertação dos presos políticos das cadeias de Caxias e Peniche, o regresso dos exilados como Mário Soares e Álvaro Cunhal, a legalização dos partidos políticos e sindicatos, e a realização das primeiras eleições livres em 1975. Portugal iniciou o processo de descolonização que levou à independência de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.
Cinquenta anos depois, os nomes de Salgueiro Maia, Otelo Saraiva de Carvalho, Vasco Lourenço, Vítor Alves e dezenas de outros capitães permanecem inscritos na história de Portugal como os homens que devolveram a liberdade e a democracia ao país. O 25 de Abril foi obra de militares, mas transformou-se numa revolução popular que mudou Portugal para sempre.
Associação 25 de Abril. (n.d.). Preparativos operacionais – Ordem operações. https://a25abril.pt/base-de-dados-historicos/bdh-mov-capitaes-mfa-conspiracao/mcmc-preparativos-operacionais-ordem-operacoes/
Comissão Comemorativa 50 Anos 25 Abril. (2024, março 4). Capitães em movimento. https://50anos25abril.pt/historia/capitaes-em-movimento/
Diário de Notícias. (2024, dezembro 23). De comandante da revolução a terrorista amnistiado. A vida do mais polémico militar de Abril. https://www.dn.pt/politica/de-comandante-da-revolucao-a-terrorista-amnistiado-morreu-o-mais-polemico-militar-de-abril-13973559.html
Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência. (n.d.). Glossário 25 de Abril. https://info.dgeec.medu.pt/glossario-25-de-abril/
Noronha, R. (2016). Anatomia de um golpe de Estado fracassado: 11 de março de 1975. Ler História, 69, 71–87. https://doi.org/10.4000/lerhistoria.2487
Observador. (2023, novembro 26). 25 Abril: Capitães eram a peça fundamental da guerra colonial – Vasco Lourenço. https://observador.pt/2023/11/26/25-abril-capitaes-eram-a-peca-fundamental-da-guerra-colonial/
RTP. (2023, abril 23). 25 de Abril. Os anos da Revolução dos Cravos. https://www.rtp.pt/noticias/pais/25-de-abril-os-anos-da-revolucao-dos-cravos_n1481491
RTP Ensina. (2025, abril 25). Quem foram os Capitães de Abril? https://ensina.rtp.pt/artigo/quem-foram-os-capitaes-de-abril/
RTP Memórias da Revolução. (2015, junho 1). As Forças Armadas e a Revolução. Que lugar para o MFA? https://media.rtp.pt/memoriasdarevolucao/acontecimento/as-forcas-armadas-e-a-revolucao-que-lugar-para-o-mfa/
Visão. (2023, novembro 26). 25 Abril: Capitães eram a peça fundamental da guerra colonial – Vasco Lourenço. https://visao.pt/atualidade/sociedade/2023-11-26-25-abril-capitaes-eram-a-peca-fundamental-da-guerra-colonial-vasco-lourenco/