A questão da segurança dos carros elétricos em relação a incêndios volta ciclicamente ao debate público.
Sempre que um veículo elétrico arde, as imagens espetaculares rapidamente se tornam virais nas redes sociais, alimentando receios e dúvidas sobre a tecnologia. Mas será que os números sustentam estas preocupações?
Contrariando a perceção popular, os dados internacionais demonstram com consistência que os carros elétricos têm uma probabilidade significativamente menor de se incendiarem quando comparados com veículos de combustão interna.
Na Suécia, um dos países com maior penetração de veículos elétricos na Europa, a Agência de Contingências Civis registou 3,8 incêndios por cada 100.000 carros elétricos ou híbridos, em comparação com 68 incêndios por cada 100.000 veículos a combustão.
Os dados suecos entre 2018 e 2024 confirmam que os veículos a combustão são cerca de 20 vezes mais propensos a incêndios.
Nos Estados Unidos, o panorama é semelhante. Um estudo da AutoinsuranceEZ, baseado em dados da National Transportation Safety Board, revelou 25 incêndios por cada 100.000 carros totalmente elétricos vendidos, contrastando com 1.530 incêndios em veículos a combustão para o mesmo número de unidades.
Esta diferença representa um risco 60 vezes menor para os elétricos. Mais recentemente, dados da Polónia referentes ao primeiro semestre de 2025 mostram que dos 4.712 incêndios automóveis registados, apenas 23 envolveram veículos 100% elétricos (menos de 0,5%), enquanto 98,4% corresponderam a carros a combustão.
“As baterias explodem facilmente”: Embora a fuga térmica possa ser
violenta, as baterias de iões de lítio modernas possuem múltiplos
mecanismos de segurança. Explosões massivas são extremamente
raras, ocorrendo tipicamente apenas após danos físicos severos ou falhas catastróficas.
“É impossível apagar um incêndio num carro elétrico”: Embora mais
complexo e demorado, os serviços de emergência estão equipados
e treinados para lidar com estas situações. A água continua a ser o
método mais eficaz, aplicada em grandes quantidades
para arrefecer as baterias.
“Os carros elétricos libertam vapores tóxicos constantemente”: As baterias
são hermeticamente seladas e não emitem gases durante o uso normal.
Emissões tóxicas só ocorrem em casos raros de acidentes graves que levem
a incêndios na bateria.
“Não se pode carregar um carro elétrico à chuva”: Os veículos elétricos são desenhados com proteção IP67 ou IP68, garantindo
resistência total à água e poeira. Carregar à chuva é perfeitamente seguro.
Por que parecem arder mais? Perceção pública

Se os dados demonstram inequivocamente que os carros elétricos têm menor probabilidade de se incendiarem, porque persiste a sensação contrária no público? A resposta encontra-se numa combinação de fatores mediáticos e características específicas destes incêndios.
Basicamente, grande parte dos incêndios em carros a combustão simplesmente não são noticiados pela comunicação social. Por serem eventos relativamente comuns e menos espetaculares, não geram notícias.
Pelo contrário, quando um carro elétrico arde, a novidade tecnológica e o dramatismo visual das chamas tornam o evento noticiável. Adicionalmente, o parque automóvel de veículos elétricos ainda representa uma fração relativamente pequena do total de automóveis em circulação.
A complexidade do combate ao fogo
Embora os incêndios em veículos elétricos sejam estatisticamente mais raros, apresentam desafios técnicos específicos quando ocorrem. É aqui que reside a verdadeira preocupação que justifica atenção dos serviços de emergência e da indústria automóvel.
Quando uma bateria de iões de lítio entra em combustão, desencadeia-se um processo chamado “fuga térmica”. Este fenómeno químico ocorre quando uma célula da bateria sofre um curto-circuito ou perde eletrólito, gerando calor extremo. As temperaturas podem atingir os 2.760°C, muito acima dos 815°C típicos de um incêndio num veículo a combustão.
Os bombeiros enfrentam assim um desafio singular. Enquanto um incêndio num carro convencional pode ser controlado em poucos minutos, apagar as chamas num veículo elétrico frequentemente requer várias horas e quantidades massivas de água. Em alguns casos específicos, as equipas de emergência recorrem a tanques para submergir completamente o veículo e evitar reacendimentos, que podem ocorrer até semanas após o incidente inicial.
Outro risco significativo prende-se com a emissão de gases tóxicos durante a combustão. As baterias libertam não apenas dióxido de carbono, mas também metais pesados e outros compostos perigosos, representando uma ameaça adicional para os bombeiros e para o ambiente.
Carros elétricos: causas comuns para os incêndios

Os estudos internacionais identificaram os principais fatores que podem desencadear incêndios em veículos elétricos.
Colisões e danos mecânicos representam uma causa significativa. Acidentes graves podem comprometer a integridade física da bateria, perfurando células e iniciando a fuga térmica.
Problemas durante o carregamento correspondem a 18-30% dos incidentes registados.
O processo de carga representa um momento de stress térmico para a bateria, podendo revelar danos latentes. Sobrecarregamento, carregadores defeituosos ou picos de tensão na rede elétrica podem contribuir para o sobreaquecimento.
Defeitos de fabrico, embora raros devido aos rigorosos controlos de qualidade, podem ter consequências graves. Impurezas ao nível celular podem provocar fuga térmica dias após um acidente aparentemente menor.
Fatores ambientais extremos também desempenham um papel. Ondas de calor, inundações ou humidade elevada podem desestabilizar a química das células, particularmente em baterias envelhecidas.
É ainda relevante mencionar que muitos incêndios em veículos de qualquer tipo resultam de causas externas, como fogo posto, incêndios que se propagam de outras estruturas ou problemas mecânicos não relacionados com o sistema de propulsão.
A indústria responde: inovações em segurança
Conscientes dos desafios específicos, os fabricantes automóveis têm investido substancialmente em tecnologias para prevenir incêndios e minimizar riscos.
A Tesla, por exemplo, implementou um sistema de “corte de corrente” que desliga automaticamente a bateria em caso de acidente grave, reduzindo significativamente o risco de ignição. A marca reporta uma média de um incêndio por cada 209 milhões de quilómetros percorridos pelos seus veículos.
A Renault desenvolveu um sistema de acesso dos bombeiros, particularmente útil em caso de incêndio. Outras marcas, como a BMW, o Volkswagen Group e a Hyundai, recorrem a sistemas avançados de gestão térmica, monitorização contínua das baterias e compartimentação reforçada, com o objetivo de detetar falhas precocemente e conter eventuais incidentes.
Evolução das baterias
No que toca à química das baterias, a indústria está a mudar progressivamente para cátodos de fosfato de ferro-lítio (LFP), isentos de níquel e cobalto.
As baterias LFP apresentam elevada estabilidade térmica, tornando-as muito menos propensas à fuga térmica. Modelos mais recentes, como as baterias tipo Blade, prometem níveis de segurança ainda superiores.
O futuro aponta para as baterias de estado sólido, atualmente em desenvolvimento. Estas substituem os eletrólitos líquidos inflamáveis das baterias de iões de lítio atuais por eletrólitos sólidos não inflamáveis, prometendo reduzir drasticamente os riscos de incêndio.
Veículos híbridos: um dado surpreendente

Um dado frequentemente negligenciado nas discussões públicas prende-se com os veículos híbridos. Surpreendentemente, as estatísticas demonstram que os híbridos apresentam a maior taxa de incêndios, com 3.474 casos por cada 100.000 veículos nos Estados Unidos da América. Uma média que ultrapassa tanto os veículos convencionais como os totalmente elétricos.
Esta realidade deve-se ao facto de os híbridos combinarem dois sistemas de propulsão (o motor a combustão e o sistema elétrico) cada um com os seus próprios riscos. Paradoxalmente, a tecnologia que muitos veem como “o melhor dos dois mundos” apresenta, em termos estatísticos de segurança contra incêndios, o pior cenário.
Evoluir e monitorizar
No fundo, à medida que a frota global de veículos elétricos se expande torna-se essencial monitorizar a evolução dos padrões de segurança. E há outros fatores a considerar, como o envelhecimento da frota. Nos veículos a combustão, o risco de incêndio tende a aumentar com a idade.
Será crucial acompanhar se esta tendência se replica nos elétricos à medida que os primeiros modelos massificados envelhecem.