Miguel Pinto
Miguel Pinto
08 Abr, 2026 - 11:30

Cessar fogo no Irão: quando se vão sentir os efeitos na economia?

Miguel Pinto

Foi alcançado um cessar fogo na guerra no Irão. Os mercados reagiram com alívio, mas quando é que isso se vai refletir no custo de vida?

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Depois de semanas de escalada militar e de ameaças, os Estados Unidos e o Irão acordaram um cessar-fogo de duas semanas. O anúncio foi feito de madrugada pelo Presidente Donald Trump, com mediação do Paquistão e pressão nos bastidores da China, e trouxe consigo um tsunami, desta vez económico cujos efeitos já se fazem sentir em todo o planeta.

A menos de duas horas do fim de um prazo dado por Trump, que ameaçou destruir “toda uma civilização numa só noite”, chegou o acordo. O Irão aceitou reabrir o Estreito de Ormuz. Washington comprometeu-se a suspender os bombardeamentos e as negociações formais arrancam esta sexta-feira em Islamabad.

Mercados: queda histórica nos preços da energia

A resposta dos mercados foi instantânea. O petróleo Brent, referência europeia, caiu cerca de 13% para os 94,87 dólares por barril nas horas imediatamente após o anúncio. O WTI, referência norte-americana, caiu ainda mais, perto de 14%, para 87,22 dólares.

Em termos absolutos, desde o início do conflito, as cotações do crude chegaram a subir mais de 50% e o cessar-fogo devolveu parte substancial desse prémio de guerra.

O gás natural na Europa foi ainda mais expressivo. O contrato de futuros TTF de referência, negociado em Amesterdão, afundou cerca de 20% na abertura do mercado, chegando momentaneamente aos 42,5 euros por megawatt-hora. É um alívio real, mas com asterisco.

Por que razão o alívio é parcial e provisório

Há um detalhe que os analistas não deixam passar; um cessar-fogo não é o mesmo que o fim da guerra, nem o mesmo que o regresso imediato do petróleo ao mercado.

Porquê? Porque o Estreito de Ormuz não se reabre com um simples clique. As infraestruturas portuárias e petroquímicas sofreram danos significativos durante os ataques das últimas semanas.

A navegação no estreito, segundo o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, dependerá de coordenação com as Forças Armadas iranianas e o Irão pretende cobrar cerca de dois milhões de dólares por navio que atravesse o corredor estratégico. Os constrangimentos técnicos são reais.

Além disso, as duas versões do acordo não coincidem inteiramente. Trump fala em “base viável para negociações”. Teerão reivindica uma “grande vitória histórica” e afirma que os EUA aceitaram praticamente todas as suas exigências, incluindo o direito a continuar a enriquecer urânio.

Washington contesta esta leitura. As próximas duas semanas de negociações em Islamabad serão, portanto, tudo menos simples.

O Estreito de Ormuz: a garganta do mundo

Para perceber a magnitude do que está em jogo, é preciso olhar para a geografia. O Estreito de Ormuz, com apenas 33 quilómetros na sua parte mais estreita, é o ponto de passagem de aproximadamente 20,3 milhões de barris de petróleo por dia.

Quando o Irão bloqueou este corredor a 28 de fevereiro, não afetou apenas o preço dos combustíveis. Afetou toda a cadeia de valor da economia global, desde o custo do plástico até ao preço das passagens aéreas, desde os fertilizantes agrícolas até à eletricidade das fábricas europeias.

O encerramento do Estreito alimentou um prémio de risco nos preços que ainda não desapareceu completamente. E enquanto a reabertura for coordenada pelas forças iranianas, e sujeita a taxas, o mercado manterá alguma incerteza estrutural.

Inflação, juros e crescimento: as incógnitas

A guerra no Irão chegou num momento particularmente delicado para a economia mundial. A inflação, que estava a arrefecer de forma gradual na Europa e nos EUA, voltou a aquecer com o choque energético.

Nos Estados Unidos, o preço médio da gasolina na bomba chegou a atingir os 4,14 dólares por galão, um aumento de cerca de 35% desde o início do conflito.

Com o cessar-fogo, alguns risco recuam, mas não desaparecem. O petróleo continua acima dos níveis pré-conflito. As infraestruturas danificadas não se reconstruem da noite para o dia.

E a incerteza geopolítica, com negociações que têm pela frente pontos de discórdia profundos, vai continuar a pesar nas decisões de investimento e de política monetária.

Quem ganha e quem perde com este cenário

Os consumidores europeus são, provavelmente, os que mais têm a ganhar no imediato. A queda de 20% no gás natural e de 13% no petróleo traduz-se, a prazo, em faturas de energia mais baixas e em alívio no custo de vida.

As economias emergentes e importadoras de petróleo, particularmente na Ásia e em África, podem respirar de alívio. O choque energético dos últimos meses agravou as suas balanças comerciais e a pressão inflacionista. Um barril mais barato é oxigénio para essas economias.

Os países exportadores de petróleo que conseguiram continuar a exportar durante o bloqueio, como a Arábia Saudita, que viu o preço do crude disparar, enfrentam agora receitas mais baixas. A OPEP+ já alertou para os danos a ativos de energia no Médio Oriente como um problema duradouro para a oferta, mesmo depois do fim do conflito.

As empresas de aviação, transportes e logística são as que mais rapidamente sentem o alívio. Os combustíveis representam uma fatia significativa dos seus custos operacionais e qualquer redução do preço do crude melhora as suas margens.

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O que esperar nas próximas duas semanas

As negociações em Islamabad começam esta sexta-feira. O que está em cima da mesa é, simultaneamente, enorme e contraditório.

  • O Irão exige o levantamento de todas as sanções económicas e o descongelamento dos seus ativos financeiros.
  • Teerão insiste no direito de continuar a enriquecer urânio, algo que foi uma das causas declaradas da guerra.
  • Washington quer garantias contra o desenvolvimento de armamento nuclear e o fim do financiamento a grupos armados na região.
  • Israel mantém a posição de que o Líbano não está incluído no cessar-fogo.

São posições que, em grande medida, parecem incompatíveis. Mas os mercados não vivem de certezas, vivem de expectativas. E por agora, a expectativa é de que o pior cenário foi evitado.

O ouro, que tinha perdido cerca de 12% do seu valor desde o início do conflito ao perder o estatuto de ativo de refúgio para o dólar, começa a recuperar. O dólar enfraquece ligeiramente face às principais moedas.

E o mundo retoma, com cautela, o ritmo de antes, sem nunca esquecer que o Estreito de Ormuz continua, formalmente, sob coordenação iraniana.

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