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Miguel Pinto
Miguel Pinto
18 Mai, 2020 - 12:11

COVID-19: tudo o que precisa saber se tem que ir ao dentista

Miguel Pinto

Ir ao dentista no meio de uma pandemia como a que vivemos levanta muitas dúvidas e receios. Nada melhor do que ouvir um especialista sobre a matéria.

Tratamento no dentista

Ao longo do período de confinamento que agora vai terminando, muita gente quase que rezou para não ter uma dor de dentes mais violenta a necessitar de tratamento imediato no consultório de um dentista.

Os receios sobre a transmissão do vírus que provoca a COVID-19, levaram muita gente a adiar uma ida ao dentista, sendo que os próprios consultórios acabaram por encerrar, fruto das regras impostas pelo estado de emergência.

Com o fim progressivo do confinamento, os espaços começaram a reabrir. Por isso, o Ekonomista falou com o médico-dentista Miguel Rocha no sentido de saber que regras estão instituídas para proteger não só quem se dirige ao consultório, mas também os profissionais que lá trabalham.

Dentista: consultórios garantem toda a segurança

Visita ao dentista

Ekonomista: Que medidas tomaram os médicos-dentistas para assegurar a segurança dos seus pacientes e a higienização dos seus consultórios?

Miguel Rocha: Antes de mais é importante relembrar os utentes das clínicas dentárias que os nossos espaços estão, desde sempre, preparados, bem como as nossas equipas, para garantir a segurança dos nossos pacientes. Poucas profissões estão tão rotinadas em lidar com infecções cruzadas, porque é disto essencialmente que se trata. Falo de Tuberculose, Hepatite B, HIV, SARS, H1N1, ou seja, ao longo dos tempos tivemos que ir lidando com tudo isto e tivemos que garantir sempre um ambiente de trabalho seguro para nós e para os nossos pacientes.

Isto permitiu a realização, desde o primeiro momento, de consultas presenciais urgentes (cujos critérios foram bem definidos) sem protocolos oficias, quer da Ordem, quer da DGS. Isso foi possível usando apenas o nosso bom senso e toda a experiência acumulada ao longo de anos no combate às infecções cruzadas.

Apesar disso uma pandemia é, obviamente, uma situação de excepção e não poderia continuar desta forma. Assim sendo, por forma a permitir a reabertura das clínicas, a Ordem e a DGS emitiram um conjunto de normas e protocolos a que todos estamos obrigados.

EK: Como é feita a gestão de agenda para não haver qualquer tipo de aglomerado? 

MR: No que diz respeito à segurança dos pacientes esse protocolo passa por haver a obrigação de realizar uma triagem prévia telefónica. Nenhum paciente deverá comparecer sem marcação. Essa triagem serve não só para avaliação de possíveis sintomas da COVID-19, mas serve também para fazermos uma gestão da agenda que obedece a critérios bem definidos.

Temos que saber antecipadamente o tratamento que vamos realizar para prepararmos o equipamento, para ajustar o tempo de consulta e para avaliarmos o tempo de espera que teremos que fazer para o paciente seguinte. Isto depende, essencialmente, da necessidade ou não de realizar procedimentos geradores de aerossóis. Com base em todos estes factores temos que preparar a agenda escolhendo os tratamentos que fazemos no início do período do trabalho e os que temos que deixar para o fim do dia.

Estes procedimentos têm em vista optimizar a higienização e a ventilação do espaço. Isto restringe muito o número de pacientes que podemos ver diariamente, mas garante a sua segurança.

A única exigência mais desagradável para o paciente é um bochecho de 30 segundos a 1 minuto com uma diluição de peróxido de hidrogénio, conforme preconizado pelas normas da DGS

EK: Numa situação como a do novo coronavírus quais são as principais preocupações do médico-dentista quando está a tratar um paciente, designadamente no que diz respeito ao contacto?

MR: O principal é prevenir a infecção dos profissionais usando os equipamentos de protecção adequados a cada procedimento. Estamos em contacto directo com o principal modo de transmissão do vírus, a saliva. Somos, por isso, das profissões de maior risco e as normas para nossa protecção são claras e rígidas. Temos um protocolo para colocação de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), e outro para a sua remoção. Temos protocolos para os resíduos um pouco diferentes também… Mas, mais uma vez, nada de extraordinário para quem está habituado a lidar com o risco de infecções cruzadas.

A principal preocupação foi, numa fase inicial, a escassez de material de protecção e, posteriormente, a inflação dos seus custos que, inevitavelmente, acaba por se reflectir no custo para o paciente. Esperamos que brevemente, com os apoios previstos por parte do Estado e com a natural regularização do mercado, essa preocupação desapareça.

EK: O que se exige a um paciente que se dirige a um consultório de dentista? Que precauções são exigidas?

MR: Nada de complicado. Pede-se que não compareça sem marcação, que responda honestamente às perguntas feitas para realizar a triagem e que, uma vez nas nossas instalações, siga as nossas instruções que serão sempre simples e claras. A única exigência desagradável é um bochecho de 30 segundos a 1 minuto com uma diluição de peróxido de hidrogénio, conforme preconizado pelas normas da DGS.

EK: Já é possível fazer qualquer tipo de tratamento no dentista ou neste momento de pandemia ainda há procedimentos que devem ser evitados ou adiados?

MR: Sim, é possível qualquer tipo de tratamento. No entanto se o paciente for positivo, ou suspeito disso, deve-se evitar ou adiar o tratamento. No entanto, se não for possível e o tratamento tiver mesmo que ser feito existem protocolos para a realização dos mesmos.

Nos restantes pacientes temos indicações para, sempre que possível, evitar aerossóis preferindo instrumentos manuais aos rotatórios ou de ultrassons, que são os que necessitam de água para o seu funcionamento.

Nenhum paciente deverá comparecer sem marcação. Essa triagem serve não só para avaliação de possíveis sintomas da COVID-19, mas serve também para fazermos uma gestão da agenda

EK: Tendo em conta que os principais canais de infeção pelo novo coronavírus se encontram no trato superior respiratório, que importância tem a higiene oral e o tratamento de problemas dentários para ajudar a obstar à infeção? Já há estudos sobre isso?

MR: Não tenho conhecimento de estudos específicos sobre isso. Parece haver, no entanto, manifestações específicas a nível da mucosa oral, em paciente positivos, mas ainda é cedo para conclusões.

De qualquer forma está bem conhecida e documentada a importância da saúde oral no bem estar geral do indivíduo e a influência negativa que os problemas orais podem ter na capacidade do sistema imunitário desse indivíduo. Nesse sentido ter uma correcta higiene oral e uma boa saúde dentária, são condições essenciais para se ser um indivíduo saudável, é fundamental.

Assim sendo foi com grande alívio que recebemos autorização e normas para podermos voltar a tratar dos nossos pacientes.

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