Assunção Duarte
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16 Mai, 2019 - 10:26
Airbnb: da revolução aos desafios para o futuro das cidades

Airbnb: da revolução aos desafios para o futuro das cidades

Assunção Duarte

Em 11 anos o Airbnb revolucionou a forma como cidades e habitantes se relacionam. Mas esta revolução criou vários desafios Airbnb, e em muitas frentes.

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Os desafios Airbnb começaram a desenhar-se no horizonte há 11 anos atrás, na cidade americana de São Francisco.

Numa altura em que uma conferência internacional de Design fez com que todos os hotéis da cidade ficassem completamente cheios, os fundadores desta plataforma online de aluguer de quartos e apartamentos decidiram cobrar dinheiro a hóspedes que queriam assistir à conferência para estes poderem dormir em colchões de ar que tinham em casa.

Os hóspedes agradeceram, porque não tinham solução para o seu problema, e os anfitriões também, porque ganharam rendimento extra. E assim nasceu o “Air Bed and Breakfast” .

O objectivo era apenas este. Que todas as pessoas que tivessem um quarto livre pudessem ganhar dinheiro com ele, oferecendo alternativas mais acessíveis às tradicionais cadeias hoteleiras, mas garantido uma boa estadia a quem não pudesse pagar tanto.

Mas desde 2008, ano em que foi fundado o site que ajudava as pessoas com quartos livres a publicitá-los online para arranjarem hóspedes, a plataforma provou que até a ideia mais simples se pode tornar complexa e que o “bater de asas” de um anfitrião em São Francisco, pode mesmo causar uma tempestade no outro lado do mundo.

Com 6 milhões de quartos registados no site e presente em mais de 80 mil cidades em todo o mundo, os desafios criados pelo Airbnb não só se tornaram gigantescos como difíceis de resolver.

Desafios Airbnb: a vida urbana das cidades mudou para pior

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O principal desafio criado pelo Airbnb está relacionada com a descaracterização das zonas mais histórias das cidades em que a empresa tem muita penetração. No topo das cidades mais afectadas estão Londres, Paris e Nova Iorque, com o maior número de acomodações registadas no Airbnb, mas outras cidades já começam a sentir os efeitos negativos deste negócio da “china” como Barcelona e mesmo Lisboa.

Mas de que se queixam estas cidades? Do aumento brutal das rendas para os residentes e do facto da vida tradicional urbana destas cidades, a que atraiu primeiramente os turistas, ter mudado ou pura e simplesmente desaparecido.

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São duas as razões apontadas para estas mudanças. A primeira está relacionada com a má vizinhança que o excesso de quartos com aluguer de curta duração criou nos bairros típicos onde habitavam famílias e pessoas locais. Barulho, falta de educação e estragos afastaram as pessoas desses locais.

A segunda tem a ver com o aumento enorme das rendas praticadas pelos senhorios das casas. Estes começaram a forçar os habitantes locais “menos rentáveis” a saírem ou a substituírem os seus contratos de aluguer de longa duração por contratos de curta duração mais caros.

O resultado está à vista: a vivência urbana das cidades e que fazia parte do seu encanto está a mudar radicalmente.

Desafios Airbnb: sucesso à margem da lei

Calculando uma média, neste momento estima-se que 2 milhões de pessoas estão a passar a noite num apartamento anunciado no site Airbnb em qualquer parte do mundo.

O crescimento foi tão grande que já surgiram plataformas novas a copiar este modelo de negócio e mesmo as cadeias tradicionais de hotéis já querem um pedaço da fatia deste bolo chorudo.

A Airbnb como empresa foi avaliada o ano passado em 31 mil milhões de dólares o que a torna a segunda maior empresa privada nos Estados Unidos. Imaginem quem está em primeiro lugar? A Uber, outra empresa que faz parte dos novos negócios da economia partilhada digital que se baseiam na mesma ideia: fazer dinheiro partilhando alguma coisa que é nossa, mas que podemos emprestar.

Tudo poderia correr bem se o negócio se tivesse mantido caseiro ou familiar, mas tamanho crescimento chamou a atenção para o facto destas empresas eventualmente atuarem à margem da lei.

Enquanto que a Uber são as lei laborais que estão debaixo de fogo, no caso do Airbnb a questão que salta à vista são as denúncias de serem anunciados apartamentos que estão muitas vezes na situação ilegal de subarrendamento.

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Outro problema é o facto de centenas de apartamentos listados na plataforma terem o mesmo dono o que pode significar que já fazem parte de negócios de especulação imobiliária criados um pouco por todo o mundo, que fogem às normais exigências legais que os levariam a pagar impostos e a redistribuir a riqueza acumulada neste negócio como socialmente é devido em democracia.

Desafios Airbnb: queixas de falhas de segurança e fraudes

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Um outro desafio que o modelo de negócio criado pela Airbnb coloca tem a ver com a segurança de quem o utiliza. Ao contrário de um hotel normal que se responsabiliza pela segurança dos seus hóspedes, quem utiliza o Airbnb, está por sua conta e risco.

São muitas as queixas que chegam à plataforma e ao sites que relatam episódios mais ou menos violentos, tentativas de fraude como reviews falsas ou chantagens, e fracas condições de salubridade em muitos apartamentos.

Apesar da empresa retirar os apartamentos denunciados da plataforma é, no entanto, muito fácil o anfitrião voltar a colá-los online e vários casos já foram reportados.

Desafios Airbnb: que soluções?

Se por um lado os fundadores da plataforma já se disponibilizaram para ajudar as autoridades locais a criar regulamentação que limite o número de noites que um anfitrião pode arrendar o seu espaço, como o presidente da Câmara Municipal de Londres já tentou impor na sua cidade, por outro todas estas tentativas de limitação têm falhado porque são de difícil fiscalização.

Ainda para mais, muitas das outras plataformas que também embarcaram no negócio, podem não ser tão cooperativas. Em Portugal, há suspeitas de grupos maliciosos que entraram neste negócio e que actuam como verdadeiras “máfias imobiliárias”, preparadas para fugir a qualquer tipo de fiscalização.

Equilíbrio frágil

A situação é complexa e desafiante. De um lado temos uma plataforma que se defende dizendo que foi graças a ela que muitas destas cidades amealharam mais lucros com o maior número de turistas; do outro temos os locais a queixarem-se dos abusos que este tipo de arrendamento permite, e ainda de outro temos os utilizadores do Airbnb, os que já foram defraudados, e que se queixa que a segurança da plataforma é quase nula, tornando fácil a qualquer pessoa colocar um espaço disponível online sem que a empresa faça qualquer controle especial.

Em prol da segurança dos seus utilizadores a plataforma Airbnb criou uma área reservada para alertar sobre as questões de segurança. Se for um deles, também pode contar com sites e blogues que dão conselhos na hora de escolher um quarto para que possa tentar evitar ao máximo qualquer pesadelo na sua aventura com a “Air Bed and Breakfast”.

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Mas mais importante de todos os desafios Airbnb é levar os seus utilizadores, que também são utilizadores das cidades que visitam e são visitadas, a debater as mudanças que este tipo de negócios de economia partilhada podem trazer para as vivências das pessoas que nelas habitam e trabalham. Cabe a cada um de nós participar na discussão e escolher fazer parte das mudanças boas ou más que estes negócios oferecem.

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