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Elsa Santos
Elsa Santos
16 Mar, 2021 - 11:08

A educação socioemocional nas escolas portuguesas

Elsa Santos

Em que consiste, qual a sua importância? Como está a ser promovida a educação socioemocional nas escolas portuguesas? Descubra as respostas.

crianças na aula com mão no ar

Nunca fez tanto sentido falar de emoções, especialmente de como gerir as mesmas e é preciso aprender a fazer-lo. Assim, a educação socioemocional assume uma importância cada vez maior e comprovada.

A pandemia da COVID-19 e os consequentes confinamentos vieram colocar a saúde mental, definitivamente, na ordem do dia, nomeadamente em contexto escolar, como base fundamental de aprendizagem, desenvolvimento e sucesso académico.

Tudo sobre educação emocional

O interesse pela promoção das competências sociais e emocionais desenvolveu-se a partir da consciência de que elas são essenciais para alcançar o sucesso não só na escola como, posteriormente, na vida adulta.

Assim, surge a educação sociemocional.

O que é a educação socioemocional?

A educação socioemocional, Modelo SEL (Social and Emocional Learning) Aprendizagem Sócio Emocional (ASE), reporta-se, na generalidade, à tipologia de programas que promovem o desenvolvimento integrado e interrelacionado de competências competências sociais, emocionais e académicas dos mais jovens.

Pretende-se, para além disso, a coordenação e apoio dos esforços da escola, da família e da comunidade nesse sentido.

Essas competências são agrupadas numa estrutura de cinco grandes domínios designados como:

  • Autoconhecimento;
  • Autogestão;
  • Consciência social;
  • Relação interpessoal;
  • Tomada de decisão responsável.

Os programas de aprendizagem ou educação socioemocional em contexto escolar surgem, assim, como um dos quadros de referência para a promoção da saúde mental.

Os resultados de um número muito considerável de estudos têm permitido validar um conjunto de programas implementados em escolas, desde o Pré-Escolar ao Ensino Secundário.

Globalmente, os estudos indicam que estas intervenções constituem abordagens eficazes, não só na aquisição das competências socioemocionais, mas também na melhoria da adaptação psicossocial dos alunos, das suas atitudes, dos resultados académicos e comportamentais e da prevenção de diversos problemas de comportamento.

Esta abordagem deve ocorrer não só na sala de aula, mas ao nível da Escola, de um modo geral, assim como das famílias e de toda a comunidade académica.

Educação socioemocional: níveis de intervenção

Sala de aula

A intervenção da ASE em sala de aula pode envolver atividades de instrução, de modelagem e de aplicação prática que podem ser conduzidas por professores com formação adequada.

Pode, também, estar inserida no currículo de diferentes disciplinas e ser complementada pelas interações formais e informais entre alunos e professores no dia-a-dia da sala de aula.

Escola

A intervenção ao nível da Escola visa a construção de uma cultura e clima positivos. Viabiliza-se, designadamente, através do estabelecimento de normas e práticas disciplinares explícitas e justas, da criação de grupos de reflexão e da organização de serviços de apoio aos alunos, integrados por diferentes profissionais.

Para além disso, os Serviços de Psicologia, enquanto serviços de apoio especializado, têm uma importância particular.

Famílias

As parcerias com as famílias e com outras estruturas comunitárias são outro elemento importante para o reforço e a adoção de práticas comuns de promoção de competências socioemocionais nos jovens.

A sua importância repercute-se tanto no seu ambiente familiar, como no âmbito das atividades extracurriculares em que estão envolvidos.

Sociopolítica

Ao nível sociopolítico sugere-se o desenvolvimento de metas curriculares que incluam a Aprendizagem Sócio Emocional (ASE, numa lógica longitudinal do Pré-Escolar ao Ensino Secundário.

Devem providenciar um quadro de referência e orientação relativamente aos conhecimentos que os alunos devem ter e ao que devem ser capazes de fazer no domínio das competências socioemocionais.

A importância da educação socioemocional

Existem diversos aspetos que contribuem para o desenvolvimento equilibrado da criança, em especial no que à aprendizagem diz respeito.

O insucesso escolar, um dos temas recorrentemente debatidos, pode ter como base o seio familiar da criança/do aluno, a própria criança e claro, o ambiente escolar.

Este é o conjunto de fatores que está mais diretamente relacionado e que pode fazer com que comecem a existir dificuldades de aprendizagem nas crianças.

Tanto a família como a escola atuam como agentes de socialização, sendo os mais influentes e importantes na vida de uma criança. Assim, ambas as dimensões têm uma grande importância no seu desenvolvimento.

Por isso, a implementação de modelos de educação socioemocional assume uma importância crucial na formação dos alunos, com reflexo na vida adulta.

crianças a participar em aula de educação socioemocional

Pandemia: que efeitos

No confinamento de 2021, a Sociedade Portuguesa de Pediatria defendia a reabertura urgente das escolas, especialmente no ensino pré-escolar e nos 1º e 2º ciclos do ensino básico,. Assim, chamava a atenção para as consequências do fecho no desenvolvimento das crianças.

Numa posição conjunta, a Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP), a direção do Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos e a Comissão Nacional da Saúde Materna, da Criança e do Adolescente, consideravam urgente equacionar a reabertura das escolas e a integração das crianças em atividades adequadas às suas reais necessidades.

Para as referidas entidades, a urgência era maior no ensino pré-escolar e nos primeiro e segundo ciclos do ensino básico, pelo importante papel que o contacto com os educadores e com outras crianças tem no desenvolvimento psicomotor de competências básicas.

Afirmavam, ainda, que todas as alterações, desigualdades sociais e riscos associados, terão efeito direto na esperança de vida destas crianças. Para além disso, refletem-se, também, na capacidade de evolução da própria sociedade nos anos futuros.

Assim, o regresso às escolas foi visto com bons olhos, como uma medida positiva para o equilíbrio e desenvolvimento dos mais novos.

O papel dos psicólogos

A identificação de programas universais de qualidade e eficácia promissora continua a ser crucial. Essencial é, também, a orientação das escolas para que façam escolhas informadas sobre a adoção, implementação e avaliação de programas de ASE.

Nesse sentido, uma plataforma com programas de prevenção e promoção de competências submetidos à aprovação da Ordem dos Psicólogos Portugueses, tem sido um contributo importante.

Os vários programas disponíveis no site fornecem informação sobre o nível de intervenção, do tema, das estratégias, do público-alvo, do contexto de aplicação e dos critérios de qualidade.

O aumento da prevalência de problemas de saúde mental na população sugere a impossibilidade dos serviços de psicologia escolar darem resposta a todos os casos. Por isso, a prevenção dos problemas e a promoção da saúde psicológica são a única via economicamente viável.

Mudar para este sistema mais vasto de inclusão do modelo de prevenção/promocional requer considerar, não apenas as necessidades dos alunos que estão a experienciar dificuldades significativas, mas a de toda a Escola.

Vários agrupamentos e autarquias, por exemplo, têm vindo a reforçar os seus serviços de apoio nesta matéria, desde o início da pandemia.

Mesmo no ensino superior essa importância tem ganho destaque. Por exemplo, os Serviços de Ação Social da Universidade NOVA de Lisboa acabaram de lançar a plataforma “The Bridge“. O objetivo é promover a saúde mental dos estudantes e reforçar o apoio dos serviços de psicologia.

Para além disso, inclui a possibilidade de contacto por chat, conteúdos informativos, acesso a recursos de saúde e testemunhos.

Programas de Intervenção ASE em Portugal

Implementados nas escolas do pré-escolar ao ensino secundário, os programas de ensino socioemocional, requerem algumas condições:

  • É essencial prestar atenção à qualidade da intervenção e à forma como é implementada, para além da intervenção baseada em evidências empíricas relativamente à sua eficácia;
  • As abordagens escolares parecem mais eficazes quando incluem uma perspetiva de “escola inteira”. Os novos programas devem ser integrados nos já existentes. Devem ser encorajadas parcerias de trabalho em rede com estruturas dentro da comunidade;
  • Os programas devem ter validade social. Ou seja, os seus objetivos, procedimentos e resultados devem responder às exigências das escolas. Devem, igualmente, fazer sentido para os professores, que sejam aceites pelos alunos e que se ajustem ao currículo existente.

Os programas de prevenção e promoção de competências em Portugal estão disponíveis na plataforma online da Ordem dos Psicólogos.

Formação dos professores é essencial

Um elemento essencial na promoção da literacia em educação para a saúde psicológica passa pela formação e o desenvolvimento dos elementos da comunidade envolvidos, e também pela supervisão e pelo apoio técnico continuado.

Poucos professores receberam formação inicial em prevenção ou no desenvolvimento socioemocional das crianças e adolescentes. Desta forma, sentem-se com poucas competências para lidar com comportamentos disruptivos e com alunos pouco atentos em sala de aula.

Isso resulta, muitas vezes, em níveis elevados de burnout.

Por estes motivos, é imperativa a formação, prática e interativa, dos professores no âmbito da educação socioemocional, assim como o apoio técnico continuado e supervisão que facilite a sua intervenção.

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