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Gabriela Caçador
Gabriela Caçador
17 Fev, 2020 - 11:29

Entrevista. ‘Os animais merecem ser tratados com dignidade’

Gabriela Caçador

Entrevista com Luís Montenegro, responsável pelo congresso veterinário internacional que arranca em Santa Maria da Feira, no próximo dia 20.

Congresso veterinário em Santa Maria da Feira

Ekonomista: O que podemos esperar, este ano, do Congresso Veterinário internacional que decorre em Santa Maria da Feira?

Luís Montenegro: Este ano, o mote do congresso veterinário é a inovação e o desenvolvimento. Com este tema, o mais premente para nós era internacionalizar o congresso. Por isso, fizemos uma forte divulgação no mercado brasileiro, o que nos vai possibilitar, contar com profissionais dos principais hospitais veterinários do Rio de Janeiro e de São Paulo. E, como já vem sendo habitual, vamos ter um elevado número de colegas espanhóis. Devido ao caráter internacional do evento iremos fazer tradução simultânea para espanhol e inglês. 

As temáticas que vamos trazer pretendem ser inovadoras. Há momentos em que uma determinada área da medicina se desenvolve mais, porque houve mais investigação, ou porque houve cientistas que conseguiram melhores resultados nessa especialidade. Por outro lado, às vezes, há áreas da medicina que permanecem décadas sem grande evolução…

EK: Qual é, na sua opinião, a área da medicina veterinária, que mais tem evoluído?

LM: É o conceito de sermos menos invasivos na nossa prática clínica. Na cirurgia, por exemplo, as técnicas minimamente invasivas, como a laparoscopia, a artroscopia e a toracoscopia, são aquelas que trazem mais benefício na recuperação. Se, por exemplo, conseguirmos resolver um problema na cavidade torácica com uma toracoscopia, que pressupõe três furinhos, a morbilidade e a recuperação irão ser muito melhores. 

Outra área onde a medicina veterinária tem evoluído muito, é na anestesia locorregional. Ao operar, por exemplo, um joelho através de uma anestesia ligeira, vamos ter muitos mais benefícios na recuperação, porque só estamos a sujeitar o joelho a essa complexidade e não todo o organismo. Analgesiar sistemicamente, ou seja, o corpo todo, tem as suas desvantagens, porque vai provocar alguma imunossupressão. 

EK: Esta é já a 16ª edição do Congresso Veterinário e a 10ª do Congresso de Enfermagem. Em que assenta este sucesso e qual a importância da realização de um evento desta magnitude?

LM: O nosso congresso veterinário está, sem dúvida nenhuma, entre os dois primeiros da Península Ibérica. Recebemos cerca de 3500 pessoas, em Santa Maria da Feira. É difícil fazer um evento desta magnitude, mas temos orgulho nisso.  Antes deste congresso, tínhamos de ir procurar formação extra portas, não havia nada em Portugal. E agora fazemos um congresso que traz os melhores do mundo, à região.

Atualmente, somos fortes no turismo, mas o nosso congresso deu um bom contributo para o turismo científico. Os congressos são muito importantes, não só pela ciência que trazem, mas também porque permitem fazer networking e conhecer pessoas que lideram determinadas matérias no mundo. Muitas vezes, os verdadeiros ensinamentos passam-se conversando, num espaço lúdico, porque se consegue transmitir melhor determinada experiência, tratamento ou diagnóstico. 

Médico veterinário a operar

EK: O Congresso Hospital Veterinário Montenegro, este ano, dedica-se a debater a inovação e o desenvolvimento. Como caracteriza a evolução da medicina Veterinária, nos últimos anos, em Portugal?

LM: Evoluiu de uma forma que nem sequer seria suposto há 20 anos. Os media trouxeram o tema para a atualidade, e passou a haver uma consciência social de que os animais são seres sencientes, que merecem ser tratados com dignidade. Hoje, temos tutores que vão até ao fim da linha daquilo que o ano 2020 possibilita, para tratar os seus animais.

Uma das grandes inovações da medicina veterinária surgiu no diagnostico, com a imagem avançada, a TAC e a ressonância, mas são dispendiosos. E nós temos, cada vez mais, tutores que se, realmente, for necessário fazer esses exames que são caros, aderem a fazê-los, porque se preocupam com o bem-estar animal. 

A forma como a medicina veterinária evoluiu é indescritível. Se me perguntarem a medicina humana evoluiu? Evoluiu tremendamente, mas como a medicina veterinária, na mesma altura, estava menos desenvolvida, toda esta progressão notou-se muito mais. 

EK: Para além disso, o número de médicos veterinários que exercem em Portugal não tem parado de aumentar e há cada vez mais profissionais em áreas específicas, como a ortopedia, neurologia…

LM:  Em Portugal, embora politicamente não se assuma isso, produzimos à exceção dos médicos, profissionais em excesso. Isso não é bom para o mercado, porque se houver excesso, há uma luta pela sobrevivência. 

As nossas universidades estão a formar uma classe de veterinários muito bem preparada, praticamente a custo zero, para depois irem, a custo zero, pagar impostos para outros países. Em Inglaterra, por exemplo, a propina anual, para tirar o curso de medicina veterinária é de 9300 libras, por ano. E, se o aluno não tiver dinheiro, o Estado patrocina esse dinheiro, mas no final o aluno tem de devolver o valor ao Estado. Nos últimos anos, 50% dos veterinários formados em Portugal, saíram do país. É difícil perceber por que motivo Portugal forma mais veterinários, por ano, do que a França. Acho que todos nós portugueses devemos pensar nesta temática.

EK: E no segmento da alimentação e nutrição animal, têm-se verificado progressos?

LM: A grande evolução na alimentação animal surge após a 2ª guerra mundial.

Atualmente, há rações que são formuladas para determinado fim, por exemplo, para um animal que tem insuficiência renal ou hepática, as marcas desenvolveram rações adaptadas ao animal com essa insuficiência. Para aumentar a sua longevidade e controlar a doença, é fundamental que o animal só tenha acesso a essa alimentação. 

A grande revolução na alimentação animal não é recente, mas as marcas reinventaram-se e, para além de venderem ração, promovem o bem-estar animal e apoiam a formação. Temos de agradecer às marcas, porque patrocinam este evento e porque se preocupam com a sensibilização dos donos para não dar restos aos seus animais. Controlando a boca do animal é muito mais fácil controlar as doenças.

A situação atual do coronavírus, por exemplo, se nós pensarmos: porque é que o vírus surge na China? Porque a China tem os condimentos ideais para que uma situação destas possa ocorrer – um fraco controle sanitário dos animais selvagens e domésticos. Para ter um povo saudável, é preciso ter animais saudáveis. 

EK: A interdisciplinaridade entre a saúde humana, animal e ambiental é precisamente uma das novidades deste ano, com a criação da “Sala One Health”, que irá explorar o conceito de “saúde única”…

LM: Nós, cada vez mais, temos de olhar para a saúde animal, humana e ambiental de forma integrada. A Organização Mundial de Saúde adverte-nos para isso e daí nós fazermos a sala One Health. Vamos ter pessoas ligadas ao ambiente, médicos e veterinários. Para termos humanos saudáveis, temos de ter um ambiente e animais saudáveis. O coronavírus mostra-nos isso, porque o vírus surge, na China, a partir dos animais. E porque é que aparece? Porque não há as condições adequadas. Se não fosse o coronavírus, seria outro qualquer a aparecer.

As nossas universidades estão a formar uma classe de veterinários muito bem preparada, praticamente a custo zero, para depois irem, a custo zero, pagar impostos para outros países

EK: Um dos oradores, deste ano, é Massimo Petazzoni, que operou Vito, ou o “gato biónico”. Implantou-lhe próteses, semelhantes às usadas por atletas paralímpicos, salvando-o de uma vida de sofrimento. Há já muitos casos como o do gato Vito, em que a inovação veterinária faz toda a diferença na vida dos animais e dos seus tutores?

LM: Os implantes biomecânicos, feitos à medida com ajuda do 3D, começam a fazer parte das opções que nós veterinários podemos oferecer aos tutores. A história do gato Vito é bonita, porque se não fosse o Petazzoni a ter a capacidade de fazer esse implante biónico, ele seria um gato sem qualidade de vida e, provavelmente, teria de ser eutanasiado. 

Como neste congresso veterinário queremos inovação, iremos ter como orador, Petazzoni, que a nível de ortopedia avançada e de implantes biónicos, é simplesmente o melhor do mundo. Ao trazê-lo, ele irá contar-nos a sua experiência, não só durante as palestras, e assim, influenciar-nos para começarmos a pôr essa temática em prática. O Petazzoni, é sem dúvida nenhuma, um dos oradores principais. 

EK: Que outros oradores destaca da edição deste ano?

LM: Iremos ter o Ronaldo da Costa, considerado o maior neurologista veterinário do mundo. Ganhou o prémio de melhor professor da Universidade de Ohio e é um superstar dentro do mundo veterinário.

No âmbito da anestesia locorregional, vamos ter o espanhol, Jaime Viscasillas, que trabalha na Universidade Veterinária de Valência e é diplomado pelo Colégio Europeu. Iremos contar também com os nossos veterinários portugueses, pois temos gente de extremo valor, como por exemplo, o Rui Mota, o Jorge Leite… Ou seja, vamos trazer os cabeças de cartaz do mundo veterinário. 

O nosso congresso veterinário está, sem dúvida nenhuma, entre os dois primeiros da Península Ibérica. Recebemos cerca de 3500 pessoas, em Santa Maria da Feira

EK: Reduzir o desperdício de plástico de uso único é também um dos objetivos deste ano. E, para isso, irão disponibilizar garrafas reutilizáveis aos presentes. A inovação e o desenvolvimento devem ter sempre presentes a preocupação ambiental?

LM: Os veterinários são muito exigentes nisso, talvez pela sua responsabilidade na temática One Health.  

Este ano, tivemos a ideia de fazer um congresso veterinário verde, mas não o intitulamos assim, porque achamos que poderíamos não conseguir fazê-lo completamente verde. No ano passado, produzimos oito mil garrafas de plástico. É muito. Por isso, decidimos oferecer aos congressistas a garrafa reutilizável. Não vai haver garrafas de plástico, vai haver vários pontos de água espalhados por todo o recinto, onde vão poder reabastecer as garrafas. Esperamos que, depois do congresso, as pessoas gostem da garrafa e levem esse conceito para casa. 

Neste congresso, a nossa preocupação é reduzir, que é o mais importante, e depois, reciclar.