Ekonomista
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24 Fev, 2026 - 08:30

Festival do Lagostim em Ferreira do Zêzere: quando a gastronomia se torna resistência

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O Festival do Lagostim regressa a Ferreira do Zêzere de 6 a 29 de março, numa edição focada na recuperação após a tempestade Kristin. Uma celebração de resiliência e sabores do Zêzere.

Há festas que celebram. E há festas que resistem. O Festival Gastronómico do Lagostim e Peixe do Rio, que regressa a Ferreira do Zêzere entre 6 e 29 de março de 2026, enquadra-se na segunda categoria. Num concelho onde 85% das habitações sofreram danos com a passagem da tempestade Kristin a 28 de janeiro, avançar com o evento é mais do que promover gastronomia. É um ato de determinação coletiva.

Aproximadamente 85% das cerca de 4.000 habitações de Ferreira do Zêzere sofreram danos na sequência da tempestade, segundo dados da autarquia. Os prejuízos podem atingir os 200 milhões de euros. Ainda há casas sem luz, telhados por reparar e vidas suspensas. Mas a vila decidiu não esperar pela reconstrução completa para voltar à normalidade.

Kristin: a tempestade que mudou tudo

A madrugada de 28 de janeiro não será esquecida tão cedo pelos habitantes de Ferreira do Zêzere. A tempestade Kristin foi a mais violenta a entrar pelo território português, com a força de um ciclone-bomba e ventos que ultrapassaram os 150 km/h. O que se seguiu foi um cenário de devastação que paralisou o concelho durante semanas.

Ferreira do Zêzere demorou 27 dias a repor energia elétrica em 99% das habitações após a passagem da depressão Kristin. As comunicações falharam, estradas ficaram intransitáveis e serviços essenciais foram interrompidos. O quartel dos bombeiros, o posto da GNR e equipamentos culturais como o cineteatro municipal sofreram danos significativos.

Um festival diferente, mas igualmente importante

Este ano, o evento assume um formato exclusivamente gastronómico. Não haverá showcookings no Mercado Municipal, nem espetáculos de animação aos fins de semana, nem workshops para famílias. A estrutura paralela que habitualmente complementava o festival ficou impossibilitada pelos prejuízos deixados pela tempestade.

Mas o essencial mantém-se: os restaurantes e cafés aderentes vão continuar a servir as especialidades que fazem do lagostim e do peixe do rio verdadeiras iguarias regionais. Pratos como o lagostim salteado, a açorda de ovas com lagostim, o filete de peixe do rio à Guilho ou o arroz de peixe estarão disponíveis ao longo de todo o mês de março.

“Decidimos avançar para mostrar que os ferreirenses não baixam os braços perante a adversidade e, sobretudo, para dar um impulso ao nosso setor da restauração.” Bruno Gomes, presidente da Câmara Municipal

Apoiar quem ficou de pé

A decisão de manter o festival tem um objetivo de apoiar os estabelecimentos de restauração que conseguiram reabrir portas apesar dos estragos. Para muitos negócios locais, março representa uma oportunidade de recuperar alguma normalidade financeira num ano que começou com perdas devastadoras.

O setor da restauração foi um dos mais afetados pela tempestade. Equipamentos danificados, stocks perdidos, interrupção de serviços básicos como água e eletricidade durante semanas. Alguns estabelecimentos demoraram mais de um mês a reabrir. Para estes, o festival é uma tábua de salvação económica.

Tradição que continua contra tudo

O Festival Gastronómico do Lagostim e Peixe do Rio não é novidade em Ferreira do Zêzere. A iniciativa conta já com mais de uma década de história e consolidou-se como uma das referências gastronómicas do Médio Tejo. Em edições anteriores, o evento chegou a decorrer entre abril e maio, com programação alargada que incluía mercados de produtos locais, demonstrações de artesanato ao vivo e atividades dedicadas às crianças.

A tradição remonta à pesca praticada nas aldeias ribeirinhas do Zêzere, uma atividade transmitida de geração em geração e que mantém uma ligação profunda ao rio. O lagostim, classificado por biólogos como “praga biológica” devido à sua proliferação, foi transformado pelos restauradores locais numa iguaria que conquistou reconhecimento nacional.

Mais que lagostim: uma declaração de resiliência

Para os ferreirenses, este festival representa algo mais profundo do que uma celebração gastronómica. É um símbolo de que a vida continua, apesar dos telhados por reparar e das árvores centenárias arrancadas pela tempestade. É a afirmação de que a identidade de um território não se apaga com ventos de 150 km/h.

Os visitantes que passarem por Ferreira do Zêzere em março vão encontrar um concelho ainda em processo de recuperação. Haverá sinais visíveis da devastação deixada pela Kristin. Mas encontrarão também uma comunidade determinada a não deixar que a tempestade defina o seu futuro.

Durante 24 dias, os sabores do Zêzere vão estar em destaque nos estabelecimentos aderentes. Não haverá palco montado no Mercado Municipal nem música ao vivo nas praças. Mas haverá algo mais importante: a confirmação de que uma comunidade não se mede pela ausência de problemas, mas pela forma como os enfrenta.

O Festival Gastronómico do Lagostim e Peixe do Rio é, este ano, mais do que uma celebração de sabores. É um convite à solidariedade, à descoberta e ao apoio a uma terra que continua a afirmar-se através da sua tradição e hospitalidade. Visitar Ferreira do Zêzere em março não é apenas provar lagostim, é escolher estar do lado certo quando uma comunidade precisa. Lembre-se de marcar na sua agenda!

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