Cláudia Pereira
Cláudia Pereira
12 Fev, 2026 - 19:00

Investir com salário mínimo: o guia prático para quem ganha pouco mas quer começar

Cláudia Pereira

Investir com salário mínimo é possível em Portugal. Descubra estratégias práticas, montantes realistas e erros a evitar para começar a construir património.

O salário mínimo nacional em Portugal subiu para 920 euros em janeiro de 2026. Com o desconto obrigatório de 11% para a Segurança Social, quem recebe o ordenado mínimo leva para casa 818,80 euros líquidos. Depois da renda, da conta da luz, do passe mensal e das compras no supermercado, sobra pouco. A ideia de investir pode parecer absurda quando se chega ao fim do mês a contar trocos. Mas há uma diferença entre difícil e impossível.

A questão não é se dá para investir com salário mínimo. A questão é quanto, como e em quê. E, sobretudo, ter expectativas realistas. Ninguém fica rico a investir 20 euros por mês, mas também ninguém constrói um fundo de emergência ou prepara a reforma sem dar o primeiro passo, por mais pequeno que seja.

Quanto é preciso para começar a investir

O montante mínimo recomendado por especialistas financeiros situa-se entre 25 e 50 euros mensais para quem ganha o salário mínimo. Parece pouco, mas ao fim de um ano são 300 a 600 euros. Ao fim de cinco anos, considerando apenas a capitalização simples e sem contar com rendimentos de investimento, estamos a falar de 1500 a 3000 euros.

Agora adicione rentabilidades médias de 2% a 3% anuais em produtos conservadores, e o montante cresce. O problema está em arranjar esses 25 ou 50 euros todos os meses. E é aqui que a maioria das pessoas desiste antes de começar.

O Método dos 5%

Uma abordagem prática passa por definir uma percentagem fixa do rendimento líquido para investimento. Com 818,80 euros de salário líquido, 5% correspondem a cerca de 41 euros mensais. Não é indolor, mas também não é astronómico. Se a renda e as despesas fixas já sugam 80% do salário, esses 5% terão de sair dos restantes 20%.

Cortar uma subscrição de streaming, reduzir os cafés fora de casa, fazer mais refeições em casa. São estratégias banais, mas funcionam. O truque está em automatizar a transferência no dia seguinte ao do pagamento do salário. O dinheiro que não se vê é o dinheiro que não se gasta.

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Onde investir com valores baixos

Certificados de Aforro

Certificados de aforro continuam a ser a opção mais conservadora e acessível em Portugal. O investimento mínimo é de 100 euros, com subscrições adicionais a partir de 10 euros. Em fevereiro de 2026, a taxa de juro bruta está em 2,031%, que corresponde a 1,5% líquida após imposto. É seguro, garantido pelo Estado e dá para resgatar após três meses. Os juros são capitalizados trimestralmente, o que faz o dinheiro render mais ao longo do tempo.

A série F, atualmente em comercialização, tem prémios de permanência que começam no segundo ano e podem somar até 2,5% ao longo de 15 anos. Não são taxas espetaculares, especialmente quando comparadas com a inflação prevista de 2,1%, mas oferecem segurança e flexibilidade incomparáveis. Pode fazer simulação online no site dos CTT.

Os certificados do tesouro poupança valor oferecem rentabilidades superiores para quem consegue deixar o dinheiro aplicado durante sete anos. O investimento mínimo é de 1000 euros, o que coloca este produto fora do alcance imediato de quem ganha o salário mínimo. Mas pode ser um objetivo a médio prazo, depois de acumular as primeiras poupanças em certificados de aforro.

Planos Poupança Reforma

Os PPR (Planos Poupança Reforma) oferecem benefícios fiscais, mas têm penalizações pesadas em caso de resgate antecipado. Para quem ganha o salário mínimo e pode precisar do dinheiro antes da reforma, nem sempre são a melhor opção. É preciso avaliar caso a caso.

Fundos de investimento e ETF acessíveis

Fundos de investimento com entradas baixas multiplicaram-se nos últimos anos. Há gestoras que aceitam aplicações mensais de 25 euros em fundos indexados ao mercado europeu ou mundial. É importante ter em conta as comissões, pois, um fundo com 2% de comissões anuais pode comer metade da rentabilidade esperada em períodos longos.

Os Exchange Traded Funds são fundos cotados em bolsa que replicam índices de mercado. Comprar um ETF do S&P 500, por exemplo, é como comprar um pedacinho de 500 das maiores empresas americanas. A diversificação é automática e as comissões são baixas.

Plataformas como a Degiro ou a Trading 212 permitem comprar frações de ETF a partir de 10 euros, o que significa que não é preciso ter os 400 ou 500 euros que custa uma unidade completa de certos ETF. A comissão de transação pode ser zero em alguns produtos, o que faz toda a diferença quando se investe pouco. O risco existe, claro, porque os mercados sobem e descem. Mas a longo prazo, a história mostra que os índices globais tendem a crescer.

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Criptomoedas não são investimento para principiantes

Há quem tenha ganho muito dinheiro com Bitcoin, há quem tenha perdido tudo. Para quem tem pouco para investir, as criptomoedas são uma roleta, porque tem um grande volatilidade. O dinheiro que está lá hoje pode valer metade amanhã ou o dobro na próxima semana. Quando se tem apenas 50 euros por mês para investir, não há margem para este tipo de risco. As criptomoedas podem fazer parte de uma carteira diversificada, mas nunca como investimento principal quando o orçamento é apertado.

Os erros que custam caro

Começar a investir sem fundo de emergência é o erro número um. Antes de aplicar o primeiro euro em qualquer produto financeiro, é preciso ter uma almofada de segurança. Três meses de despesas essenciais, no mínimo. Para quem ganha o salário mínimo, isto significa ter entre 1500 e 2000 euros acessíveis numa conta poupança.

Pode parecer contraditório, afinal, guardar dinheiro numa conta que não rende nada não é investir. Mas é a única forma de não ser obrigado a resgatar investimentos no pior momento possível. Uma avaria no carro, um problema de saúde, uma despesa inesperada. Se não houver margem, o investimento vira um problema em vez de uma solução.

Mesmo com o salário mínimo, adiar o início por “mais tarde quando ganhar melhor” é um erro. Mais tarde demora a chegar, e quando chega há sempre novas despesas, novos compromissos, novas desculpas. O momento certo para começar é sempre agora. Uma pessoa que começa a investir 50 euros por mês aos 25 anos terá mais dinheiro aos 65 do que outra que começa a investir 150 euros por mês aos 45. O juro composto é a única magia real das finanças. Quanto mais cedo se começa, maior é o efeito.

Outro erro frequente: cair em esquemas de enriquecimento rápido. Há grupos no Telegram, páginas no Instagram e anúncios por todo o lado a prometer rentabilidades de 20%, 30%, 50% ao mês. É tudo fraude. Se fosse assim tão fácil, os bancos não ofereceriam 2% em média nos seus produtos.

Como começar passo a passo

Primeiro, faça contas à vida: quanto entra, quanto sai, onde há gordura para cortar. Uma simples folha de Excel serve, pois, o objetivo é perceber exatamente para onde vai o dinheiro todos os meses. Só depois de saber isto é que faz sentido definir quanto sobra para investir.

Segundo, construa um fundo de emergência. Mesmo que demore um ano, mesmo que sejam só 50 euros por mês. Este dinheiro fica numa conta poupança normal, acessível, sem aplicações complicadas. Quando se chegar aos três ou seis meses de despesas essenciais, passa-se à fase seguinte.

Terceiro, escolha o primeiro produto de investimento. Para quem está a começar e tem pouco, os certificados de aforro são a opção mais sensata. São seguros, têm rentabilidade razoável face ao risco, e permitem resgates parciais sem penalizações graves após os primeiros três meses.

Quarto, automatize, criando uma transferência automática no dia a seguir ao pagamento do salário. O valor vai direto para a aplicação escolhida. É a única forma de manter a disciplina quando há tentações pelo caminho.

Impostos e burocracia simplificados

Os rendimentos de certificados de aforro e do tesouro estão sujeitos a uma taxa liberatória de 28% sobre os juros. Este imposto é retido na fonte, não é preciso fazer nada. Quem recebe o salário mínimo continua isento de retenção na fonte de IRS em 2026, graças à atualização do mínimo de existência para 12.880 euros anuais.

Nos fundos de investimento e ETF, a tributação também é de 28% sobre as mais-valias, mas só quando se vende. Enquanto o dinheiro estiver investido, não há impostos a pagar. Isto permite que o juro composto faça o seu trabalho sem ser penalizado todos os anos.

As plataformas de investimento modernas tratam de grande parte da burocracia fiscal e enviam, no final do ano, um relatório com todas as operações. Basta incluir estes dados na declaração de IRS. Não é um processo complicado, mas convém guardar todos os comprovativos.

Quando aumentar o investimento

Sempre que houver um aumento salarial, a tentação é gastar mais: jantar fora com mais frequência, comprar roupa melhor, trocar de carro. É humano, mas é contraproducente. Pode implementar uma regra prática: metade de qualquer aumento vai para investimento, a outra metade pode ser gasta.

Os subsídios de férias e de Natal são outra oportunidade. Gastar tudo é fácil, mas investir pelo menos 30% ou 40% destes valores faz uma diferença enorme a longo prazo. Por exemplo, num subsídio de 920 euros, se 300 forem investidos, representa o equivalente a sete meses de poupança mensal de 43 euros.

Ajustar expectativas à realidade

Investir 40 euros por mês não vai permitir reforma antecipada aos 50 anos, não vai dar para comprar casa sem crédito habitação e não vai transformar ninguém em milionário, mas vai fazer três coisas importantes:

Primeiro, cria um colchão financeiro que dá tranquilidade. Ter dinheiro investido é a diferença entre um imprevisto ser uma chatice ou uma catástrofe. Segundo, ensina disciplina e hábitos financeiros que valem mais que o dinheiro em si. Terceiro, permite que se aprenda sobre mercados, produtos e estratégias sem arriscar grandes quantias.

Quando o salário aumentar, quando houver uma promoção, quando sobrar mais ao final do mês, a estrutura já está montada. Basta aumentar os valores. A pessoa que nunca investiu e de repente tem 500 euros extra por mês não sabe o que fazer com eles; a pessoa que já investe há anos simplesmente reforça o que já faz.

Quer continuar a aprender a gerir o seu dinheiro?

Ganhar o salário mínimo pode dar uma sensação de falta de controlo sobre a vida financeira. O dinheiro entra, o dinheiro sai, sobra pouco ou nada. Investir, mesmo que seja pouco, devolve algum poder.

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