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Valdemar Jorge
Valdemar Jorge
23 Ago, 2021 - 11:00

Juan Manuel Fangio: um mito ou a arte de bem pilotar

Valdemar Jorge

É um nome incontornável da Fórmula 1. Juan Manuel Fangio dominou por completo a primeira década da disciplina rainha do automobilismo.

Juan Manuel Fangio em Ferrari

O nome de Juan Manuel Fangio está tão presente hoje no mundo da competição automóvel como esteve em 1950, quando competiu pela primeira vez na Fórmula 1. De tal forma que se diz ser “um Fangio” quem conduz com em alta velocidade, muitas vezes onde não deve.

É desta forma que o povo perpetuou o nome de um dos maiores pilotos de sempre no automobilismo. Juan Manuel Fangio nasceu em Balcarce (Argentina), em 24 de junho de 1911 e faleceu em Buenos Aires aos 84 anos (17 de julho de 1995).

Oriundo de uma família de imigrantes italianos, cedo começou a trabalhar numa oficina de mecânica tendo abandonado os estudos ainda na infância. Além dos automóveis, o futebol era a sua outra paixão. Nesta modalidade ficou conhecido como “El Chueco” (O Manco), alcunha que carregaria por toda a sua vida.

Admirado pelo talento e técnica

A primeira prova em que participou foi em 1934, na Argentina, numa época em que os circuitos tinham tanto de belo como de precários e perigosos. A segurança era praticamente nula. Mesmo assim, a vontade de correr e vencer sobrepunha-se ao risco de sofrer um acidente.

A primeira corrida não correu bem ao volante de um Ford-T, tendo terminado na última posição. Mas a vontade de vencer era maior e como persistente lutador que era continuou o seu percurso. Em 1939 sobe pela primeira vez ao pódio, nas Mil Milhas da Argentina e, logo de seguida, em 1940 e 1941, sagra-se campeão nacional.

A vontade de correr na Europa era um sonho que viria a concretizar após a Segunda Guerra Mundial.

Governo de Péron apoiou ida para a Europa

Após os anos negros da guerra, Juan Manuel Fangio chega à Europa com o apoio monetário do governo de Juan Domingo Péron.

Nos circuitos europeus teve a oportunidade de mostrar a sua arte na condução. De estatura baixa e algo tímido, Fangio assim que se sentava ao volante transformava-se numa “fera”, num piloto que muitos disserem ser “fora de série”; como nunca se tinha visto até então.

A era moderna dos grandes prémios chegava nos meados de 1950, com a estreia do que hoje se designa “prova rainha do automobilismo”: a Fórmula 1.

Na época, o piloto argentino conduzia para a Alfa Romeo. No ano de estreia da competição termina em segundo lugar, mas no ano seguinte (1951) venceu o seu primeiro campeonato mundial. O ano de 1952 foi aziago e por pouco não abandonava definitivamente a competição.

Um grave acidente ao volante de um Maserati, em Monza (Itália), casou-lhe fratura do pescoço. Durante muitos meses esteve afastado das pistas.

Juan Manuel Fangio

Da Maserati para a Mercedes a somar triunfos

Passado o mau período, Juan Manuel Fangio troca de equipa. Em 1954 deixa a Maserati e entra na equipa da Mercedes. É com a marca da “estrela” que vence o segundo título mundial de pilotos, a que juntou todas as pole position e o primeiro lugar em seis das oito corridas.

Em 1955 a senda de vitórias continuou ao vencer o terceiro título mundial, também ao volante de um Mercedes. O seu colega de equipa era o inglês Sterling Moss. Outra lenda do automobilismo, nomeadamente da Fórmula 1.

A perigosidade das provas veio ao de cima precisamente nesse ano de 1955, em Le Mans, onde um acidente tirou a vida a 81 espetadores. Embora não tivesse estado diretamente envolvido no acidente, Fangio saiu de Le Mans profundamente abalado. Na época a Mercedes abandona as competições e os governos europeus ponderaram o fim da Fórmula 1.

Da Mercedes para a Ferrari e depois Maserati fecha o ciclo

Em 1956 Fangio abraça a scuderia Ferrari. Novo ciclo vitorioso começa. A glória volta à Fórmula 1. O piloto argentino “passeava” em alta velocidade pelas pistas europeias. Nesse ano conquista seis pole positions em sete corridas e vence três, tendo-se classificado em segundo nas outras quatro. O bastante para averbar à sua carreira o quarto campeonato mundial.

Findo o campeonato de 1956, nova reviravolta na vida do piloto que regressa à Maserati para vencer o seu quinto título mundial, com performances dignas de um campeão.

Exemplo disso foi a prova realizada no circuito de Nürburgring. Ao volante de um Maserati 250F, e após um problema no reabastecimento,  teve que fazer a corrida, como se diz “de trás para a frente”. Ultrapassou todos os adversários e, quando faltava uma volta, conseguiu ultrapassar os dois Ferrari diante do espanto do público. Este feito valeu-lhe ainda o Prémio Anual da Academia Francesa de Desporto.

“As corridas não se ganham na primeira curva, mas muitas vezes se perdem”.
Juan Manuel Fangio

Fangio retirou-se da competição em 1958, em desacordo com posição adotada pelo chefe de equipa da Maserati. Saiu de cabeça erguida pois estava ciente de ter estabelecido um padrão de excelência na competição e de domínio dos carros que dificilmente serão igualados.

Entendia a condução segundo duas perspetivas que se complementavam: uma ciência que necessitava de estudo contínuo e exaustivo e uma arte comparável à música ou à pintura. Faleceu em 17 de julho de 1995, aos 84 anos.

Sequestrado em Cuba e pai de dois filhos

A vida do piloto argentino foi muito mais do que vencer corridas de Fórmula 1 – cinco vezes campeão do mundo de pilotos por quatro equipas diferentes –, recorde que guardou durante 46 anos até ser batido por Michael Schumacher (2003, data em que venceu o sexto campeonato mundial de pilotos).

Uma das situações por que passou registou-se em fevereiro de 1958. Quando se preparava para participar no Grande Prémio de Cuba foi sequestrado por elementos da guerrilha de Fidel Castro. Durante cerca de 29 horas esteve isolado mas, no final, tudo acabou em bem. Juan Manuel Fangio nunca guardou rancor aos sequestradores por acreditar que o que se passou tinha sido em nome de uma causa nobre.

Outro lado da sua vida teve a ver com os filhos. Embora não tendo filhos registados soube-se que em 1940, fruto de um relação com Catalina Basili, nasceu  Rubén. O jovem nunca foi reconhecido pelo piloto, mas em adulto e após 13 anos de luta em tribunal conseguiu provar a relação que Juan Manuel Fangio teve com a sua mãe. O tribunal permitiu a mudança do seu nome para Rubén Juan Fangio, e permitiu que se apresentasse como herdeiro da fortuna do piloto.

Também Óscar “Cacho” Fangio, quatro anos mais velho que Rubén, foi comprovado como filho de Fangio. Óscar foi piloto de Fórmula 3 e chegou a conviver com o pai. Nas pistas era chamado de Fangio. Os dois irmãos só se conheceram após os 70 anos de idade.

Fangio a conduzir

Juan Manuel Fangio: a carreira em números

  • Participação: em 51 grandes prémios;
  • 24 vitórias;
  • 29 pole position;
  • 23 recordes de volta;
  • 5 títulos mundiais de piloto (1951, 1954, 1955, 1956 e 1957), em oito temporadas;
  • 2 vice-campeonatos (1950 e 1953);
  • Corridas com a Alfa Romeo – 1950 e 1951;
  • Corridas com a Maserati – 1953-1954 e 1957-1958;
  • Corridas com a Mercedes – 1954-1955;
  • Corridas com a Ferrari – 1956;
  • Único piloto da F1 campeão em 4 equipas diferentes: Alfa Romeo. Maserati, Ferrari e Mercedes;
  • Vitórias por equipa: Mercedes, 8; Maserati, 7; Alfa Romeo, 6 e Ferrari, 3;
  • É campeão com a maior percentagem de vitórias: 47,06%;
  • Detentor da maior percentagem de títulos: 62,5%;
  • Detentor da maior percentagem de pole position: 55,7%;
  • Detentor da maior percentagem de saídas na primeira fila: 94,1%;
  • Detentor da maior percentagem de pódios: 68,6%.

Museu na Argentina perpétua nome de Fangio

O Museu Juan Manuel Fangio na cidade de Balcarce, em Buenos Aires (Argentina), é um espaço dedicado não só à vida do piloto, mas também aos carros de corrida e ao desporto automóvel.

Inaugurado em 1986 com a presença do pentacampeão de Fórmula 1, está localizado a poucos quarteirões do lugar onde nasceu Fangio, e reúne uma coleção de automóveis (mais de 50), troféus, fotografias e outra recordações do piloto.

Com uma área de 4.600 metros quadrados o museu ocupa um edifício de seis andares. Uma lenda que perdura.

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