Share the post "Lítio no Barroso: entre a terra que alimenta e o chão que vale ouro"
Em Covas do Barroso, uma aldeia no coração transmontano onde o tempo parece ter preservado algo que as cidades perderam, um sentido de pertença ao território, os habitantes acordaram há alguns anos com uma notícia que mudaria as suas vidas.
Debaixo dos campos que lavram, dos prados onde pastam os seus cavalos e do solo que alimentou gerações, existe aquilo a que o mundo chama “ouro branco”. Lítio. O mineral sem o qual a transição energética global não consegue avançar.
O que se seguiu é, ainda, uma história de promessas económicas, resistência popular, processos judiciais, decisões políticas polémicas e uma disputa que chegou ao Tribunal de Justiça da União Europeia. Uma batalha que está longe de terminar, se bem que alguns julguem este processo como irreversível.
O que é o Projeto de Lítio do Barroso?
O Projeto de Lítio do Barroso é promovido pela empresa britânica Savannah Resources, cotada na bolsa de Londres, e localiza-se no município de Boticas, distrito de Vila Real, a cerca de 145 quilómetros a nordeste do Porto.
A Savannah detém 100% do projeto desde 2019, depois de ter adquirido uma participação inicial de 75% em 2017. O plano da empresa é instalar quatro minas a céu aberto numa concessão de 542 hectares (que pretende expandir para 593 hectares), construir uma lavaria para processar o minério e operar ao longo de 12 anos (mais cinco entre o início e o fim da exploração).
Diariamente, camiões carregados circulariam pelos caminhos da região para transportar o material extraído. A espodumena (a forma de lítio em rocha dura presente no Barroso) é um dos principais ingredientes das baterias de iões de lítio que alimentam veículos elétricos, telemóveis e sistemas de armazenamento de energia. Nesse sentido, o projeto enquadra-se diretamente na aposta europeia de descarbonização e independência tecnológica face à China.
Quanto lítio existe no Barroso? Números surpreendem
Durante anos, as estimativas foram crescendo à medida que as prospeções avançavam. Em setembro de 2025, a Savannah anunciou resultados que fizeram manchetes em toda a imprensa especializada e as sondagens mais recentes confirmaram cerca de 39 milhões de toneladas de recurso mineral, um aumento de 40% face às projeções anteriores.
Entretanto, o objetivo de exploração estimado aumentou 200%, para entre 35 e 62 milhões de toneladas e existe potencial para que o projeto venha a superar os 100 milhões de toneladas de mineralização de lítio ao longo dos anos. Suficiente, segundo a empresa, para a produção de 47 milhões de veículos elétricos, o equivalente à frota automóvel conjunta de Portugal, França e Países Baixos.
Estes números consolidam o Barroso como a maior reserva conhecida de espodumena de lítio da Europa, um título com implicações geopolíticas e económicas de enorme alcance.
Uma terra com classificação mundial em risco

Aqui reside um dos paradoxos mais perturbadores desta história. É que a região do Barroso não é apenas rica em lítio, também é Património Agrícola Mundial, distinção atribuída em 2018 pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), única em Portugal.
A FAO reconheceu as tradições milenares do povo do Barroso na relação com o ambiente, designadamente a agricultura de subsistência, a silvicultura, a pastorícia, os “baldios” (terras comuns geridas coletivamente).
A região mantém, segundo o organismo internacional, áreas ambientais muito significativas e relativamente intactas. É precisamente neste cenário que se pretende escavar quatro minas a céu aberto a poucas centenas de metros das aldeias.
Polémicas ambientais: água e biodiversidade
As preocupações ambientais levantadas por populares, autarcas, cientistas e organizações ambientalistas são várias e documentadas.
Recursos hídricos em perigo
Os opositores ao projeto alertam que a mina poderia desviar cursos de água superficiais e afetar permanentemente as reservas de água subterrâneas.
Num cenário de rotura das instalações de armazenamento de rejeitos, os resíduos da extração, a contaminação poderia atingir os rios Covas, Beça, Tâmega e Douro.
A Savannah Resources contrapõe que alterações no projeto e medidas de monitorização reduziram significativamente os riscos para as águas superficiais e subterrâneas, garantindo conformidade com as normas europeias.
Biodiversidade e paisagem
A zona de influência do projeto coincide com habitats de grande valor ecológico.
Ambientalistas argumentam que a escavação de quatro minas a céu aberto, a construção de estradas, reservatórios, escritórios, laboratório e uma Estação de Tratamento de Águas Residuais transformaria irreversivelmente a paisagem transmontana.
A questão dos rejeitos
O armazenamento dos resíduos da mineração na mesma área da concessão é outro ponto de contencioso. Os rejeitos de mina podem conter elementos potencialmente tóxicos e representam um risco de longa duração para o ambiente.
A luta da população: de bloqueios a tribunais

A resistência de Covas do Barroso não nasceu de um dia para o outro. Quando os habitantes perceberam o que estava verdadeiramente em causa, a oposição organizou-se de forma determinada.
A associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso (UDCB), liderada por Nelson Gomes, tornou-se o rosto visível desta resistência. Em 2024, a população chegou a bloquear fisicamente a entrada de máquinas nos terrenos.
Em dezembro desse ano, o Ministério do Ambiente concedeu uma servidão administrativa à Savannah, permitindo à empresa aceder legalmente aos terrenos durante um ano para prospeções.
Essa decisão, tomada pela então secretária de Estado da Energia Maria João Pereira, retirou aos moradores a possibilidade de bloqueio físico, mas não apagou a sua determinação de lutar por outros meios.
Os processos judiciais têm-se multiplicado, com ações para anular o contrato de concessão, providências cautelares para interromper trabalhos de prospeção, e um processo em que o próprio Ministério Público defendeu a nulidade da Declaração de Impacte Ambiental do projeto.
Bruxelas diz estratégico, a comunidade sacrifício

Em março de 2025, a Comissão Europeia incluiu a mina do Barroso entre os 47 projetos estratégicos selecionados ao abrigo do Regulamento Europeu de Matérias-Primas Críticas (CRMA, na sigla inglesa), que entrou em vigor em maio de 2024.
O estatuto de projeto estratégico traz vantagens concretas: processos de licenciamento acelerados (máximo 27 meses para projetos de extração, face aos habituais 5 a 10 anos), acesso facilitado a financiamento e menos obstáculos burocráticos.
Portugal tem, no total, quatro projetos na lista europeia. Além do Barroso (Savannah Resources), a mina do Romano em Montalegre (Lusorecursos), um projeto de lítio da Lifthium Energy e a Somincor para cobre no Alentejo.
A decisão de Bruxelas foi recebida com indignação pelos opositores. A UDCB, a MiningWatch Portugal e a organização ambiental ClientEarth apresentaram em junho de 2025 uma queixa ao Tribunal de Justiça da União Europeia, argumentando que a Comissão não reavaliou o projeto perante novas evidências de riscos ambientais, sociais e de segurança.
Em fevereiro de 2026, o caso foi formalmente levado a tribunal, tornando-se o primeiro teste ao CRMA no mais alto tribunal europeu.
O resultado poderá afetar todos os outros projetos mineiros com estatuto estratégico na UE e definir até que ponto os interesses comerciais e industriais podem sobrepor-se à oposição local.
Lítio: o dinheiro público entra em cena
Em janeiro de 2026, o Governo português anunciou a atribuição de financiamento público ao projeto da mina do Barroso através de fundos nacionais ao abrigo do Quadro Temporário de Crise e Transição da Comissão Europeia.
Serão mais de 110 milhões de euros, segundo fontes que acompanham o processo.
Para a UDCB, esta decisão representa uma perversão do interesse público. O Estado legitima e apoia uma iniciativa privada que ameaça destruir uma região de Património Agrícola Mundial, sem consultas públicas adequadas e à revelia de pareceres ambientais críticos.
O que aí vem: calendário e perspetivas

A Savannah Resources mantém o seu plano de iniciar a construção até ao final de 2026 e começar a produção em 2028.
Para isso, a empresa concluiu em novembro de 2025 um aumento de capital de 12 milhões de dólares e avançou com a aquisição de uma nova concessão adjacente, a “Aldeia”, para ampliar a área de exploração.
No terreno, os trabalhos de prospeção continuam. A empresa aguarda uma segunda servidão administrativa para trabalhos de geotecnia, enquanto prepara o Plano de Lavra, o Relatório de Conformidade Ambiental do Projeto de Execução (RECAPE) e a estruturação do financiamento final do projeto.
Do lado dos opositores, a batalha no Tribunal de Justiça da UE poderá mudar tudo ou não mudar nada.
A decisão do tribunal é aguardada com enorme atenção por ativistas, investidores, governos e comunidades de toda a Europa afetadas por projetos mineiros similares.
Independência da China
A Europa quer ser independente da China nas baterias elétricas. Portugal quer ser um hub europeu do lítio. A Savannah Resources quer explorar o maior depósito de espodumena do continente.
E os habitantes de Covas do Barroso querem continuar a viver na terra dos seus antepassados, sem minas a céu aberto à porta de casa.
Quem cede? Quem decide? E em nome de quê? Estas são as perguntas que Trás-os-Montes coloca ao resto da Europa e que o Tribunal de Justiça da União Europeia terá, em breve, de começar a responder.