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José Gonçalves
José Gonçalves
20 Mai, 2020 - 10:21

Niki Lauda: a memória de um dos maiores de sempre da Fórmula 1

José Gonçalves

Partiu há 1 ano, a 20 de Maio de 2019. Em vida, popularizou-se entre os rivais numa era em que na F1 o talento puro fazia grande diferença. Recordamos aqui as suas maiores vitórias nas pistas.

Niki Lauda, um dos maiores de sempre da Fórmula 1

Andreas Nikolaus (Niki) Lauda nasceu em Viena, capital da Áustria, a 22 de fevereiro de 1949, e morreu a 20 de maio de 2019, também na sua terra natal.

Foi três vezes campeão do mundo de Fórmula 1 (1975, 1977 e 1984) e um dos mais «lendários» pilotos da história da competição. Ao longo dos 13 anos que dedicou à F1, entre 1971 e 1985, com dois anos de interregno (1980 e 1981), venceu 25 das 171 corridas que disputou.

“É com enorme tristeza que anunciamos que o nosso querido Niki morreu em paz, rodeado pelos seus familiares”, pode ler-se num comunicado emitido pela família.

O austríaco tinha tido um problema respiratório, no início deste ano, na sequência de um transplante de pulmão realizado em 2018. Fazia também hemodiálise, depois de ter recebido dois transplantes de rim, em 1997 e 2005.

“As suas realizações únicas como desportista e como empresário são e serão sempre inesquecíveis. O seu dinamismo inesgotável, e a sua integridade e a sua coragem serão sempre um modelo e uma referência para todos nós. Era um marido, pai e avô amoroso e carinhoso”, realça ainda a família no comunicado.

Morreu Niki Lauda: Um símbolo de uma era que já não volta

Niki Lauda

“Se pudesse voltar a correr e escolher uma era, seria hoje. Os pilotos ganham dez vezes mais do que na minha altura e não há riscos”, disse Niki Lauda numa entrevista ao jornal inglês The Guardian, em 2016.

E é bem verdade. Lauda pertenceu a uma geração em que ainda era o romantismo que movia a Fórmula 1. E também em que era exigida uma grande dose de coragem e de loucura a todos os participantes. Para se ter uma ideia, ao longo dos anos em que Niki Lauda correu, morreram 14 pilotos em pista na competição. Ele próprio sobreviveu milagrosamente a um acidente, em 1976.

Já lá iremos. Entretanto, os anos 1970 e 1980 foram também tempos em que a qualidade dos pilotos fazia mais a diferença do que a dos carros, daí ser natural haver vários vencedores de corridas em cada época, e múltiplos campeões do mundo ao longo dos anos. De 1950 ao ano 2000, houve 28 campeões diferentes. De 2000 à atualidade, houve 7.

Quando, em 1984, Niki fez o «tri», foi o terceiro piloto da história a consegui-lo, ao fim de 35 anos de competição, depois do escocês Jackie Stewart, também tricampeão, e do «lendário» argentino Juan Manuel Fangio, com o seu «penta», entre 1951 e 1957. Alberto Ascari intrometeu-se nesta sequência, em 1952 e 1953.

Só mais tarde Nelson Piquet e Ayrton Senna conquistaram os respetivos tricampeonatos e Alain Prost o «tetra». Chegou depois a era de Schumacher e do algum aborrecimento que envolve a Fórmula 1 desde então e até aos nosso dias, salvo pontuais exceções.

Nos últimos anos, os Campeonatos do Mundo têm mesmo sido decididos, com as referidas exceções pontuais, entre os dois pilotos da equipa com o carro mais competitivo. Mas isso são «contas de outro rosário»…

Terrível acidente e extraordinária superação

Voltando ao campeoníssimo Niki Lauda, é dele também uma das maiores histórias de superação não só da Fórmula 1 e do desporto automóvel mas também de toda a história do desporto.

Corria o ano de 1976 e o austríaco, que defendia o seu primeiro campeonato, travou um duelo emocionante, primeiro contra a morte e depois com James Hunt, que estava no polo oposto da sua personalidade – o inglês era exuberante e playboy. Lauda cavou um fosso confortável para o rival na primeira fase da época, pelo que era o grande favorito ao título… até ao Grande Prémio da Alemanha.

Ainda era disputado em Nurburgring, famoso por ter o traçado mais longo do campeonato, com mais de 22 quilómetros de extensão. Logo na segunda volta, o austríaco despistou-se e chocou violentamente contra os rails de proteção: o Ferrari incendiou-se de imediato e Lauda ficou preso dentro do monolugar.

Os primeiros pilotos a chegar ao local do acidente conseguiram retirá-lo do carro, mas Niki Lauda sofreu queimaduras graves na cabeça e nos braços e inalou gases tóxicos que lhe contaminaram os pulmões e o sangue. Ainda saiu consciente e chegou a conseguir andar, mas entrou em coma pouco depois. Chegou mesmo a ser chamado um padre ao hospital para lhe dar a extrema unção, mas ele reagiu. E de que maneira…

Ficou sem a orelha esquerda, grande parte do cabelo, as sobrancelhas, as pestanas e as pálpebras. Quando acordou, dias depois, recusou as cirurgias plásticas propostas e decidiu que só reconstruiria as pálpebras, para ficar no hospital apenas o tempo necessário para que voltassem a funcionar tão normalmente quanto possível.

Para espanto geral, Lauda só falhou duas corridas, regressando à competição seis semanas depois do acidente, para o Grande Prémio de Itália, onde alcançou um incrível quarto lugar. Quando tirou o capacete, no final da corrida, as compressas ensanguentadas que ainda tinha na cabeça foram a imagem determinada de alguém que colocava a modalidade que amava à frente da própria segurança.

A corrida do título de 1976

Chegados à 16.ª e última corrida da época, a Grande Prémio do Japão, Lauda estava 3 pontos à frente de Hunt, com os pontos a serem distribuídos da seguinte forma: 10 para o primeiro; 6 para o segundo; e 4, 3, 2, 1 para os restantes 6 primeiros.

Chovia torrencialmente e todos os 26 pilotos participantes estavam reticentes quanto à eventual realização da corrida. Houve mesmo uma tentativa de boicote, mas não se chegou a consenso. Após a largada, alguns pilotos decidiram parar, entre eles Niki Lauda. James Hunt não o fez e com o terceiro lugar final, garantiu os pontos suficientes para se sagrar campeão do mundo. Ao sair do carro, Lauda suspirou: “A minha vida vale mais do que um campeonato”.

Niki Lauda foi castigado por Enzo Ferrari, patrão da escuderia, e perdeu a posição de piloto número 1 da equipa no ano seguinte. Ainda assim, voltou a sagrar-se campeão do mundo, em 1977, antes de trocar a Ferrari para pela Brabham-Alfa Romeo. James Hunt retirou-se em 1979 e morreu em 1993, com apenas 45 anos, de ataque cardíaco.

Um piloto disciplinado e metódico

Niki Lauda começou a carreira, em 1968, com apenas 19 anos, destacando-se nas Fórmula 2 e 3. Estreou-se na Fórmula 1 pela modesta March e mudou-se para Ferrari, em 1974, para se campeão mundial no ano seguinte. Notabilizou-se por ser
disciplinado e metódico, contrariando o modelo do típico playboy tão em voga no
«Grande Circo» de então, mesmo sendo um menino rico.

Destacou-se também na aviação comercial, motivo pelo qual interrompeu a carreira, em 1980, antes de aceitar o convite da McLaren para regressar à Fórmula, em 1982. Fundou as já extintas companhias aéreas Lauda Air e Niki, e manteve, até ao ano passado, uma participação na Lauda, subsidiária austríaca da Ryanair.

O ex-campeão austríaco voltou mais tarde à Fórmula 1, como consultor técnico da Ferrari, nos anos 1990, e, em 2001, foi contratado para diretor técnico da Jaguar, cargo que ocupou durante dois anos, até se demitir por falta de resultados. Tornou-se depois presidente não executivo da Mercedes, em 2012, contribuindo para a contratação de Lewis Hamilton.

Para além dos três títulos e das 25 vitórias na Fórmula 1, Niki Lauda conquistou 24 «pole-positions» e alcançou 52 pódios. Foi campeão pela Ferrari e pela McLaren, mas correu ainda pela March, pela BRM e pela Brabham. A sua vida e a sua rivalidade com o piloto britânico James Hunt foram imortalizadas no «grande ecrã» com Rush – Duelo de Rivais, de 2013, realizado por Ron Howard. Um filme que vale a pena ver, até para quem não gosta de corridas.

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