Miguel Pinto
Miguel Pinto
31 Mar, 2026 - 13:00

Santuário da Peneda: a fé que move serras no norte de Portugal

Miguel Pinto

Encravado entre fragas e cascatas, o Santuário da Peneda é um dos lugares mais sagrados e deslumbrantes do norte de Portugal.

Santuário da Peneda

O Santuário da Peneda é recônditoe de uma beleza que desafia muitas tentativas de descrição. Situado na freguesia de Gavieira, no município de Arcos de Valdevez, ergueu-se ao longo de séculos nas encostas da Serra da Peneda, bem no coração do Parque Nacional da Peneda-Gerês.

Nenhuma visita ao santuário se compreende sem conhecer a lenda que lhe deu origem. Conta-se que no dia 5 de agosto de 1220, uma pequena pastora que guardava as cabras da família nos campos daquela serra foi surpreendida por uma aparição.

Nada mais, nada menos, que a Senhora da Peneda, sob a forma de uma pomba branca, que lhe pediu que os habitantes de Gavieira erguessem uma ermida naquele local.

A rapariga foi contar aos pais, mas ninguém lhe deu crédito. Dias depois, a Virgem voltou a aparecer, desta vez já com a forma da imagem que ainda hoje se venera.

E então mandou a criança ir à aldeia de Roussas buscar uma mulher acamada há dezoito anos (Domingas Gregório) que, ao aproximar-se da imagem, recuperou a saúde de imediato.

A lenda tem ainda uma camada histórica anterior.

Por volta dos anos 716 ou 717, cristãos em fuga da invasão sarracena terão escondido uma imagem sagrada entre as enormes fragas da serra. Esta sobreposição de memória histórica, lenda e fé popular é o que torna o lugar tão singular.

Segundo a tradição oral, o Santuário da Peneda terá recebido ao longo dos séculos peregrinos notáveis, incluindo São Pedro Gonçalves Telmo, o Beato Gonçalo de Amarante e São Bartolomeu dos Mártires, que aqui terá invocado a proteção de Maria contra a peste que assolava a Arquidiocese de Braga.

Santuário da Peneda: arquitetura de devoção

vista do santuário da peneda

O conjunto arquitetónico que hoje visitamos foi construído entre os finais do século XVIII e o terceiro quartel do século XIX, com a igreja principal concluída em 1875.

Mas a presença de um espaço de culto remonta pelo menos ao século XIII, quando terá sido implantada a primeira ermida, impulsionada pela tradição beneditina dos monges do Mosteiro de Ermelo.

O santuário ergue-se na margem direita do rio da Peneda, encostado a um imenso afloramento granítico, o Penedo das Meadinhas, com 300 metros de altura, de onde desce uma cascata que emoldura o conjunto.

O que ver no recinto do Santuário

  • Igreja principal (terminada em 1875)
  • Escadório das Virtudes (1854)
  • Estátuas da Fé, Esperança, Caridade e Glória
  • 20 capelas com cenas da vida de Cristo
  • Terreiro dos Evangelistas (1860)
  • Pilar oferecido pela Rainha D. Maria I
  • Inscrição de oferta pelo Negus da Etiópia
  • Cascata do Penedo das Meadinhas

A subida ao santuário faz-se por uma alameda arborizada em escadaria com cerca de 300 metros e 20 capelas, onde se evocam cenas da vida de Cristo, precedida de um átrio com as imagens dos quatro Evangelistas.

Diante da igreja, o escadório das Virtudes, datado de 1854, recebe o visitante com quatro estátuas representando a Fé, a Esperança, a Caridade e a Glória, obras do mestre Francisco Luís Barreiros.

Ao cimo da escadaria, uma praça circular abriga um pilar oferecido pela rainha D. Maria I de Portugal, testemunho da devoção real pela Senhora da Peneda.

Uma das capelas guarda ainda uma curiosidade histórica, com uma inscrição que atesta ter sido oferecida pelo Negus da Etiópia, detalhe que sublinha a dimensão quase universal da devoção que este lugar gerou.

Romaria de setembro: fé, festa e Galiza

caminho do santuário da peneda

Na primeira semana de setembro, o silêncio habitual desta aldeia de montanha parte-se. Milhares de peregrinos, portugueses e galegos, sobem a serra em direção ao santuário, num dos rituais religiosos mais enraizados do Alto Minho.

A festividade decorre entre 1 e 8 de setembro. A partir do dia 31 de agosto, cada tarde traz o terço cantado ao longo das capelas da escadaria. No dia 6, a noite pertence à música e à dança, ao som de concertinas.

Um dos dias é especialmente dedicado aos romeiros galegos, criando uma conjugação única entre duas culturas que partilham raízes, língua e devoção. Esta dimensão transfronteiriça é, talvez, o aspeto mais peculiar desta romaria.

Santuário da Peneda: o que visitar na região

O Santuário da Peneda não existe no vazio, está inserido num território de riqueza natural e patrimonial extraordinária. Uma visita a este lugar bem merece pelo menos um dia inteiro, combinando o espiritual com o paisagístico.

Castro Laboreiro

A poucos quilómetros, esta aldeia histórica guarda um castelo medieval e a famosa raça de cão de pastor. Vale a pena a Ponte da Cava da Velha, também medieval.

Vila de Soajo

A meia hora do santuário, Soajo é famosa pelo seu conjunto de espigueiros, o maior e mais bem preservado do Parque Nacional da Peneda-Gerês.

Parque Nacional Peneda-Gerês

parques de campismo no gerês

O único Parque Nacional português envolve o santuário com fauna, flora e arqueologia únicas. As cascatas, os trilhos e a natureza bruta são atração por si só.

Mosteiro de Ermelo

A caminho ou na volta, o Mosteiro de Ermelo, em Arcos de Valdevez, oferece um mergulho na história beneditina da região que, aliás, influenciou o próprio santuário.

A paisagem que envolve o santuário tem também os seus próprios encantos: a Lagoa da Meadinha, artificial, alimenta a cascata que cai mesmo ao lado da igreja. O som da água, constante, é parte da experiência e mistura-se com o vento que desce a serra e com as rezas em voz baixa dos que ali chegam de longe.

Informação prática para visitantes

O santuário é de entrada livre e pode ser visitado durante todo o ano, embora as acessibilidades possam ser mais exigentes nos meses de inverno, dada a altitude e as condições climatéricas da serra. A época alta para a visita é o verão e, naturalmente, a primeira semana de setembro.

Para quem se desloca de carro, o acesso faz-se via Mezio (Porta do Parque Nacional) a partir de Arcos de Valdevez, num percurso que é ele próprio uma experiência paisagística. Há um pequeno parque de estacionamento junto ao santuário.

Os antigos dormitórios para peregrinos foram convertidos num hotel, pelo que é possível pernoitar mesmo no recinto do santuário, uma opção especialmente recomendável para quem visita durante a romaria de setembro.

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