Share the post "Serra do Courel: trilhos onde a Galiza ainda respira em silêncio"
Chega-se lá quase por teimosia. Uma curva atrás da outra, o asfalto a afinar, a paisagem a fechar-se sobre o carro. Depois abre. E fica um sensação de paz interior. Chegamos à Serra do Courel.
Talvez seja exagero dizer que o Courel é “a outra Galiza”. Mas não é muito. Aqui o turismo não manda, a natureza não está penteada e as aldeias não fingem ser pitorescas. São o que sempre foram. E isso sente-se logo nos primeiros minutos.
Localizada a sudeste da província de Lugo, numa zona montanhosa, está afastada dos grandes eixos rodoviários e das rotas turísticas clássicas.
Esta localização explica quase tudo, desde o isolamento relativo, a baixa densidade populacional, a preservação de paisagens e modos de vida que noutros sítios desapareceram ou foram embalados para consumo rápido.
Onde fica a Serra do Courel?
Situa-se no sudeste da província de Lugo, na Galiza interior, numa
área montanhosa e pouco urbanizada.
Quantos dias são recomendáveis para visitar o Courel?
Dois a três dias permitem explorar aldeias, trilhos e a Devesa
da Rogueira com calma.
A Serra do Courel é muito turística?
Não. E isso é uma das suas maiores virtudes.
É adequada para famílias?
Sim, desde que se privilegie um turismo tranquilo e de natureza,
sem expectativas de infra-estruturas típicas de destinos massificados.
No fim, talvez a Serra do Courel não seja um destino para toda a gente.
Falta-lhe animação noturna, grandes hotéis e certezas rápidas. Mas tem
algo cada vez mais raro: continuidade, silêncio e verdade.
E para quem procura isso, chega.
Não é uma serra espetacular no sentido óbvio. Não há picos dramáticos nem cenários de postal imediato. O Courel conquista aos poucos. Um vale profundo aqui. Uma aldeia encaixada ali. Uma floresta que parece não acabar nunca.
Aldeias na Serra do Courel: silêncio e continuidade

As aldeias do Courel não foram restauradas para visitante ver. Continuam a existir porque alguém ficou.
Froxán, Seceda, Visuña ou Parada são nomes que surgem em mapas discretos, mas ganham corpo quando se caminha entre casas de xisto, muros baixos, currais antigos e fornos comunitários.
Aqui não há centros históricos delimitados nem placas explicativas em excesso. As casas estão onde sempre estiveram. Algumas habitadas, outras fechadas, outras a meio caminho entre ruína e resistência.
Caminhar por estas aldeias é perceber que a arquitetura não era uma escolha estética, mas uma resposta direta ao clima, à escassez e à montanha.
Às vezes aparece alguém à porta. Um aceno curto. Um “bos días”. E segue-se caminho. Tudo normal.
Devesa da Rogueira: entrar numa floresta antiga

A Devesa da Rogueira é, provavelmente, o espaço mais emblemático da serra. Fala-se muito da sua biodiversidade, das dezenas de espécies de árvores, da raridade ecológica. Tudo verdade. Mas isso são palavras grandes para uma experiência muito física.
O chão está sempre húmido. O ar é fresco mesmo no verão. A luz entra filtrada, irregular. Caminha-se devagar, não por respeito intelectual, mas porque o corpo pede.
A floresta impõe um ritmo próprio. Quem entra com pressa sai frustrado. Quem entra atento sai diferente.
Os trilhos estão marcados, mas não são domesticados. Há raízes, pedras soltas, pequenas subidas traiçoeiras. Nada de passadiços nem corrimões. A floresta não facilita. Também não expulsa.
Caminhar no Courel: trilhos sem espetáculo
Caminhar na Serra do Courel não é acumular quilómetros nem conquistar cumes. É ligar aldeias, seguir antigos caminhos mineiros, acompanhar rios, subir encostas apenas para ver melhor o vale do outro lado.
Há percursos sinalizados e outros que se descobrem no terreno. Miradouros improvisados onde se pára o carro sem saber bem porquê.
A paisagem não se impõe. Sugere-se. Muitas vezes envolta em nevoeiro, outras banhada por uma luz suave que parece durar pouco de propósito.
No Courel, perder-se ligeiramente faz parte do roteiro. Não de forma perigosa, mas suficiente para perceber que ali não se anda em linha reta.
Água por todo o lado

Os rios e ribeiros são a espinha dorsal da serra. Correm estreitos, frios, persistentes. O rio Lor acompanha grande parte do território, desenhando curvas e abrindo clareiras.
No verão, surgem poços onde se entra com cautela, porque a água não aquece para agradar. No inverno, o som da corrente domina tudo.
A presença constante da água dá ao Courel uma sensação de frescura permanente. Mesmo nos meses quentes, há sempre sombra, humidade, algum abrigo natural.
Comer no Courel: o que sempre foi
Comer na Serra do Courel é aceitar uma certa simplicidade robusta. Não há menus longos nem interpretações modernas. Come-se o que a terra dá e o que a tradição manda. Caldos quentes, carnes bem tratadas, enchidos, pão consistente, vinho tinto sem cerimónias.
As refeições são demoradas, não por sofisticação, mas por hábito. Come-se, fala-se pouco, repete-se. Funciona.
Quando visitar a Serra do Courel

A primavera traz rios cheios e um verde quase excessivo. O verão é fresco nas zonas mais altas e ideal para caminhadas longas. O outono transforma a serra numa paleta improvável de cores, talvez a melhor altura para quem gosta de caminhar sem pressa.
O inverno é duro, silencioso, com neve ocasional e estradas que exigem atenção. Não é para todos. Mas para alguns, é o Courel no seu estado mais honesto.
A rede móvel é irregular e isso não é defeito. É característica. Nem todos os estabelecimentos aceitam pagamento eletrónico, convém levar dinheiro. No inverno, vale a pena confirmar o estado das estradas antes de subir para as zonas mais altas.
E, sobretudo, convém respeitar o território. No Courel nota-se rapidamente quando alguém não respeita.