Miguel Pinto
Miguel Pinto
12 Fev, 2026 - 11:00

Europa foge do Teams e do Zoom. Mas quais são as alternativas?

Miguel Pinto

Teams e Zoom são duas populares plataformas de videoconferência. Mas a Europa quer fugir delas e apostar na prata da casa.

logos de teams e zoom

Tudo começou com o governo francês a avançar uma das medidas mais concretas desta mudança, anunciando que 2,5 milhões de funcionários públicos irão abandonar, até 2027, ferramentas de videoconferência de fornecedores norte-americanos incluindo Teams e Zoom, Webex e GoTo Meeting.

No seu lugar, passarão a utilizar o Visio, uma plataforma desenvolvida em França, com o objetivo declarado de pôr fim à utilização de soluções não europeias e garantir a segurança e a confidencialidade das comunicações electrónicas públicas.

David Amiel, ministro da função pública francesa, foi ainda mais direto e disse mesmo que a Europa “não pode correr o risco de expor as suas trocas científicas, os nseus dados sensíveis e as suas inovações estratégicas a atores não europeus”.

Mas esta não é uma decisão isolada. É parte de um movimento continental que está a ganhar força e que tem um nome, soberania digital.

Sair do Teams e Zoom: porquê agora?

A preocupação com a dependência tecnológica face aos Estados Unidos não é nova, mas o clima político atual deu-lhe uma urgência que antes não existia.

A administração Trump tem adoptado uma postura cada vez mais assertiva em relação à Europa, incluindo tensões em torno da Gronelândia, o que intensificou receios de que as gigantes tecnológicas do Silicon Valley possam ser pressionadas a cortar serviços.

O episódio com o Tribunal Penal Internacional (TPI) foi um ponto de viragem. Depois de o governo norte-americano sancionar o procurador-chefe do TPI, a Microsoft cancelou o acesso ao seu email, uma decisão que chocou governos europeus e alimentou o medo de um eventual “botão de desligar” à disposição de Washington.

Segundo alguns responsáveis europeus, a dependência tecnológica do continente pode ser usada como arma contra si, lembrando ser imperativo reduzir a exposição às tecnológicas americanas.

Quem já está a agir?

O caso francês é o mais recente e o mais mediático, mas está longe de ser o único:

Alemanha – o estado de Schleswig-Holstein migrou 44.000 caixas de email de Microsoft para um sistema de código aberto e substituiu o SharePoint pelo Nextcloud. Está ainda a ponderar trocar o Windows pelo Linux e adoptar sistemas de telefonia e videoconferência open source.

Áustria – o exército austríaco abandonou o Microsoft Office e adoptou o LibreOffice para a redação de relatórios e tarefas administrativas. Uma das motivações foi a preocupação com a migração forçada do armazenamento de ficheiros para a nuvem da Microsoft.

Dinamarca – o governo dinamarquês e as cidades de Copenhaga e Aarhus estão a testar software de código aberto. A ministra da digitalização Caroline Stage Olsen escreveu no LinkedIn que “nunca nos devemos tornar tão dependentes de tão poucos que deixemos de poder agir livremente.”

Itália – algumas cidades e regiões italianas adoptaram o LibreOffice há vários anos. Se no início a motivação era económica (não pagar licenças), hoje a prioridade é a liberdade tecnológica.

Team e Zoom: quais são as alternativas europeias?

europa não quer o teams ou o zom

A substituição de ferramentas americanas como Teams e Zoom não implica abdicar de qualidade. Existe um ecossistema crescente de alternativas europeias e de código aberto:

Videoconferência e comunicação – o Visio francês é o exemplo mais recente. Existem também soluções como o Jitsi Meet, de código aberto, e o Wire, de origem suíça, entre outras plataformas europeias vocacionadas para comunicações seguras.

Produtividade e escritório. O LibreOffice é a alternativa mais consolidada ao Microsoft 365, com processador de texto, folhas de cálculo e apresentações. O Onlyoffice e o Collabora Online são outras opções amplamente utilizadas em contexto institucional.

Armazenamento e partilha de ficheiros – o Nextcloud, desenvolvido na Alemanha, é uma das alternativas mais populares ao SharePoint e ao Google Drive, já adoptado por vários governos europeus.

Sistemas operativos – o Linux, em várias das suas distribuições, surge como alternativa ao Windows, especialmente em contextos onde o controlo total sobre o sistema é prioritário.

Resposta das empresas americanas

As grandes tecnológicas americanas não ficaram indiferentes ao movimento. A Microsoft tem procurado responder às preocupações europeias com a criação de operações de “nuvem soberana”. Tratam-se de centros de dados localizados em países europeus, geridos por entidades europeias e com acesso físico e remoto reservado a residentes da União Europeia. A ideia é que só europeus possam tomar decisões, para que não possam ser coagidos pelos EUA. O Zoom, o Webex e o GoTo Meeting ainda não tomaram uma posição pública sobre a decisão francesa.

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A verdade é que com a maioria dos serviços digitais hoje alojados na nuvem, os dados dos cidadãos e das instituições europeias estão, em teoria, ao alcance de legislação americana.

Como o CLOUD Act, que permite às autoridades dos EUA aceder a dados armazenados por empresas americanas, independentemente de onde esses dados se encontrem fisicamente. É neste contexto que a soberania digital europeia deixou de ser um tema académico ou de nicho e passou a ser uma prioridade política de primeiro plano.

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