Share the post "Serralves entra no top 100 mundial: os museus mais visitados de 2025"
O Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto, entrou para a lista dos 100 museus mais visitados do mundo em 2025, ocupando o 84.º lugar com 902 mil visitantes. O levantamento anual da publicação britânica The Art Newspaper revela um panorama cultural global onde os grandes museus europeus mantêm o domínio, mas onde a verdadeira explosão de visitantes acontece na Ásia e na América Latina.
Portugal marca presença com Serralves
Serralves é o único museu português a figurar no ranking internacional. Com 902 mil visitantes em 2025, o museu portuense consolida-se como referência da arte contemporânea europeia, num ano em que a maioria das instituições já conseguiu ultrapassar os números pré-pandemia.
O museu projetado por Álvaro Siza Vieira beneficia da combinação entre arquitetura modernista, exposições rotativas de artistas internacionais e os jardins da Fundação de Serralves. Esta oferta multifacetada atrai tanto público nacional como turistas estrangeiros, num fenómeno que contrasta com as dificuldades enfrentadas por outros museus europeus.
A posição de Serralves torna-se ainda mais relevante quando se constata que instituições britânicas tradicionalmente mais visitadas continuam a perder terreno. A National Gallery de Londres, por exemplo, registou 4,2 milhões de visitantes em 2025, ainda 30% abaixo dos números de 2019, apesar da reabertura da renovada Sainsbury Wing.
Louvre mantém reinado absoluto
No topo do ranking mundial permanece o Museu do Louvre, em Paris, com mais de 9 milhões de visitantes em 2025. O museu francês conseguiu inclusive aumentar ligeiramente os números face ao ano anterior, apesar de queixas recorrentes sobre sobrelotação e de ter enfrentado problemas de fraude em bilhetes e até a demissão do diretor.
Logo atrás surgem os Museus do Vaticano com 6,9 milhões de entradas. Mas a verdadeira surpresa fica para o terceiro lugar: o Museu Nacional da Coreia do Sul disparou de 3,8 milhões de visitantes em 2024 para 6,5 milhões em 2025, um crescimento espetacular de 70% que representa uma das maiores subidas em números absolutos alguma vez registadas no levantamento.
Este aumento dramático reflete o fenómeno cultural coreano que se estende muito para lá do K-pop e das séries televisivas. O Museu Nacional de Arte Moderna e Contemporânea de Seul também cresceu 28%, atingindo 2,1 milhões de visitantes, num claro sinal de que a febre global pela cultura coreana se traduz em visitas presenciais tanto de locais como de estrangeiros.
Ásia e América Latina em expansão
A região asiática continua a registar os crescimentos mais impressionantes. O Shanghai Museum East alcançou 4,6 milhões de visitantes no seu segundo ano de funcionamento, somando-se aos 2,4 milhões da sede original na People’s Square. Uma exposição sobre o Antigo Egipto fechou com 2,8 milhões de visitantes ao longo de 13 meses, números que seriam invejáveis para muitos museus como total anual.
Em Hong Kong, o M+ manteve 2,6 milhões de visitantes, enquanto o Hong Kong Palace Museum registou 940 mil entradas. No Japão, mercado mais maduro, o Museu Nacional de Tóquio subiu ligeiramente para 2,6 milhões, com a ajuda de uma exposição de nenúfares de Monet que sozinha atraiu 808 mil pessoas ao Museu Nacional de Arte Ocidental.
A América Latina também brilhou em 2025. O Museu Nacional de Antropologia da Cidade do México bateu recordes com 5,1 milhões de visitantes, crescendo 36% e aproximando-se perigosamente do Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque. No Brasil, o Museu de Arte de São Paulo (MASP) mais do que duplicou os números para 1,2 milhões de visitantes, impulsionado pela tão esperada expansão inaugurada em março e por uma popular exposição de Claude Monet que atraiu 503 mil pessoas.
Quatro museus brasileiros entraram no top 100: o MASP em 64.º lugar, os Centros Culturais Banco do Brasil do Rio de Janeiro (67.º) e Belo Horizonte (69.º), e a Pinacoteca de São Paulo em 94.º com 820 mil visitantes. O Instituto Tomie Ohtake cresceu 84% para 665 mil visitantes, enquanto o Instituto Moreira Salles registou um aumento de 36%.
Europa estável mas desigual
Enquanto a Ásia explode e a América Latina cresce consistentemente, a Europa apresenta um cenário de estabilidade com manchas de dificuldade. O Prado de Madrid ultrapassou pela primeira vez os 3,5 milhões de visitantes.
Em Paris, o Musée d’Orsay manteve-se firme nos 3,8 milhões, enquanto o Centro Pompidou fechou em setembro para renovação. Em Itália, os Museus do Vaticano e os Uffizi de Florença continuam a atrair multidões, com os três locais interligados dos Uffizi a somarem 5,3 milhões de visitantes.
O Reino Unido apresenta o quadro mais preocupante. Além da National Gallery, a Tate continua a sofrer: a Tate Modern está 26% abaixo de 2019, a Tate Britain 36% abaixo, e a Tate St Ives 19% abaixo. Ambas as instituições foram forçadas a fazer despedimentos por dificuldades financeiras.
O contraste é evidente: o British Museum teve outro ano forte com 6,4 milhões de visitantes, igualando 2024 e superando 2019. As razões para esta divergência permanecem em debate, mas os dados do Visit Britain mostram que o turismo internacional global ao Reino Unido em 2025 foi superior a 2019, com visitantes da UE a crescerem 4% face a 2024.
Novos museus conquistam público
Uma das tendências mais fortes de 2025 foi o sucesso de museus recém-inaugurados. O V&A East Storehouse em Londres atraiu uma média de 60 mil visitantes mensais desde a abertura em maio, batendo a meta anual em apenas cinco meses. Este desempenho augura bem para o vizinho V&A East, que abre em 2026.
Na Austrália, a National Gallery of Victoria liderou entre as três grandes instituições do país com 3 milhões de visitantes, crescendo 7,8% face a 2024. A exposição de Yayoi Kusama vendeu quase 571 mil bilhetes, tornando-se a exposição paga mais popular da história da arte australiana e ultrapassando a anterior campeã, a mostra de Van Gogh de 2017 no mesmo museu.
O Grande Museu Egipcio, nos arredores do Cairo, abriu formalmente em novembro de 2025 mas não forneceu números fiáveis. Relatos iniciais indicavam até 18 mil visitantes diários, o que projetaria cerca de 6,5 milhões anuais, colocando-o ao nível do British Museum.
Estados Unidos entre desastres e sucessos
Os museus norte-americanos enfrentaram um ano acidentado. Os incêndios florestais de Los Angeles em janeiro afetaram dramaticamente a Getty Villa, que fechou quase metade do ano e registou apenas 189 mil visitantes, uma queda de 58%. Milagrosamente poupada pelas chamas que arderam em seu redor, a villa escapou à destruição mas não às consequências económicas.
O encerramento do governo federal em outubro e novembro atingiu duramente os museus de Washington. A National Gallery of Art caiu 28% para 2,9 milhões de visitantes, enquanto a National Portrait Gallery e o Smithsonian American Art Museum viram os números afundar para quase metade dos valores pré-Covid, com 938 mil visitantes e quedas de 26% face a 2024 e 44% face a 2019. O ano foi particularmente volátil para estas duas instituições, marcado por batalhas políticas com a administração Trump, artistas a retirarem-se de exposições e demissões de topo.
Apesar das dificuldades, o Metropolitan Museum of Art manteve-se como o museu mais visitado das Américas com quase 6 milhões de visitantes no edifício principal, crescendo 4% após a reabertura em maio da renovada Michael C. Rockefeller Wing dedicada a arte africana, americana antiga e da Oceânia.
Os maiores ganhos surgiram em museus mais pequenos e fora dos grandes centros. O Museum of Contemporary Art de San Diego quase duplicou para 132 mil visitantes, enquanto a Morgan Library and Museum de Nova Iorque, o Cleveland Museum of Art e o Toledo Museum of Art registaram subidas superiores a 20%.
Van Gogh e os impressionistas provaram-se imbatíveis em termos de atração popular. No Museum of Fine Arts de Boston, uma exposição sobre os retratos da família Roulin pintados por Van Gogh em Arles atraiu mais de um quarto do total anual de 1,1 milhão de visitantes. No San Francisco Museum of Modern Art, quase metade dos visitantes do ano foram ver a retrospetiva de Ruth Asawa.
O futuro do turismo cultural
O levantamento da The Art Newspaper para 2025 conta mais de 200 milhões de visitas aos 100 principais museus mundiais. Ainda fica aquém dos 230 milhões registados em 2019, mas representa um salto gigantesco face aos 54 milhões de 2020, ano em que a pandemia fechou instituições por todo o mundo.
As tendências são claras: a Ásia e a América do Sul vivem uma explosão de visitantes, com novos museus a atrair multidões e instituições estabelecidas a baterem recordes. A Europa e os Estados Unidos apresentam números estáveis, excetuando catástrofes naturais ou políticas. E os impressionistas, que dominaram 2024 com exposições imersivas, regressaram em força total em 2025 através de mostras mais tradicionais.
Para Portugal, a presença de Serralves no top 100 mundial é um reconhecimento da qualidade da instituição portuense e um lembrete de que, num panorama cultural global cada vez mais competitivo, manter visitantes exige mais do que boas coleções: exige programação relevante, espaços bem concebidos e a capacidade de se reinventar constantemente. Os 902 mil visitantes que passaram por Serralves em 2025 são prova de que, quando estes elementos se conjugam, até mercados relativamente pequenos conseguem marcar presença no palco mundial da cultura.