Share the post "Três eclipses solares em três anos: o fenómeno astronómico que coloca a Península Ibérica no mapa"
Entre 2026 e 2028, Espanha assistirá a três eclipses solares excecionais, dois totais e um anular, numa sequência tão rara que astrónomos a baptizaram de “Trio de Eclipses”. Não é habitual que um único país tenha eclipses desta magnitude num período de tempo tão curto. Portugal partilha a península, mas fica praticamente fora da festa astronómica. O primeiro evento acontece a 12 de agosto de 2026, e traz consigo um detalhe que ninguém vivo testemunhou: Portugal assistirá a um eclipse solar total pela última vez até 2144. São 118 anos de intervalo.
A particularidade está na geometria. Um eclipse solar total ocorre quando a Lua se interpõe entre a Terra e o Sol, bloqueando completamente a luz durante segundos ou minutos. Mas essa escuridão absoluta só é visível dentro de um corredor estreito na superfície terrestre. Eclipses totais solares são visíveis a cada 400 anos de qualquer ponto específico da Terra. O que torna este trio excepcional é colocar a mesma região geográfica, a Península Ibérica, no caminho de três fenómenos distintos em três anos consecutivos, algo que não se vai repetir tão cedo.
Primeiro eclipse: 12 de agosto de 2026
No dia 12 de agosto de 2026, um eclipse solar total atravessará o norte de Espanha de oeste para leste, da Galiza às Baleares, pouco antes do pôr do sol. A faixa de totalidade — onde o Sol desaparece por completo — tem cerca de 290 km de largura e cobre aproximadamente 40% do território espanhol. Será um fenómeno particularmente marcante, com a estrela a esconder-se completamente junto ao horizonte e a transformar o fim do dia numa noite repentina.
A geometria do evento favorece Espanha de forma clara. A faixa de totalidade atravessará regiões como Galiza, Astúrias, Castela e Leão, Madrid, Castela-La Mancha, Aragão, Catalunha e Comunidade Valenciana. Cidades como Valência, Saragoça, Bilbau e Palma ficam dentro da zona de escuridão total. Madrid e Barcelona escapam por poucos quilómetros, mas ainda assim terão mais de 99% do disco solar coberto.
Em Portugal, apenas o Parque Natural de Montesinho, em Bragança, registará a totalidade por cerca de 26 segundos. É uma faixa estreitíssima que toca o extremo do país. No resto do território, o eclipse será parcial, embora intenso. No Porto, 98,23% do disco solar será coberto pela Lua. Em Lisboa, os valores rondam os 94%. Mas parcial não é total: a diferença entre 98% e 100% é a diferença entre penumbra estranha e escuridão absoluta com coroa solar visível.
Em Portugal, as fases parciais começam por volta das 18:33 a 18:41, com o evento a terminar entre as 20:24 e as 20:31. Ou seja: final da tarde, Sol baixo no horizonte oeste, o que exige locais com visão desimpedida. Montanhas, prédios ou arvoredo bloqueiam a observação facilmente.
Segundo eclipse: 2 de agosto de 2027
O segundo ato do trio acontece menos de um ano depois: 2 de agosto de 2027. Será outro eclipse solar total, mas com um trajeto completamente diferente. Desta vez, a faixa de totalidade entra pela costa sul de Espanha, atravessa o Estreito de Gibraltar, passa pelo norte de África (Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Egipto) e segue para o Médio Oriente.
Em território espanhol, cidades como Cádis, Algeciras, Málaga e Gibraltar ficam dentro da zona de totalidade. A duração máxima do eclipse atinge os 6 minutos e 23 segundos em algumas zonas da Península Arábica, um dos eclipses mais longos do século XXI. Mas na Península Ibérica, os tempos rondam os 3 a 4 minutos, dependendo da localização exata.
Portugal continental fica completamente fora da faixa de totalidade. O eclipse será visível como parcial em todo o território, com percentagens de obscurecimento mais baixas do que em 2026. Lisboa e Porto terão cobertura inferior a 50%. É um evento astronómico relevante a nível global, mas geograficamente marginal para quem está em solo português.
Terceiro eclipse: 26 de janeiro de 2028
O último elemento do trio é diferente: um eclipse solar anular. Ao contrário do eclipse total, onde a Lua cobre completamente o Sol, no eclipse anular a Lua está mais afastada da Terra na sua órbita elíptica e não consegue tapar o disco solar por completo. O resultado é o chamado “anel de fogo”, um círculo luminoso visível em torno da silhueta da Lua.
A data é 26 de janeiro de 2028, e desta vez Portugal tem melhor sorte geográfica. A faixa de anularidade, onde o anel de fogo é visível, entra em Espanha pela zona de Madrid, atravessa o centro do país e passa por Portugal continental, incluindo zonas do interior Centro e Norte. Cidades como Guarda, Coimbra e Viseu ficam dentro ou muito perto da faixa central.
A duração da anularidade ronda os 5 minutos em alguns pontos. Fora da faixa, o eclipse continua visível como parcial em todo o território peninsular. É o evento do trio em que Portugal tem maior protagonismo, embora um eclipse anular não tenha o impacto visual de um total. O “anel de fogo” é espetacular, mas não provoca escuridão completa nem permite ver a coroa solar, que é o elemento mais fotogénico e cientificamente relevante dos eclipses totais.
Porque é que esta sequência é rara
De acordo com o Ministério da Ciência, Inovação e Universidades de Espanha, esta sucessão “representa uma oportunidade extraordinária” para avançar no conhecimento do Sol e do ambiente terrestre. A raridade não está em cada eclipse individual, pois, existem eclipses solares a cada 18 meses algures no planeta. A raridade está na convergência geográfica: três eclipses diferentes, em três anos consecutivos, sobre o mesmo país.
Espanha percebeu o potencial. O governo escolheu o Observatório de Yebes, em Guadalajara, como centro oficial de monitorização do eclipse total de 2026, gerido pelo Instituto Geográfico Nacional. Há um site oficial que centraliza informação científica, logística e turística. O Ministério dos Transportes e da Mobilidade Sustentável está a trabalhar em estudos para antecipar os movimentos de massas e minimizar o impacto nas estradas, caminhos-de-ferro, aeroportos e portos.
Do lado científico, astrónomos de todo o mundo já reservaram posições de observação. De facto, Espanha será o único território povoado do planeta a partir do qual será possível observar o eclipse total de agosto de 2026, a faixa de totalidade passa pelo Ártico, Gronelândia e Islândia antes de chegar à Península, mas em zonas quase desabitadas ou com condições meteorológicas imprevisíveis. Espanha, com clima estável em agosto, infraestrutura turística desenvolvida e céus limpos no interior, torna-se o destino óbvio.
Como observar com segurança e o que não fazer
Regra absoluta: nunca olhar diretamente para o Sol sem proteção certificada, nem durante eclipses parciais, nem durante a fase anular. A única excepção são os segundos de totalidade completa num eclipse total e apenas se estiver fisicamente dentro da faixa de totalidade. Fora dessa janela temporal, a luz solar direta queima a retina de forma permanente e indolor. Não há sintomas imediatos, pois, a lesão aparece horas depois.
Óculos de eclipse certificados ISO 12312-2 são obrigatórios. Óculos de sol normais, mesmo os mais escuros, não protegem. Filtros de soldadura com índice 14 ou superior funcionam. Binóculos, telescópios ou câmaras fotográficas sem filtros solares adequados amplificam a radiação e destroem a visão instantaneamente.
Métodos indiretos, como projeção através de furos numa caixa de cartão são seguros e permitem acompanhar o eclipse sem risco, mas não substituem a experiência visual direta de um eclipse total dentro da faixa de totalidade, onde durante breves momentos a coroa solar, as proeminências e o efeito de “diamante” são visíveis a olho nu sem proteção.
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