Miguel Pinto
Miguel Pinto
18 Fev, 2026 - 15:30

Caminhada que conta histórias: o Trilho das Brandas de Sistelo

Miguel Pinto

É conhecido como o Trilho das Brandas de Sistelo e percorre uma paisagem deslumbrante. Preparado para esta caminhada?

Brandas de sistelo

Há trilhos que se percorrem com as pernas. O Trilho das Brandas de Sistelo percorre-se também com a imaginação. Cada passo sobre as calçadas centenárias de granito é um passo atrás no tempo, por entre vestígios de um modo de vida que moldou a paisagem da Serra da Peneda durante séculos.

Este percurso pedestre circular, classificado como PR 14, é considerado por muitos caminhantes um dos mais belos de todos os que integram o Parque Nacional da Peneda-Gerês e razões para isso não faltam. Por isso, prepare todo o equipamento e vá à aventura de conhecer uma região com paisagens incríveis, gentes afáveis e gastronomia de chorar por mais.

Brandas de Sistelo: herança pastoril de séculos

trilho das brandas de sistelo

Para compreender verdadeiramente este trilho, é preciso primeiro entender o que significa a palavra “branda”.

Nas aldeias montanhosas do Alto Minho, as brandas e as inverneiras compunham um sofisticado sistema de transumância vertical que durante séculos regulou a vida das populações agro-pastoris da região.

Eram aldeamentos sazonais localizados geralmente acima dos 600 metros de altitude, habitados durante a primavera e o verão.

Com a chegada dos meses frios, as famílias desciam com o gado para as inverneiras, aldeias situadas em cotas mais baixas, entre os 400 e os 600 metros, mais abrigadas dos rigores do inverno.

Esta migração cíclica entre a aldeia baixa e as pastagens de montanha não era apenas uma estratégia de sobrevivência; era também uma forma de gestão inteligente do território, que permitia fertilizar as terras de cultivo com o gado enquanto as pastagens de altitude se recuperavam.

Fim da transumância

Hoje, a transumância praticamente desapareceu das serras do Gerês, consequência das profundas transformações económicas e sociais da segunda metade do século XX. O que ficou são as brandas, algumas em ruínas, outras conservadas, como testemunhos silenciosos de um tempo em que a montanha era um espaço de trabalho, comunidade e identidade.

O trilho PR 14 (conhecido como Branda de Sistelo) leva o caminhante precisamente até duas dessas brandas: a Branda do Alhal e a Branda do Rio Covo.

Sistelo: o pequeno tibete português

aldeia de sistelo

O ponto de partida e chegada do trilho é a aldeia de Sistelo, localizada nas fraldas da Serra da Peneda, no concelho de Arcos de Valdevez.

Conhecida pelo apelido de “Pequeno Tibete Português”, Sistelo ganhou fama pelos seus impressionantes socalcos, terraços agrícolas talhados nas encostas ao longo de séculos, classificados como Monumento Nacional.

A aldeia integra o Parque Nacional da Peneda-Gerês e é um destino de eleição para os amantes de caminhadas, contando com mais de meia dúzia de trilhos devidamente sinalizados.

O percurso tem início junto ao chamado Castelo de Sistelo, um curioso edifício que serviu de residência ao primeiro e único Visconde de Sistelo, um comerciante local que fez fortuna no Brasil.

O percurso passo a passo

O trilho das Brandas de Sistelo serpenteia pelo casario rústico e pelos típicos espigueiros antes de subir pelas encostas da serra.

Partida: o centro da aldeia (250 m de altitude)

A caminhada começa no coração da aldeia de Sistelo, o ponto mais baixo do percurso. Nos primeiros quilómetros, o trilho partilha o traçado com o PR 24, Trilho dos Socalcos de Sistelo.

É importante prestar atenção às marcações, já que quando a sinalização indicar para descer, deve ignorar-se e continuar a subir, pois é aí que os dois percursos se separam.

A subida é progressiva, recompensada a cada curva por vistas cada vez mais abertas sobre os socalcos e o vale do Rio Vez, um dos rios mais puros de Portugal, onde nasce nos confins da Serra da Peneda.

Padrão e a subida para a serra

Após os primeiros 2,5 quilómetros, o percurso passa pelo pequeno lugar de Padrão. A partir daqui, o declive acentua-se consideravelmente rumo à Branda do Alhal.

O esforço é exigente, mas a recompensa está à altura, com as vistas sobre os socalcos de Sistelo e a paisagem montanhosa da Serra da Peneda a serem de uma beleza difícil de descrever.

Branda do Alhal (740 m de altitude)

A Branda do Alhal encontra-se hoje praticamente em ruínas. As pedras que restam dos seus muros de granito contam, no entanto, a história das famílias que aqui passaram os seus verões durante gerações, cuidando do gado nos pastos de altitude.

Parar neste ponto e olhar para Sistelo lá em baixo, rodeada pelos seus socalcos, é um dos momentos mais contemplativos de todo o percurso.

Espigueiros na aldeia de Soajo
Veja também Soajo: os espigueiros de granito com vista sobre o Gerês

Branda do Rio Covo (800 m de altitude)

A Branda do Rio Covo marca o ponto mais alto do trilho, a cerca de 800 metros de altitude.

O caminho até aqui atravessa um bosque encantado onde, com alguma sorte, é possível encontrar uma manada de vacas cachenas a pastar, a raça bovina autóctone do Gerês, conhecida pelos seus longos chifres e pelo pelo castanho-avermelhado.

Estes animais são geralmente pacíficos e basta manter o silêncio e prosseguir tranquilamente o caminho.

Branda de Sistelo: descida pela calçada centenária

A partir da Branda do Rio Covo começa a descida de regresso a Sistelo.

O trilho segue por uma calçada centenária de granito, o mesmo caminho que durante séculos as famílias percorriam entre a aldeia e as brandas, carregadas de pertences e acompanhadas pelo gado.

Descer por esta calçada, com a paisagem serrana como pano de fundo, é uma experiência de rara autenticidade.

Percurso bem sinalizado

O PR 14 está marcado e sinalizado segundo as normas internacionais de pedestrianismo. O perfil vai desde os aproximadamente 250 metros junto ao Rio Vez até aos 800 metros na Branda do Rio Covo, o que implica um desnível positivo acumulado considerável.

A dificuldade é classificada como média, sendo recomendado um nível físico razoável e, sobretudo, equipamento adequado, como botas de montanha com boa aderência, impermeável e proteção solar. Nos dias de nevoeiro, o percurso requer cuidado redobrado.

O que visitar nas proximidades

Sistelo e as suas imediações oferecem muito mais do que o PR 14. O PR 24 – Trilho dos Socalcos de Sistelo, de dificuldade fácil, é ideal para quem quer apreciar os terraços agrícolas de perto sem o esforço da subida às brandas.

O PR 25 – Trilho dos Passadiços percorre as margens cristalinas do Rio Vez numa experiência mais tranquila e igualmente deslumbrante.

Para quem quer aprofundar o conhecimento sobre o território, o Centro Interpretativo da Paisagem Cultural de Sistelo fornece um enquadramento histórico e ambiental valioso.

A Porta do Mezio, entrada principal do Parque Nacional da Peneda-Gerês no concelho de Arcos de Valdevez, e o Museu da Água ao Ar Livre do Rio Vez são também destinos que complementam muito bem uma visita à região.

Como chegar a Sistelo

Sistelo localiza-se no concelho de Arcos de Valdevez, no distrito de Viana do Castelo, no Alto Minho.

O acesso é feito de automóvel, seguindo a partir de Arcos de Valdevez em direção à serra da Peneda.

As estradas são estreitas e com curvas, o que faz parte do charme da viagem, mas exige prudência ao volante.

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