Miguel Pinto
Miguel Pinto
15 Mai, 2026 - 11:00

Vale a pena ir para a universidade? Salários sobem, mas fica caro

Miguel Pinto

Um estudo responde com dados a uma das perguntas mais importantes para os jovens portugueses: o ensino superior compensa mesmo?

ensino superior

Nas últimas décadas, Portugal fez um caminho notável. A percentagem de jovens entre os 25 e os 34 anos com ensino superior quadruplicou no último quarto de século, atingindo 43% em 2024 e convergindo para a média da União Europeia.

É um progresso real, que merece ser reconhecido. Mas há ainda margem para crescer já que este valor permanece abaixo do observado em países vizinhos como Espanha e França (53%) e distante do líder europeu, a Irlanda (65%).

Um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, coordenado por Luís Catela Nunes, professor catedrático na Nova SBE, procura ir além dos números brutos e perceber o que o ensino superior realmente representa para quem estuda, para as famílias e para o país.

Diplomados entram mais depressa e ficam mais

Um dos dados mais tranquilizadores do estudo diz respeito à empregabilidade. As taxas de emprego dos diplomados são elevadas e aumentam rapidamente com o tempo. Cerca de 75% dos licenciados e 88% dos mestres estão empregados um a dois anos após a conclusão do curso, valores que sobem para 93% ao fim de cinco anos.

Ou seja, mesmo que os primeiros meses após a licenciatura sejam incertos, e muitas vezes são, o mercado de trabalho acaba por absorver a grande maioria dos diplomados de forma crescente.

Salários: a diferença começa cedo

A questão dos salários é onde os dados falam mais alto. Em termos salariais, as diferenças face aos trabalhadores com apenas o ensino secundário são expressivas desde o início da carreira. Entre os 23 e os 26 anos, os licenciados recebem, em média, mais 28% e os mestres mais 49%. Os diplomados do ensino superior beneficiam de trajetórias salariais significativamente mais favoráveis ao longo da vida ativa.

Retorno financeiro: 13,7 euros por cada euro investido

Talvez o número mais citado do estudo seja o de que por cada euro que um estudante investe no ensino superior, considerando custos diretos e rendimentos sacrificados, obtém, em média, mais 13,7 euros em ganhos salariais ao longo da vida, um valor 68% superior à média da UE, que é de 8,2 euros.

Portugal apresenta assim um dos rácios benefício‑custo mais elevados a nível europeu. Na linguagem dos investimentos: a universidade é, em Portugal, um dos melhores investimentos que uma pessoa pode fazer.

Médias: nem todos os cursos são iguais

propinas vão aumentar

Há, porém, um aviso importante no estudo. Os retornos médios ocultam diferenças relevantes. Existem disparidades significativas entre áreas de estudo e uma elevada dispersão salarial, mesmo dentro de cada área.

Isto significa que a escolha do curso importa e muito. Dois jovens com a mesma licenciatura podem ter percursos salariais muito diferentes.

O estudo reforça que esta heterogeneidade deve ser considerada a sério nas decisões educativas, e que os jovens precisam de ter acesso a informação clara e detalhada sobre o que esperar de cada área.

Estudar em Portugal é caro para as famílias

Apesar do retorno elevado, há uma tensão evidente. Quando os custos são medidos em percentagem do rendimento per capita, os custos diretos de estudar no ensino superior estão entre os mais elevados da União Europeia.

E isso cria desigualdade. Não toda a gente tem as mesmas condições para investir. O estudo é claro: as bolsas de estudo são essenciais para garantir que o acesso ao ensino superior não depende das restrições financeiras das famílias.

A equidade no acesso não é apenas uma questão de justiça social. É também uma questão de eficiência económica. Um país que desperdiça talento por razões financeiras está a perder.

médica no ensino superior
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Financiamento das instituições está sob pressão

O modelo de financiamento das instituições de ensino superior em Portugal, que combina fundos públicos com propinas, está sob pressão.

As despesas de funcionamento destas instituições, em termos médios por estudante, estão 35% abaixo da média da UE. Do lado do financiamento, as famílias suportam 30% dessas despesas, face a 13% na UE.

Este desequilíbrio é insustentável a prazo. As instituições não conseguem competir, atrair os melhores docentes, investir em investigação ou modernizar-se com um financiamento tão abaixo da média europeia.

E as famílias, especialmente as de menores rendimentos, são quem mais sente esse peso.

Informação, diversificação e aprendizagem

primeiro ano de faculdade

O policy paper aponta ainda outros desafios. Um deles é a necessidade de disponibilizar informação mais granular sobre empregabilidade, salários e percursos profissionais ao nível dos diferentes cursos, para que as escolhas de jovens e famílias sejam mais informadas.

Outro é a articulação com o ensino profissional. Torna-se essencial promover uma oferta diversificada de cursos superiores, adaptada a diferentes perfis de estudantes, com vias de acesso mais flexíveis e que favoreça a aprendizagem ao longo da vida.

A mensagem central é clara. O ensino superior constitui, em média, um investimento altamente compensador, embora com retornos muito diferenciados entre áreas de estudo e entre indivíduos.

Mas o estudo não se fica pela boa notícia. Obriga a olhar para os problemas reais, como o custo elevado para as famílias, o subfinanciamento das instituições, a falta de informação para as decisões educativas e a necessidade de um sistema mais diversificado e equitativo.

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