Share the post "60 degraus até ao topo e uma vista única da Serra das Talhadas"
No ponto mais alto da Serra das Talhadas, onde o vento varre as cristas quartzíticas e a vista se abre em 360 graus sobre o Geopark Naturtejo, ergue-se uma torre de 16 metros que mudou para sempre o mapa da arquitetura contemporânea portuguesa.
A Torre de Vigia da Serra das Talhadas, projetada pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira é muito mais do que um posto de vigilância florestal. Com 16 metros de altura, esta estrutura metálica está localizada no município de Proença-a-Nova, no distrito de Castelo Branco, e é o primeiro projeto do arquiteto neste território e, ao mesmo tempo, do seu primeiro trabalho em estruturas metálicas.
A obra nasce sobre os alicerces de um antigo posto de vigia que já existia no mesmo local, preservando assim a memória e a função do lugar enquanto o transforma num equipamento arquitetónico de referência. A quem sobe os mais de 60 degraus que a compõem, aguarda uma panorâmica que abrange serras, vales, rios e aldeias, uma das vistas mais amplas e selvagens do centro do país.
Serra das Talhadas: como é a arquitetura da torre?
A solução arquitetónica de Siza Vieira para a Serra das Talhadas distingue-se pela leveza e pelo diálogo com a paisagem. A estrutura metálica está organizada em plataformas a diferentes cotas, todas transparentes, permitindo que o olhar atravesse a construção e alcance a totalidade da paisagem envolvente em qualquer ponto da subida.
No topo, sob a cabine de vigia, painéis fotovoltaicos de forma retangular asseguram o abastecimento energético da estrutura de forma autónoma e sem qualquer impacto visual sobre a paisagem. A contenção é, precisamente, uma das marcas desta obra, ou seja, nada distrai, nada perturba. A arquitetura serve a paisagem.
Onde fica e como chegar?

A Torre de Vigia situa-se no ponto culminante da Serra das Talhadas, uma imponente crista quartzítica que se estende por cerca de 30 quilómetros entre os concelhos de Proença-a-Nova e Nisa, na fronteira natural entre o Alto Alentejo e a Beira Baixa.
O acesso faz-se pelo município de Proença-a-Nova, no distrito de Castelo Branco. A torre integra o território do Geopark Naturtejo, reconhecido pela UNESCO pela riqueza dos seus geomonumentos e geossítios.
Quem visita a zona encontra nas proximidades uma rampa de parapente, a maior via ferrata de Portugal (com 1.600 metros de extensão), trilhos de BTT e percursos pedestres ao longo da crista da serra.
A Torre de Vigia não está acessível a pessoas com mobilidade condicionada ou reduzida, dado o número elevado de degraus e a natureza da estrutura.
A história da Serra das Talhadas
A Serra das Talhadas não é uma serra qualquer. A sua crista quartzítica funcionou durante milénios como barreira natural e linha de defesa do território português. Em 1762, durante a Guerra dos Sete Anos, foi aqui que se criou a Linha Defensiva de Talhadas-Muradal, reforçada com fortes e trincheiras para travar a invasão das tropas franco-espanholas.
Aos pés da torre encontra-se o recinto muralhado de Chão de Galego, conhecido localmente como a Calçada dos Mouros, uma estrutura defensiva com dois quilómetros de perímetro e origem que remonta a três mil anos de história. A própria localização da torre não é, portanto, neutra. Ocupa o ponto mais alto de uma serra que durante séculos foi sentinela do reino.
Uma obra que une escalas distintas
Em 2023, a Torre de Vigia da Serra das Talhadas foi destacada na exposição individual “Two Towers” (Duas Torres), patente no prestigiado Fórum de Arquitetura Aedes, em Berlim. Nessa exposição, organizada para celebrar os 90 anos do arquiteto, a torre de Proença-a-Nova foi colocada lado a lado com uma torre residencial em Manhattan, nos Estados Unidos.
Um investimento no interior do país
O projeto de requalificação da Serra das Talhadas, no qual a Torre de Vigia se insere, custou um total de 625 mil euros, dos quais 250 mil foram financiados pelo Turismo de Portugal através do Programa Valorizar.
Trata-se de um investimento pensado para criar infraestruturas de ecoturismo e atrair visitantes a um território que, apesar da sua riqueza natural e patrimonial, permanecia pouco conhecido.
O que ver nas redondezas?

A visita à Torre de Vigia pode ser o ponto de partida para uma descoberta mais demorada da Serra das Talhadas e dos seus arredores. E há muitas aldeias e lugares que merecem uma paragem.
- Catraia, onde se prova o plangaio, o enchido local, e alguns dos melhores vinhos da Beira Baixa
- Rabacinas, terra de limoais, com uma mercearia-museu e taberna
- Chão de Galego, com o seu madeiro aceso na noite de Natal e o canto das Excelências na Quaresma
- Penafalcão, com lagar de varas comunitário e a piscina natural do Poço do Moinho
- Sobral Fernando, ponto de entrada para as Portas de Almourão
A par disso, o território integra o Geopark Naturtejo, onde geomonumentos como o Escorregadouro da Moura e os canhões fluviais do Tejo e Ocreza revelam a história geológica de uma paisagem com centenas de milhões de anos.