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Um guia para tempos complicados
Mónica Carvalho
Mónica Carvalho
12 Fev, 2021 - 10:26

Oleiros: a terra que renasce sempre das cinzas

Mónica Carvalho

Não há fogo que vergue Oleiros. Apesar do progressivo desaparecimento da mancha florestal, mantém intactos muitos encantos naturais.

Panorâmica da floresta em Oleiros

Já quase não é possível contabilizar as vezes que o concelho de Oleiros foi assolado pela praga dos fogos florestais que ano pós ano devasta parte substancial do interior do País. As imagens sãos sempre dantescas, as labaredas descem as encostas a uma velocidade fulgurante, assistimos impotentes ao desaparecimento do fruto de anos de trabalho.

Nesse sentido, Oleiros é quase uma terra mártir. Contudo, sempre que a tragédia lhe bate à porta, Oleiros levanta-se mostra-se ao mundo tal como é: altiva, dura e resiliente como as zonas montanhosas de xisto que a rodeiam, um dos melhores segredos do distrito de Castelo Branco. E as cerca de 2.300 pessoas que ali vivem têm orgulho em mostrar, e partilhar, o melhor que têm.

A palavra Oleiros parece derivar do latim “ollarium”, um termo que se relaciona com o fabricante ou negociante de panelas de barro, numa alusão à argila existente na região. Outros alegam que deriva de “olleiros”, que significa “olheiros ou olhos de água, vulgo nascentes”, visto existirem na vila vários fluxos de água, especialmente fontes. Independentemente de qual o termo certo, ambos se referem a dois recursos naturais fortemente presentes em Oleiros.

O património natural da região é, assim, um dos seus maiores atributos, com locais aprazíveis em qualquer época do ano. Mas não só. Confira.

Uma vila onde a Natureza marca o passo

Do ponto de vista geológico, Oleiros insere-se numa região constituída essencialmente por xistos, que se destaca fortemente na paisagem, assim, como as cristas de quartzito espalhadas por aqui e por ali, conferindo uma certa dureza ao local.

Os rios, esses, correm por entre as rochas, indiferentes à aspereza das mesmas e provocando imponentes vales em garganta ou, quando a rocha ganha essa batalha, criando quedas de água de grande envergadura.

Um desses bonitos exemplos é a Ribeira de Oleiros, que “corre todo o ano por entre árvores que, debruçadas em muitos sítios sobre as águas, e movidas pelo vento, parecem querer beijá-la”. Esta ribeira tem alguns poços naturais, criados pela diferente profundidade do seu leito, e atrai muitas aves, pela frescura verdejante do local, que preenchem dia e noite com os seus melodiosos cânticos.

Na área do concelho, este cenário é mais visível nas serras de Alvelos, do Muradal e da Lontreira, que fazem parte do Maciço Central.

Outra presença frequente em Oleiros é o pinheiro, que é, atualmente, a principal árvore do concelho, sendo incalculável o seu valor económico visto ser de tão grande aplicação e consumo atualmente.

Passadiço do Orvalho em Oleiros

Património religioso e cultural de Oleiros

Também o património religioso tem grande destaque, como são exemplos disso a Igreja Matriz (século XVI e XVIII), a Igreja da Misericórdia datada do século XVI, ou a Capela de Nossa Senhora Mãe dos Homens (século XVIII), entre muitas outras espalhadas por Oleiros.

A nível histórico, são os muitos moinhos de água espalhados pelo concelho, exemplos representativos da importante cultura do milho na região. Mas não só: os moinhos constituem um marco distintivo da paisagem rural, criando ambientes de pura beleza.

Além disso, existem outros edifícios de elevado valor patrimonial e interesse artístico, que abrem portas, sempre que possível, aos costumes, festas e romarias, música, cantares populares e até cozinha tradicional.

Caminhadas em Oleiros

Os adeptos de caminhadas encontram em Oleiros um percurso bastante interessante para fazer: a Rota do Religioso, que se estende ao longo de 6,5 quilómetros, num percurso circular. Demorará cerca de 90 minutos e não precisa de ter grande aptidão física, porque é um percurso simples de prosseguir.

Possui este nome dada a quantidade de edifícios religiosos que se encontram ao longo do percurso: Capela do Espírito Santo, Capela de São Sebastião, Capela de Santa Margarida, Capela de Nossa Senhora das Candeias, Capela de Santo António, Igreja Matriz, Capela de Senhor dos Passos, Capela de Nossa Senhora de Guadalupe, Igreja da Misericórdia e Capela de Nossa Senhora Mãe dos Homens.

Além do património religioso, que tão bem prova a devoção das gentes locais às tradições seculares, o itinerário contempla ainda a passagem por locais pitorescos, onde se encontram algumas ermidas associadas às vivências religiosas de outros tempos.

Ainda que este seja o percurso mais famoso da região, existem muitos outros para percorrer:

  • GR33 – Grande Rota do Zêzere;
  • GR38 – Grande Rota Muradal Pangeia – Trilho Internacional dos Apalaches;
  • PR 1 – Nos Meandros do Zêzere – Álvaro;
  • PR 2 – Mui Nobre Villa – Álvaro;
  • PR 3 – Georota do Orvalho – Orvalho;
  • PR 4 – Trilho do Estreito – Estreito Vilar Barroco;
  • PR 5 – Trilho do Cabrito – Oleiros Amieira;
  • PR 6 – Trilho d’El Rei – Isna;
  • PR 7 – Trilho do Vale de Moses – Oleiros Amieira.

Geopark Naturtejo

Oleiros integra ainda o Geopark Naturtejo, que inclui ainda os concelhos de Castelo Branco, Idanha-a-Nova, Nisa, Penamacor, Proença-a-Nova e Vila Velha de Ródão. Trata-se de uma área de terra muito vasta e com muitas surpresas e encantos à espera dos visitantes.

É por lá que encontram os Passadiços do Orvalho, a nova estrela do concelho de Oleiros, inseridos no PR 3 e que permite deslumbrar uma série de geomonumentos classificados pela UNESCO, como a Cascata da Fraga de Água d´Alta e o Miradouro do Mosqueiro.

Os passadiços estendem-se por cerca de 9 quilómetros, sendo parte do percurso feita nas estruturas de madeira que já nos habituamos a ver, mas também pelo meio da Natureza.

Cabrito estonado

E a gastronomia também nos abre o apetite. Basta falar em especialidades como o cabrito estonado à moda de Oleiros, o coelho à caçador, a perdiz assada ou as trutas grelhadas para sentir já a água na boca.

Tudo isto, idealmente, deve ser acompanhado pelo Vinho Calum, um vinho branco de baixo teor alcoólico, cultivado na região, ao longo das margens da ribeira da Sertã.  

A refeição em Oleiros só fica completa com as típicas filhós e as tigeladas, doces típicos da região, que vão fazê-lo sentir-se no sétimo céu. Mas não ficamos por aqui. Também pode adoçar o paladar com bolo de mel, papas de milho e até as tradicionais cavacas.

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Viver no interior: Oleiros é o concelho mais atrativo

A conclusão é de um estudo da Deco Proteste, que aponta vários motivos para tal, como a habitação a preços controlados, apoios à habitação, à criação de emprego, à terceira idade, à natalidade e ao acesso ao ensino superior.

Incentivos criados que abrangem, aliás, muitos concelhos do interior de Portugal, mas que colocam Oleiros no pódio.

De acordo com a Deco “as grandes cidades do litoral concentram 70% da população, mas só podemos ser verdadeiramente sustentáveis se voltarmos ao interior e reequilibrarmos a balança”. Assim sendo, o estudo destaca aspetos que fixem população, como emprego, escolas, hospitais, uma boa rede de transportes, sem esquecer o acesso aos bens de primeira necessidade e a espaços lúdicos e culturais.

Oleiros é, então, o concelho mais atrativo para viver no interior devido às “distâncias mais curtas e bens e serviços à distância de uma caminhada, a qualidade de vida é maior. E a pegada ecológica é muito menor”.

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