Portugal vai receber um destino inteiramente dedicado ao futebol como desporto. O projeto chama-se Viva Mundo, fica em Santarém e tem inauguração marcada para semanas antes do Mundial 2030.
Portugal é, por norma, importador de grandes projetos de entretenimento. A Disneyland fica em Paris, os grandes resorts temáticos ficam em Orlando. Mas a partir de 2030, Santarém poderá mudar essa narrativa.
O Viva Mundo foi apresentado a 11 de junho de 2026 no Convento de São Francisco, em Santarém, com a presença da ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes. A inauguração está marcada para 29 de abril de 2030, semanas antes do arranque do Campeonato do Mundo de Futebol, que Portugal vai coorganizar com Espanha e Marrocos.
O que distingue este projeto de tudo o que existe
Há, até hoje, um único parque temático com proximidade conceptual ao Viva Mundo: o Real Madrid World, no Dubai, com 6 hectares e mais de 40 atrações, mas inteiramente dedicado a um clube. O projeto português aposta noutra lógica: o futebol como cultura, identidade e memória coletiva. É essa diferença que sustenta o estatuto de primeiro destino do mundo dedicado ao futebol enquanto desporto, e não a uma equipa.
O espaço vai ocupar cerca de 80 hectares, mais de 13 vezes a área do Real Madrid World, num terreno que pertencia à Paróquia de Marvila e foi cedido pela Diocese de Santarém. O núcleo do parque será o “Football World”, organizado em torno de um lago central e dividido em quatro zonas temáticas: Centre Circle, Passion, Glory e Fantasy. A isto junta-se uma zona de entretenimento com arena para 4.000 pessoas (concertos, espetáculos, eventos), uma Fan Zone imersiva, um museu, restauração e um hotel com 300 quartos. No total, são anunciadas 28 atrações.
Quem está por trás do projeto
O Viva Mundo é desenvolvido por uma joint venture entre uma empresa de capitais britânicos e o grupo JFA, português. Os principais promotores identificados são José Ferraz e o britânico Munir Samji. A liderança operacional está a cargo de Carlos Carreiras, ex-presidente da Câmara Municipal de Cascais, que já tinha experiência na região: liderou há mais de duas décadas a construção da fábrica de cerveja Cintra, situada perto do terreno onde agora vai nascer o parque.
Emprego e visitantes: o que os números prometem
Os promotores apontam para 800 a 1.000 postos de trabalho diretos. Se o número se confirmar, o Viva Mundo torna-se um dos maiores empregadores privados do distrito de Santarém.
A previsão de visitantes é faseada: um milhão no ano de arranque, subindo para 1,5 milhões anuais nos anos seguintes. Para referência, o Aquashow, em Quarteira, recebe cerca de 500 mil visitantes por temporada; o Jardim Zoológico de Lisboa ultrapassa o milhão por ano. Um patamar de 1,5 milhões é ambicioso, mas não fora do alcance para um equipamento com esta escala e exposição internacional, sobretudo num ano de Mundial.
A localização: cálculo estratégico, com lacunas a resolver
A escolha de Santarém não foi ao acaso. O autarca João Teixeira Leite justificou-a com a localização geográfica, as acessibilidades e a proximidade ao futuro aeroporto internacional. Em termos concretos: Santarém fica a cerca de 60 km de Lisboa, com acesso pela A1, A15 e Linha do Norte.
Mas o próprio presidente da Câmara reconheceu que há trabalho a fazer. Apontou como prioridade o desenvolvimento de um novo nó intermodal junto ao CNEMA, para reforçar a ligação ferroviária e rodoviária, incluindo a integração de soluções de mobilidade inovadoras como um vertiporto. Defendeu ainda a necessidade de reforço do investimento público em infraestruturas como a A13 e melhorias na rede ferroviária.
O calendário: a variável mais arriscada de todo o projeto
Aqui está o dado mais relevante para quem analisa a viabilidade do projeto, pois, os primeiros compromissos de aquisição de serviços e equipamentos deverão arrancar já em setembro de 2026. A fase de adjudicações e licenciamento deve decorrer até final de 2026, com as primeiras obras no terreno previstas para o 1.º trimestre de 2027.
Isto deixa pouco mais de três anos entre o início efetivo da construção e a data de abertura anunciada. Para um empreendimento de 80 hectares com arena, hotel de 300 quartos e 28 atrações, a margem de manobra é estreita. Um atraso de seis meses a um ano — algo comum em projetos desta escala em Portugal, como mostram os exemplos do Terminal de Cruzeiros de Lisboa ou de sucessivas revisões de prazo no Metro do Porto — colocaria a inauguração depois, ou muito perto, do início do Mundial, fazendo o parque perder a janela de visibilidade mais valiosa da sua história.
O que isto significa para o Ribatejo
O Ribatejo não é, hoje, destino de turismo internacional de massas. Santarém vive sobretudo de turismo interno, gastronomia e tradição campina. Um equipamento desta dimensão pode funcionar como âncora de desenvolvimento regional, atraindo investimento hoteleiro complementar, restauração, transportes privados e comércio local.
Mas há também pressão a antecipar: o mercado de trabalho qualificado em hotelaria, gestão de eventos e entretenimento é limitado na região, e parte dos novos postos de trabalho poderá acabar preenchida por profissionais vindos de Lisboa ou do Porto, o que dilui o impacto local direto sobre o desemprego estrutural do distrito.
O Viva Mundo é, neste momento, um projeto com calendário definido e apoio institucional reforçado pelo estatuto PIN. Falta a fase mais difícil: transformar adjudicações, licenças e betão em algo que esteja pronto a tempo. É aí, literalmente no terreno, que se vai perceber se Portugal ganhou o jogo antes do apito final.