Cada 1º de maio, trabalhadores de todo o mundo saem à rua, hasteiam bandeiras e ouvem discursos sobre direitos laborais. Em Portugal, é feriado nacional. No Brasil, também. Em França, Alemanha, Itália, o mesmo.
Mas o que une estas celebrações é uma história que poucos conhecem na sua totalidade. A história do Dia Internacional do Trabalhador, que não nasceu de uma lei benevolente nem de um decreto governamental. Nasceu de uma tragédia.
Para entender o 1º de maio, há que recuar à América do final do século XIX. A revolução industrial transformara radicalmente o mundo do trabalho, mas as condições em que os operários viviam eram, para os padrões de hoje, chocantes.
Jornadas de 12, 14 e até 16 horas por dia eram comuns. Crianças trabalhavam em fábricas. Os acidentes de trabalho eram frequentes e raramente indemnizados. Não havia fins de semana garantidos, nem férias pagas, nem qualquer rede de segurança social.
Neste contexto, um movimento crescia nos Estados Unidos com a reivindicação, que parecia revolucionária, de oito horas de trabalho, oito horas de descanso, oito horas de lazer.
O slogan “Eight hours for work, eight hours for rest, eight hours for what we will” ecoava nas fábricas de Chicago a Boston.
Chicago, 1886: a greve na génese do 1º de maio
A Federação Americana do Trabalho escolheu o dia 1 de maio de 1886 como data-limite para a implementação da jornada de oito horas. Se os empregadores não cedessem, haveria greve geral.
Nesse dia, cerca de 300.000 trabalhadores em todo o país abandonaram os seus postos. Só em Chicago, 40.000 pessoas pararam.
Durante dias, a tensão foi aumentando. A 3 de maio, num confronto à porta da fábrica McCormick Harvesting Machine (um símbolo do capitalismo industrial da época), a polícia abriu fogo sobre os grevistas.
Morreram pelo menos dois trabalhadores. O ambiente estava inflamado.
Bomba de Haymarket: momento marcante
No dia seguinte, 4 de maio de 1886, foi convocado um comício no largo de Haymarket, em Chicago, para protestar contra a violência policial.
O início foi calmo e cerca de 3.000 pessoas ouviram discursos pacíficos. A chuva foi dispersando os manifestantes. Quando restavam apenas algumas centenas, a polícia avançou para dissolver o que sobrava da multidão.
Foi então que alguém, nunca identificado com certeza, atirou uma bomba para o meio das fileiras policiais. A explosão e os tiros subsequentes mataram sete polícias e pelo menos quatro civis. Dezenas ficaram feridos.
O que se seguiu foi um dos julgamentos mais controversos da história americana. Oito líderes anarquistas foram detidos, mesmo sem provas directas de terem lançado a bomba. Sete foram condenados à morte; um, a prisão perpétua.
Quatro foram enforcados a 11 de novembro de 1887. Um suicidou-se na prisão. Os restantes acabaram por ser ilibados anos mais tarde pelo governador do Illinois, que reconheceu que o julgamento fora uma farsa.
Como o 1º de maio se tornou um símbolo mundial

Em julho de 1889, socialistas e trabalhadores de vários países reuniram-se em Paris para fundar a Segunda Internacional.
Uma das primeiras decisões foi proclamar o 1º de maio como Dia Internacional dos Trabalhadores, em memória do que acontecera em Chicago. A data não era escolhida ao acaso.
Era a declaração política de que os trabalhadores do mundo tinham de se unir e de não esquecer os seus mártires.
A partir de 1890, o 1º de maio tornou-se um ritual anual em toda a Europa. Em muitos países, a data foi progressivamente reconhecida como feriado oficial, embora esse processo tenha demorado décadas e enfrentado resistências políticas significativas.
Ironicamente, nos próprios Estados Unidos, onde tudo começou, o Dia do Trabalhador é celebrado não a 1 de maio, mas na primeira segunda-feira de setembro.
A mudança foi intencional, já que o governo americano quis dissociar a data dos eventos de Haymarket e do movimento socialista que lhes esteve associado.
O 1º de Maio em Portugal: de tabu a conquista
Em Portugal, durante o Estado Novo, qualquer celebração do 1º de maio era proibida. A data era associada ao comunismo e ao socialismo, inimigos declarados do regime. Quem se atrevesse a comemorar arriscava prisão.
Tudo mudou com o 25 de Abril de 1974. Menos de uma semana após a Revolução dos Cravos, o 1 de maio de 1974 foi vivido com uma euforia sem precedentes.
Calcula-se que cerca de um milhão de pessoas tenham saído à rua em Lisboa, uma cidade de pouco mais de 700.000 habitantes à altura. Foi uma das maiores manifestações da história do país.
O que a data representa hoje

Mais de 130 anos depois de Haymarket, o Dia Internacional do Trabalhador continua a ser uma data relevante, talvez mais do que nunca.
A precariedade laboral, os contratos a prazo, os salários que não acompanham o custo de vida, a gig economy e o trabalho por plataformas colocam novos desafios a direitos que se julgavam conquistados.
A jornada de oito horas, que os operários de Chicago morreram a reclamar, está hoje ameaçada por formas de trabalho que diluem as fronteiras entre o tempo laboral e o tempo pessoal.
O 1º de maio serve, assim, não apenas para recordar o passado, mas para questionar o presente.