Miguel Pinto
Miguel Pinto
12 Mai, 2026 - 14:00

Arzila: viagem às muralhas que Portugal deixou em Marrocos

Miguel Pinto

Arzila é conhecida como a Pérola do Atlântico e tem uma forte marca portuguesa. Conheça esta cidade de Marrocos e parta à descoberta.

arzila em marrocos

Arzila (ou Asilah, em árabe) é uma das cidades mais fascinantes do norte de Marrocos e, curiosamente, uma das menos faladas entre os viajantes portugueses. Com muralhas erguidas por mãos lusas, ruas caiadas de branco e azul e um Festival de Artes que transforma a medina num museu ao ar livre, esta pequena cidade costeira merece muito mais do que uma visita de passagem.

Arzila situa-se na costa atlântica marroquina, a cerca de 46 quilómetros a sul de Tânger, numa planície baixa que se abre directamente para o mar. Para os viajantes portugueses, tem um significado particular. Foi colónia portuguesa entre 1471 e 1550, e novamente entre 1577 e 1589.

As muralhas que ainda abraçam a medina foram construídas pelos nossos antepassados no século XV, e parte da identidade visual da cidade, as casas brancas, os azulejos, a estrutura da fortaleza, reflecte essa herança partilhada.

Arzila: de fenícios a portugueses

A história de Arzila começa muito antes da chegada dos lusitanos. A zona costeira foi frequentada por Fenícios e Gregos na Antiguidade, e mais tarde integrou o Império Romano como Colónia Augusta Júlia Constância Zilil.

Após a conquista árabe em 712, tornou-se um importante centro comercial, ponto de encontro entre mercadores genoveses, catalães e castelhanos. Em 1471, D. Afonso V conquistou a cidade com uma poderosa armada. O episódio ficou eternizado nas famosas Tapeçarias de Pastrana, hoje consideradas obras-primas da arte têxtil europeia.

Durante a ocupação portuguesa, Arzila foi reforçada pelo arquitecto Diogo Boitaca que redesenhou as muralhas e a alcáçova, combinando elementos medievais com inovações defensivas renascentistas. No início do século XVI, a cidade tornou-se um entreposto estratégico na rota do ouro saariano. Em 1520, D. Manuel I criou a Feitoria de Arzila, elevando ainda mais o seu estatuto comercial.

A praça foi abandonada em 1550, numa decisão estratégica de D. João III de concentrar recursos noutros territórios. Regressaria às mãos portuguesas brevemente em 1577, no contexto da aventura marroquina de D. Sebastião que culminou no desastre de Alcácer-Quibir. Em 1691, Mulei Ismail retomou definitivamente o controlo para Marrocos.

O que visitar em Arzila

vista do mar em arzila

Arzila não é apenas uma viagem a Marrocos. Para um português, é também uma viagem à história do seu próprio país, a um capítulo menos conhecido, mas igualmente fascinante, da expansão portuguesa em África.

A Medina e as muralhas portuguesas

O coração de Arzila é a sua medina, sem dúvida uma das mais bem conservadas do norte de Marrocos. Ao contrário do que acontece noutras cidades, aqui não se encontram edifícios degradados nem ruas abandonadas.

As muralhas portuguesas que a envolvem estão em excelentes condições e podem ser percorridas em grande parte. Viradas para o mar, foram concebidas para proteger a cidade de ataques vindos por via marítima.

Há dois pontões a sair das muralhas. O do sul está acessível ao público e oferece uma perspectiva magnífica sobre o oceano e as torres defensivas.

A entrada na medina faz-se por duas portas principais, Bab el-Kasaba e Bab el-Homar. Nesta última, com um pouco de atenção, ainda é possível distinguir o escudo de armas do Reino de Portugal.

A Torre El Hamra e a Porta do Mar

Construída pelos portugueses no século XV como parte do sistema defensivo da cidade, a Torre El Hamra (também conhecida como Borj al-Kamra) encontra-se relativamente bem conservada e é um dos elementos mais fotogénicos da cidade.

Fica perto da Bab el-Bahar, a Porta do Mar, que marca a transição entre a medina e o oceano Atlântico.

Palácio da Cultura (Palácio Er-Raissouli)

Construído em 1909 por Er-Raissouli, uma figura histórica notória que começou a carreira nas montanhas do Rif e se especializou no rapto de ocidentais, este palácio tornou-se o principal espaço cultural da cidade.

Alberga hoje exposições de arte e eventos do Festival de Artes, e a sua arquitectura é uma fusão curiosa de influências marroquinas e europeias.

A Igreja de São Bartolomeu

No centro da ville nouvelle, a parte moderna da cidade, a Igreja de São Bartolomeu foi construída pelos franciscanos espanhóis em 1925. É uma das poucas igrejas em Marrocos com autorização para repicar sinos aos domingos.

O estilo hispano-mourisco da fachada é um registo singular da longa presença ibérica nesta região. Habitualmente está fechada, mas as freiras residentes costumam oferecer uma pequena visita guiada a quem pede.

rua de arzila

A arte de rua da Medina

Uma das coisas que distingue Arzila de outras cidades marroquinas é a quantidade de murais e pinturas que adornam as paredes da medina. Ao dobrar cada esquina, há uma surpresa, seja um fresco colorido, um painel abstracto ou uma composição geométrica.

Esta tradição foi intensificada pelo Festival de Artes, que desde 1978 convida artistas de todo o mundo a deixar a sua marca nas paredes da cidade. Realiza-se no mês de agosto.

Praia de Arzila e arredores

A praia começa mesmo onde a muralha termina, uma continuidade quase simbólica entre história e natureza. As águas são pouco profundas, o que torna esta praia ideal para famílias com crianças.

Para quem prefere mais sossego, a Praia do Paraíso, a cerca de 7 km a sul, é uma opção excelente, mais isolada, com uma pequena estrutura de apoio e espreguiçadeiras para alugar.

Há ainda a Praia de Sidi Mugait (15 km), de carácter mais selvagem e oceânico, e a Praia de Afriquia (3 km), de fácil acesso e com algumas infra-estruturas balneares.

Como chegar a Arzila

templo em arzila

Arzila não tem aeroporto próprio. O Aeroporto de Tânger Ibn Battouta é o ponto de entrada mais próximo, com voos diretos de Lisboa e Porto em várias épocas do ano. De Tânger, há várias formas de chegar a Arzila:

De comboio – A opção mais prática e com melhor relação qualidade-preço. A viagem demora cerca de 40 minutos e há várias partidas diárias. Os bilhetes custam aproximadamente 17 dirhans e podem ser comprados online no site da ONCF (empresa ferroviária marroquina).

De autocarro ou táxi colectivo – Há ligações regulares a partir de Tânger e de outras cidades como Fez, Meknès, Rabat e Casablanca.

De carro alugado – A opção mais flexível, especialmente para explorar as praias dos arredores. A estrada de Tânger a Arzila é simples e bem sinalizada.

De barco e terra – É possível chegar a Tânger de ferry a partir de Tarifa (Espanha), numa travessia de cerca de uma hora. A partir de Tânger, segue-se para Arzila por comboio ou autocarro.

O que comer em Arzila

A gastronomia de Arzila reflete a sua história multicultural. Além dos pratos marroquinos clássicos (tajines, cuscuz, harira), a presença espanhola deixou marcas na ementa local.

Não é difícil encontrar tortillas e paellas nos restaurantes da cidade. Ouvir expressões em castelhano nas conversas do dia-a-dia também não é raro. Para uma experiência local autêntica, procure as pequenas padarias familiares da medina. O pão fresco de manhã é uma memória que fica.

O hammam público é outra experiência não gastronómica mas igualmente essencial. Faz parte da vida social dos habitantes e representa uma forma genuína de mergulhar na cultura local.

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Dicas práticas

Moeda: Dirham marroquino (MAD). Não é convertível fora de Marrocos, por isso troque apenas o que prevê gastar. Há caixas multibanco em Arzila.

Língua: O árabe e o berbere são as línguas oficiais. O francês é amplamente falado. O espanhol é compreendido por muitos habitantes, dada a história da cidade. O português ajuda em situações pontuais, especialmente com marroquinos que conhecem a história da presença lusitana.

Segurança: Arzila é considerada uma das cidades mais seguras e tranquilas do norte de Marrocos. A medina não tem trânsito automóvel e é fácil de percorrer.

Respeito cultural: Como em qualquer cidade muçulmana, é recomendável vestir com moderação, especialmente na medina. Cobrir os ombros e os joelhos é uma forma de respeito que os habitantes apreciam.

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