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Miguel Pinto
Miguel Pinto
29 Jan, 2021 - 14:09

D. Manuel I: o rei que amou duas irmãs e… a noiva do filho

Miguel Pinto

A diplomacia através do casamento, foi uma arte que o rei D. Manuel I dominou na perfeição. Para isso, desposou duas irmãs e até a noiva do filho.

Casamento de D. Manuel e D. Leonor

É um dos mais extraordinários reis portugueses, tendo passado à história com o cognome de O Venturoso. D. Manuel I foi uma das figuras centrais da gesta dos Descobrimentos portugueses, um diplomata nato, que liderou os destinos do então Reino de Portugal, transformando-o naquilo que os especialistas consideram como o verdadeiro primeiro império global.

Foi durante o seu reinado que Vasco da Gama descobriu o caminho marítimo para a Índia, que Pedro Álvares Cabral chegou pela primeira vez ao Brasil e que Portugal dominou as Molucas, as ambicionadas ilhas das especiarias. Determinante na expansão do império português, assistiu a um período de enorme prosperidade económica, realizando algumas obras notáveis num estilo arquitetónico que tomou o seu nome, Manuelino.

No entanto, D. Manuel I foi também um rei de muitos amores, que embora profundos, e de onde saiu uma vasta prole, têm pontos de ligação um tanto ou quanto insólitos. Mas no século XVI não era de admirar.

D. Manuel I e Isabel de Aragão

Isabel de Castela
Isabel de Castela viu duas filhas casarem com D. Manuel I

Profundamente religioso, D. Manuel I aproveitou o fluxo de riquezas que na altura aportavam a Portugal para construir diversas igrejas e conventos. Uma das obras mais marcantes, foi o lançamento do Mosteiro dos Jerónimos, um projecto que apenas ficaria concluído um século depois. Enquanto rei de um dos mais poderosos impérios da altura, chegou a altura de casar e assegurar descendência que deixasse Portugal longe dos olhos ávidos de Castela.

Por isso, foi mesmo aqui ao lado que encontrou a sua noiva, mais precisamente Isabel de Aragão, a herdeira do trono castelhano. No início avessa ao enlace, Isabel de Aragão exigiu no contrato de casamento, assinado a 30 de novembro de 1496, a expulsão de todos os infiéis (mouros e judeus) do Reino de Portugal.

Apesar de reticente, D. Manuel I acaba por concordar, não sem antes arrastar os pés para permitir a conversão desses infiéis ao cristianismo. Foi uma página negra da história de Portugal e a conversão forçada redundou numa tragédia e milhares de judeus correram a fugir do país.

Viúva em Portugal

A renitência de Isabel de Aragão ao casamento advinha do facto de já ter sido casada com D. Afonso, filho de D. João II e herdeiro do trono de Portugal, morto em circunstâncias nunca muito bem esclarecidas. Mas como os casamentos medievais eram complicadas tramas diplomáticas, acabou por voltar a casar, agora com D. Manuel I, primeiro direito do seu sogro e agora suserano português. Confuso? Na época era normal.

Não obstante a paixão que o rei português nutria por Isabel, o matrimónio foi de curta duração, uma vez que a rainha morreu ao dar a luz o seu primeiro filho, Miguel da Paz. Este infante, que acabaria por também morrer com a tenra idade de 23 meses, era o legítimo herdeiro dos tronos de Portugal, Castela, Leão, Sicília e Aragão. Assim, seria uma união ibérica e mais além.

D. Manuel I e Maria de Aragão

Por mais que D. Manuel I se sentisse abatido com a morte de Isabel, sabia bem que com a morte do filho, Miguel da Paz, Portugal continuava sem um herdeiro legítimo ao trono. Era preciso voltar a casar. A noiva acabou por ser Maria de Aragão, nada mais, nada menos, que a irmã da sua defunta mulher.

Rainha de Portugal entre 1500 e 1517, Maria de Aragão deu a D. Manuel I dez filhos, entre eles o futuro rei D. João III. Era ainda o início de uma profunda ligação entre os dois reinos e que acabaria por descambar na crise de 1580, quando após a morte de D. Sebastião, os castelhanos de apoderaram do trono português (a dinastia filipina), só o abandonando com a revolução de 1 de dezembro de 1640.

Fruto dos partos sucessivos, Maria acabaria por falecer a 7 de março de 1517, com apenas 34 anos. D. Manuel I ficou mortificado (Maria seria para sempre o seu grande amor, acabando ambos sepultados nos Jerónimos), mas no ano seguinte acabaria por contrair matrimónio pela terceira vez. E, de novo, não sem polémica.

Mosteiro dos Jerónimos
D. Manuel I está sepultado nos Jerónimos, um dos mais notáveis exemplos do estilo manuelino

D. Manuel I e Leonor da Áustria

Uma das ambições de D. Manuel I (há quem sustente que era mais uma obsessão) passava por conseguir tornar-se senhor de toda a Península Ibérica. Para isso, era necessário tecer uma trama diplomática complexa, mas em que os casamentos assumiam papel central. Viúvo, D. Manuel escolheu para casar Leonor da Áustria.

No entanto, havia um ligeiro problema: Leonor era a noiva prometida ao príncipe herdeiro português, filho de D. Manuel I. Mas como o poder real era absoluto, o rei acabou mesmo por casar com aquela que esteve para ser a sua… nora. O filho, o futuro D. João III, nunca iria perdoar ao pai tamanha afronta. O casamento teve lugar em 1518 e Leonor deu ao rei de Portugal mais dois filhos, Carlos e Maria de Portugal, esta última uma das mais fascinantes mulheres da realeza europeia do século XVI.

D. Manuel I morreria a 13 de dezembro de 1521, com 52 anos, deixando um vasto império e a marca de um dos mais fascinantes reinados da história portuguesa.

Fonte

As mulheres de D. Manuel I, María Pilar Queralt del Hierro, Esfera dos Livros, 2010

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