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Miguel Pinto
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24 Set, 2020 - 18:24

Hino Nacional faz 130 anos: sabe a letra toda de A Portuguesa?

Miguel Pinto

Em 1890 os ingleses deram-nos um ultimato e nós respondemos com uma música que se viria a tornar hino nacional. Toda a história de A Portuguesa.

Acção do rei D. Carlos inspirou o hino nacional

O hino nacional português assinala em 2020 o seu 130º aniversário. Composto em 1890 como resposta patriótica, e indignada, contra o ultimato inglês, ‘A Portuguesa’ acabaria por se tornar no hino oficial do país em 1911. Ou seja, pouco tempo depois da instauração da República na sequência da revolução que a 5 de outubro de 1910 acabaria por depor o último rei de Portugal, D. Manuel II.

Com letra de Henrique Lopes Mendonça e música de Alfredo Keil, o hino nacional português foi não só um tema de resistência patriótica contra a prepotência britânica, mas também um símbolo republicano, uma ideia de governo que alastrava de forma clara na sociedade portuguesa nos finais do século XIX.

A 31 de janeiro de 1891, um golpe de estado falhado, com epicentro no Porto, e que tinha por objectivo a deposição da monarquia, já tinha este tema musical como hino dos revoltosos.

hino nacional: canhões ou bretões?

Muito embora os historiadores tendam a divergir, consta que a letra do hino nacional português nem sempre terá sido “contra os canhões marchar, marchar”. Como resposta ao infame ultimato inglês, a letra seria “contra os bretões, marchar, marchar”, uma linguagem claramente bélica e de confrontação contra os súbditos de Sua Majestade, na altura a Rainha Vitória.

No entanto, há quem defenda também que a versão original sempre fez referência aos canhões e que o termo bretões terá sido introduzido posteriormente, no calor da refrega política.

A verdade é que ‘A Portuguesa’ acabaria por ser mesmo adoptado como hino nacional, substituindo o ‘Hymno da Carta’, que subsistia desde maio de 1834, e que foi escrito na altura por nada mais, nada menos, do que o próprio rei D. Pedro IV.

No entanto, ao longo dos anos foram circulando diversas versões, não só na linha melódica, pelo que foi criada, em 1956, uma comissão encarregada de fixar uma versão final. A proposta que esta comissão elaborou foi aprovada em 1957 e, desde então, o hino nacional é tal qual o conhecemos hoje.

Jovem com a bandeira portuguesa

Ingleses furiosos

Mas o que terá revoltado tanto a nação portuguesa, que até um hino foi composto para exaltar o patriotismo e chamar o povo às armas? Basicamente foi o ultimato que o governo britânico, então dirigido por Salisbury, entregou em 1890, exigindo de Portugal a retirada das suas forças militares, então chefiadas por Serpa Pinto, do território de ligação entre Angola e Moçambique.

Esses territórios, os atuais Zimbabué e Zâmbia, faziam parte do célebre ‘Mapa Cor-de-Rosa’, um documento apresentado pelo reino de Portugal na Conferência de Berlim e onde eram reclamados como parte do império ultramarino português.

Esta conferência de Berlim, realizada entre novembro de 1884 e fevereiro de 1885, tinha como lamentável objectivo a divisão territorial do continente africano entre as potências colonizadoras europeias. Como é óbvio, cada um dos países puxava pelos seus interesses, tendo apenas em vista potenciar a relação económica que mantinha com África e que alimentava parte substancial dos cofres estatais, e não só, Europa fora.

Interesses comerciais

Os ingleses não gostaram nem um bocadinho da posição portuguesa, baseada no alegado direito histórico do nosso país sobre aqueles territórios. A verdade é que a influência e hegemonia portuguesa em África estava a ser seriamente ameaçada pela crescente presença de ingleses, franceses e alemães no continente, atraídos pelo cada vez mais interessante potencial comercial que todo o continente representava.

Contudo, a principal razão que levou os ingleses a abespinharem-se com a proposta portuguesa foi o facto de que ela conflituava de forma irreversível com o megalómano projecto da Companhia Britânica da África do Sul de construir uma ferrovia que atravessasse todo o continente, ligando o Cairo, no Egipto, à Cidade do Cabo. Daí o ultimato para que as forças portuguesas abandonassem os territórios em causa. Começou então a resistência e até surgiu o hino nacional.

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hino nacional: cedência e revolta

O rei D. Carlos acabaria por ceder em a toda linha aos britânicos, originando uma revolta popular que a corrente republicana tratou de capitalizar o mais possível. Acto contínuo, o governo caiu de imediato, sendo substituído por um executivo liderado por António de Serpa Pimentel.

Em África, o explorador Silva Porto falha as negociações com os locais e imolava-se pelo fogo, envolto na bandeira nacional, suicídio atribuído ao desgosto pelo ultimato inglês. No verão de 1890, o Tratado de Londres consumava a humilhação portuguesa e definia as fronteiras de Angola e Moçambique.

O hino nacional ‘A Portuguesa’ é uma das muitas reações contra o ultimato inglês, mas existiram muitas outras, umas mais poéticas, outras mais práticas, outras ainda de cariz algo violento. A verdade é que a realidade política nacional nunca mais seria a mesma, o que levaria ao regicídio, em 1908, e à instauração definitiva da República, a 5 de outubro de 1910.

Jovens a cantar o hino

Já agora, aqui fica a versão completa da letra do hino nacional, de Henrique Lopes de Mendonça, que quase ninguém conhece:

I
Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente, imortal,
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Entre as brumas da memória,
Ó Pátria, sente-se a voz
Dos teus egrégios avós,
Que há-de guiar-te à vitória!

Refrão

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar!
Contra os canhões
marchar, marchar!

II
Desfralda a invicta bandeira
À luz viva do teu céu!
Brade a Europa à terra inteira:
Portugal não pereceu!
Beija o solo teu jucundo
O oceano, a rugir d’amor,
E o teu braço vencedor
Deu novos mundos ao Mundo!

Às armas, às armas!
Sobre a terra e sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar!
Contra os canhões
marchar, marchar!

III
Saudai o Sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco de uma afronta
O sinal de ressurgir.
Raios dessa aurora forte
São como beijos de mãe,
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra as injúrias da sorte.

Às armas, às armas!
Sobre a terra e sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar!
Contra os canhões
marchar, marchar!

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