Covid-19
Especial Covid-19
Descomplicamos a informação sobre o novo Coronavírus
Miguel Pinto
Miguel Pinto
09 Out, 2020 - 15:41

1940: quando Franco planeou a invasão espanhola a Portugal

Miguel Pinto

Em plena II Grande Guerra, o ditador Francisco Franco estudou a invasão espanhola a Portugal. O plano foi traçado, mas acabou por não avançar.

Franco estudou a invasão espanhola a portugal

Em 1940 a Europa já estava a ferro e fogo, mergulhada numa devastadora guerra. Portugal e Espanha assumiam uma aparente neutralidade, mais no interesse de poupar a Península Ibérica à destruição e de assegurar a manutenção dos regimes vigentes. É que Salazar e Franco tinham claras simpatias no conflito, no caso germânicas, mas, cautelosamente, mantiveram-se ao largo. Só que nada disso impediu o projeto de uma invasão espanhola a Portugal.

Francisco Franco, o caudilho de Espanha, delineou, em conjunto com alguns dos seus generais de confiança, um minucioso plano que previa a invasão e anexação de Portugal no caso de a Espanha entrar na II Grande Guerra Mundial. Como é óbvio, olhando em retrospectiva, a hipotética entrada de Espanha na guerra seria sempre alinhando-se com a Alemanha nazi.

E isso esteve quase a acontecer, muito por causa da obsessão que Franco tinha por conseguir um império colonial espanhol no norte de África, percebendo então que o apoio germânico seria meio caminho andado. É aí que entra o plano da invasão espanhola a Portugal.

Invasão Espanhola: o detalhado plano de Franco

Mapa da Península Ibérica
O plano espanhol previa um ataque rápido e em força

Desde já um ponto prévio: Portugal, em termos estratégicos, pouco interessava a Franco. A invasão espanhola seria apenas uma consequência natural da putativa entrada do país na guerra ao lado do países do Eixo (Alemanha e Itália).

Aliás, a Alemanha há muito pressionava o Generalíssimo para que tomasse uma opção, pretendendo invadir Gibraltar (na mão dos ingleses) e controlar a passagem entre o Atlântico e o Mediterrâneo. A contrapartida seria a entrega dos territórios franceses do Norte de Africa a Franco e, assim, dar forma ao seu venerado império.

Mas ao invadir o rochedo de Gibraltar, Franco sabia que os ingleses iriam retaliar, muito possivelmente com a invasão das Canárias, e que Portugal seria a base britânica para os ataques. Portanto, o nosso país seria alvo de uma invasão espanhola apenas para proteger um dos flancos espanhóis contra as forças dos Aliados, em especial os ingleses.

Perigo inglês

É que por Portugal podia muito bem iniciar-se uma invasão em grande escala da Península Ibérica. Daí terem os altos comandos espanhóis preparado um pormenorizado plano para a invasão espanhola a Portugal. Esta ideia é detalhada no livro A Grande Tentação, de Manuel Ros Agudo, a partir de um documento de 120 páginas encontrado em 2005 nos arquivos da Fundação Francisco Franco.

Por isso, mesmo tendo em conta que Portugal e Espanha tinham assinado, em 1939, um Pacto de Amizade e Não-Agressão, e que Salazar tinha sido providencial no apoio a Franco durante a devastadora Guerra Civil Espanhola, o regime espanhol simpatizava com a ideia, defendida pelos ultras do regime, de um desfile triunfal até Lisboa. E o plano em causa torna claro que ocupar Portugal não seria um exercício militar de grande complexidade. Pelo menos no papel, porque mais de uma vez os espanhóis chegaram cá em superioridade e foram corridos.

Costa marítima em sagres
Dominar a extensa costa portuguesa era fundamental para Franco

Nem bom vento…

No entanto, o plano fez-se mesmo e foi entregue a Franco nos finais de 1940. A ideia passava, como de costume, por lançar um ultimato a Portugal, com condições que seriam impossíveis de cumprir e, após um espaço de tempo curto, começaria a invasão espanhola.

Segundo o documento, citado pelo autor de A Grande Tentação, “a delicada situação de Portugal em relação a um conflito internacional em que intervenha a Inglaterra, a escassa potencialidade do país vizinho e, sobretudo, o atrativo das suas costas, pode conduzir a Inglaterra a tentar ocupar as bases navais deste território”. Logo a seguir a este preâmbulo, Franco escrevia “decidi preparar a invasão de Portugal, com o objetivo de ocupar Lisboa e o resto da costa portuguesa”.

Assim estava em curso a invasão espanhola do território português, que seria sempre um efeito colateral da previsível guerra entre Espanha e Inglaterra. Franco previa ocupar rapidamente o nosso país, mediante uma primeira ação de surpresa, seguida de uma ação de força. Uma vez Portugal ocupado, seria tempo de preparar a resposta britânica, reforçando a defesa da frente atlântica.

Para o ataque, seriam destinadas dez divisões de infantaria e uma de cavalaria, quatro regimentos de tanques, oito grupos de exploração de cavalaria oito regimentos mistos de infantaria. Isto levaria a um total de 250 mil homens às portas da fronteira portuguesa, ou seja, cerca do dobro dos efetivos de que Portugal dispunha. A ideia passava por manter sempre uma clara superioridade em meios e homens, sendo que a invasão espanhola seria levada a cabo através dos exércitos que atuariam a norte e sul do rio Tejo.

Invasão espanhola: a rota dos exércitos

Desta forma, o primeiro exército avançaria por Ciudad Rodrigo, levando à frente Guarda, Celorico da Beira, Coimbra e depois Lisboa. Já o segundo exército seguia a linha de Elvas, Évora e Setúbal. Um dos objetivos era tomar rapidamente a capital portuguesa, dividindo o país em três, o que facilitava a conquista.

A aviação espanhola entraria em cena com cinco grupos de bombardeiros, caças e grupos de assalto, tudo dividido em dois blocos operacionais para atuar no apoio ao exército invasor.

Como é óbvio, não seria fácil a Franco levar a cabo tal empreitada sozinho. Confiava, por isso, que as forças do Eixo, em especial a Alemanha, fornecessem um reforço considerável de meios, designadamente em termos de bombardeiros, para evitar surpresas de uma eventual superioridade luso-inglesa no ar. Era atacar e em força, no menor espaço de tempo possível, eliminando qualquer hipótese de reação portuguesa.

Padeira de Aljubarrota
A lendária Padeira de Aljubarrota a desancar os castelhanos

O plano da invasão espanhola acabou por não se concretizar, ficando escondido nos arquivos da Fundação Francisco Franco durante 67 anos, e nenhum dos países ibéricos entrou na II Grande Guerra Mundial. Portanto, nunca sabe o que poderia ter acontecido.

Seria a invasão só durante o período de guerra? Ou seria o ponto de partida para a muito desejada união ibérica, com a Espanha a absorver Portugal, um pouco como tinha acontecido durante o domínio Filipino e que terminou na restauração de 1 de dezembro de 1640? Nunca o saberemos e ainda bem.

Ambição espanhola

No entanto, o ministro Serrano Súñer, um dos indefectíveis de Franco, manteve conversas com Joachim von Ribbentrop, ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha nazi, em que mostrava a ambição hegemónica de Espanha na Península Ibérica.

“Olhando para o mapa da Europa, e geograficamente falando, Portugal, na realidade, não tinha razão de existir. Tinha apenas uma justificação moral e política para a sua independência pelo facto dos seus quase 800 anos de existência”, dizia Súñer a Ribbentrop, sendo que também a Alemanha tinha um plano para invadir Portugal, denominado Operação Isabella.

Podia tentar, mas as hipóteses de sucesso de uma invasão espanhola não eram famosas. Afinal, de cada vez que tentaram apagar a fronteira entre Espanha e Portugal, entrando com tropas no nosso país, foram sempre vencidos, de todas as formas e feitios. Até uma padeira lhes arreou sem dó nem piedade.

Fonte consultada

A Grande Tentação – Os Planos de Franco para Invadir Portugal; Manuel Ros Agudo; Editora Casa das Letras

Veja também