Miguel Pinto
Miguel Pinto
31 Ago, 2026 - 11:00

Atestados médicos deixam os centros de saúde: o que muda com os novos CAMP

Miguel Pinto

Os atestados médicos vão deixar de depender das Unidades Locais de Saúde, passando para uma entidade paralela. Saiba tudo.

atestados médicos

Uma nova portaria publicada em Diário da República veio mudar a forma como Portugal emite os atestados de robustez física e psíquica. A partir de agora, as Unidades Locais de Saúde (ULS) passam a poder criar Centros de Avaliação Médica e Psicológica (CAMP), estruturas dedicadas em exclusivo a este tipo de avaliação, retirando essa tarefa dos centros de saúde e dos cuidados de saúde primários.

A criação dos CAMP decorre da Portaria n.º 377/2026/1, sendo uma medida que já constava do Plano de Emergência e Transformação da Saúde e recupera uma ideia testada anteriormente num projeto-piloto na ULS de Matosinhos.

A verdade é que a emissão de atestados médicos e psicológicos, exigidos para fins jurídicos, sociais, fiscais e profissionais, tem absorvido uma parte considerável do tempo dos médicos de família.

Isto condiciona a capacidade de resposta dos centros de saúde às consultas de doença e de acompanhamento, que deveriam ser a prioridade dos cuidados de saúde primários.

Ao concentrar estas avaliações em estruturas próprias, o objetivo do Governo é duplo: libertar os cuidados de saúde primários de tarefas essencialmente administrativas e, ao mesmo tempo, garantir uma resposta “especializada, centralizada e eficiente” a quem precisa do documento.

Para que servem os atestados médicos

Este tipo de atestado é exigido em várias situações do dia a dia:

  • Obtenção e renovação da carta de condução, incluindo as categorias dos grupos 1 e 2;
  • Emissão de licença de caçador;
  • Concessão de licença de uso e porte de arma;
  • Exercício de atividades náuticas, como a carta de marinheiro ou a carta de patrão;
  • Outras finalidades legalmente previstas que exijam prova de aptidão física ou psicológica.

A renovação da carta de condução é, na prática, o motivo mais comum para a procura deste atestado, o que explica o impacto direto da medida na vida de milhares de condutores portugueses.

Como vão funcionar os novos centros

médico e paciente

De acordo com a portaria, os CAMP devem integrar médicos, psicólogos e técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica, e ficam responsáveis pelo agendamento das consultas necessárias à emissão dos atestados.

O processo de avaliação continua a incluir um exame clínico individual ao requerente, complementado pela análise de toda a informação clínica disponível, nomeadamente através do processo clínico eletrónico. No final, o médico perito determina se o cidadão é considerado apto ou inapto.

A criação dos CAMP não é automática, cabe a cada ULS tomar a iniciativa, mediante a elaboração prévia de um estudo de viabilidade, que terá de ser submetido ao diretor executivo do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Só com parecer favorável deste é que o centro pode avançar para instalação e funcionamento.

A portaria prevê ainda a possibilidade de várias ULS partilharem temporariamente o mesmo centro, por razões de economia de recursos, interesse estratégico ou proximidade geográfica, desde que essa partilha não prejudique os direitos dos utentes.

O que muda para quem precisa de atestados

A principal diferença sentida pelos utentes deverá ser a separação entre consultas de doença e consultas administrativas. Até agora, quem precisava de um atestado tinha frequentemente de disputar vaga na agenda do médico de família, muitas vezes com longos tempos de espera.

Com os CAMP, a expectativa é de que este tipo de avaliação passe a ter um circuito próprio, mais rápido e mais previsível, sem competir com as consultas de vigilância de saúde.

Ainda não há, contudo, um calendário nacional único para a abertura destes centros, nem valores definidos para as consultas em todas as regiões, uma vez que a criação depende da iniciativa e do ritmo de cada ULS.

A ULS de Matosinhos, que já dispõe de um CAMP em funcionamento desde o projeto-piloto, serve atualmente de referência para o modelo que as restantes unidades deverão replicar.

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