Miguel Pinto
Miguel Pinto
06 Jul, 2026 - 11:00

5 anos sem contacto com o SNS? Vai perder o médico de família

Miguel Pinto

Utentes que têm médico de família atribuído mas que não têm qualquer contacto com o SNS há mais de cinco anos vão ficar sem médico de família.

médico de família

Quem tem médico de família atribuído, mas não recorre ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) há mais de cinco anos pode deixar de o ter.

Em causa estão as novas regras do Registo Nacional de Utentes (RNU) aplicadas pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), numa operação que se vai prolongar por todo o mês e que abrange cerca de 20 milhões de registos.

Segundo a entidade, os utentes afetados não perdem o acesso ao SNS, apenas deixam de ocupar uma vaga na lista de um médico de família, libertando-a para quem ainda aguarda atribuição.

De acordo com as novas regras, ter médico de família atribuído passa a depender de três fatores em simultâneo:

  • Existência de vaga na unidade de saúde onde o utente está inscrito, dentro da dimensão previamente contratualizada com essa unidade;
  • Registo atualizado no Registo Nacional de Utentes, com dados como morada de residência, documento de identificação e número de identificação fiscal;
  • Contacto com o SNS nos últimos cinco anos, e não apenas com os cuidados de saúde primários.

Se qualquer uma destas condições não se verificar, o utente pode deixar de estar associado a um médico de família específico, ainda que continue inscrito no sistema.

Médico de família: de onde vem esta alteração

A base legal desta mudança é o Despacho n.º 3118/2026, publicado em Diário da República a 11 de março de 2026, que altera diplomas anteriores de 2024 e 2025 relativos à organização e gestão do RNU.

O despacho entrou em vigor no dia seguinte à publicação, mas só produziu efeitos práticos 90 dias depois, o que empurrou a aplicação para meados de junho.

A fase de implementação alargada, que abrange milhões de registos em todo o país, arranca agora, em julho, pela mão da ACSS.

Importa notar que este tipo de regra não é totalmente inédito. Até aqui, aplicava-se sobretudo a emigrantes e a não residentes sem registo de consultas nos cuidados de saúde primários há cinco anos.

A novidade do despacho de março foi alargar o critério a todos os utentes e passar a considerar qualquer contacto com o SNS, não apenas nos centros de saúde, mas em todo o sistema.

Quantos utentes estão em causa

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Os números divulgados pela ACSS ajudam a perceber a dimensão da medida:

  • Mais de 121.959 utentes não têm qualquer contacto com o seu centro de saúde ou unidade de saúde familiar há mais de cinco anos, num universo que ronda os 10 milhões de inscritos no SNS.
  • A maioria destas pessoas tem entre 18 e 64 anos, seguindo-se os maiores de 65 anos e, num número mais reduzido, menores entre os 0 e os 17 anos, integrados em agregados familiares igualmente sem contacto com o SNS.
  • A estes juntam-se ainda mais de 262 mil utentes cujo registo no RNU está incompleto ou por atualizar, situação que também os coloca em risco de perder o médico de família caso não seja corrigida.
  • Segundo dados recentes da ACSS, 2025 terminou com 1.563.710 utentes sem médico de família atribuído, um aumento de 2,7% face ao ano anterior, num total que já ultrapassa os 10,7 milhões de inscritos nos centros de saúde.

O que deve fazer para manter o médico de família

Para quem quer garantir que não é abrangido por esta atualização de listas, há dois cuidados essenciais a ter:

  • Confirmar que o registo no RNU está atualizado, nomeadamente morada, documento de identificação e número de identificação fiscal. Isto pode ser verificado através dos canais do SNS, como o Portal do SNS ou a app SNS 24, ou diretamente no centro de saúde.
  • Ter algum contacto com o SNS dentro do período de cinco anos, seja através de uma consulta, de um episódio de urgência ou de outro tipo de interação registada no sistema.

Vale a pena recordar que, mesmo que a vaga de médico de família seja libertada, o utente não fica sem acesso ao SNS: continua inscrito e pode recorrer aos serviços de saúde sempre que necessário, ainda que sem um médico de família fixo atribuído.

médico de família
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O que diz a ACSS

A entidade responsável pela gestão do SNS sublinha que o objetivo da medida é essencialmente administrativo e não representa uma exclusão de cuidados.

Segundo a ACSS, esta alteração não discrimina os cidadãos nem limita o seu acesso ao SNS, tratando-se apenas de uma nova forma de classificação que melhora a gestão do registo e reforça o cumprimento das regras de proteção de dados.

Na prática, a ACSS explica que os utentes com médico de família que não têm contacto com o SNS há mais de cinco anos libertam a vaga para a lista de espera, mas mantêm a inscrição e o acesso aos cuidados de saúde primários, desde que o registo esteja classificado como atualizado.

O objetivo declarado é, nas palavras da entidade, garantir que as listas refletem a população que efetivamente precisa de acompanhamento regular.

As críticas dos médicos de família

atendimento médico

Nem todos veem a medida com bons olhos. A Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF) manifestou preocupação com os efeitos práticos desta alteração, alertando para o risco de exclusão administrativa de utentes que, apesar de estáveis e sem necessidade imediata de consulta, poderiam ainda assim continuar a beneficiar de um médico de família de referência.

O vice-presidente da associação, António Luz, considera que as sucessivas alterações ao regulamento do RNU criam instabilidade e falta de previsibilidade para quem trabalha no terreno.

Segundo o responsável, seria preferível apostar em captar mais profissionais e organizar melhor os serviços do que reduzir administrativamente o número de utentes sem médico atribuído.

Também o presidente da APMGF, Nuno Jacinto, já tinha alertado para constrangimentos práticos, como o de utentes que, mesmo sem necessidade clínica, possam sentir-se obrigados a marcar consultas apenas para não perderem o seu médico de família.

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