Share the post "Menos tecnologia, mais segurança: botões físicos regressam aos carros"
Durante cerca de uma década, a indústria automóvel abraçou o ecrã táctil como se fosse a resposta a todas as perguntas e os botões físicos quase que se esfumaram.
Os construtores competiam para ver quem conseguia o painel mais minimalista, o painel mais limpo, o interior mais parecido com um smartphone de quatro rodas.
Os botões foram desaparecendo, primeiro os menos utilizados, depois os de volume, depois os de climatização, até que alguns chegaram a eliminar o botão de arranque.
O resultado foi bonito nas fotografias e frustrante na estrada. E agora, silenciosamente mas de forma inequívoca, o setor está a recuar.
Declínio dos botões físicos: a febre do ecrã táctil
A mudança começou com boas intenções. O ecrã táctil prometia flexibilidade, o mesmo botão podia ter funções diferentes consoante o contexto, as actualizações de software podiam mudar o comportamento do carro sem alterar o hardware e o interior ficava visivelmente mais arrumado.
Foi a Tesla a codificar esta filosofia de forma mais radical com o Model S, em 2012, reduzindo os controlos físicos a um mínimo quase absoluto.
A indústria seguiu. Mercedes-Benz, BMW, Volkswagen, Peugeot, Volvo, praticamente todos os construtores adoptaram versões desta visão. O interior do automóvel tornou-se uma extensão do ecossistema digital que já carregávamos no bolso.
O problema é que um carro em movimento não é um smartphone. É uma máquina que requer atenção dividida, mãos que nem sempre podem abandonar o volante, e acções que precisam de ser executadas por memória muscular, sem desviar os olhos da estrada.
Os botões físicos podem ser encontrados às cegas. Um menu num ecrã não. Mas este princípio ergonómico básico foi sendo olimpicamente ignorado
O que a investigação e os condutores confirmaram

Não foram só os automobilistas queixosos nas redes sociais a dizer que os ecrãs tácteis eram inconvenientes ao volante. Os dados chegaram também de fontes mais formais.
Estudos realizados em contexto europeu demonstraram que tarefas simples como ajustar o volume ou ligar o aquecimento dos bancos demoravam significativamente mais tempo com controlos tácteis do que com botões físicos.
Em alguns testes, a diferença era suficiente para percorrer dezenas de metros sem atenção efectiva à estrada.
Ao mesmo tempo, os sistemas de avaliação de segurança, incluindo o Euro NCAP, começaram a incorporar nas suas metodologias critérios relacionados com a distracção ao volante provocada por interfaces digitais.
O sinal era claro e apontava que a segurança exigia que se reconsiderasse o caminho tomado.
O que dizem os dados
- Ajustar o volume com um ecrã táctil pode demorar 3 a 4 vezes mais do que com um manípulo físico, segundo testes de usabilidade automóvel.
- O Euro NCAP passou a avaliar a distracção provocada por interfaces digitais nos testes de segurança a partir de 2026.
- Marcas como Volkswagen, Hyundai, Kia e Renault anunciaram ou implementaram o regresso de botões físicos em modelos recentes.
- A Volvo manteve sempre um nível mínimo de controlos físicos e tem sido consistentemente elogiada pela usabilidade dos seus interiores.
Botões físicos: várias marcas repensaram estratégia
O movimento de regresso aos botões físicos não é uniforme nem ideológico. Cada construtor está a encontrar o seu equilíbrio e isso é precisamente o que torna este momento interessante.
Volkswagen e o grupo VAG
A Volkswagen foi um dos casos mais mediáticos de exagero táctil e de reconhecimento do erro. O Golf 8, lançado em 2019, eliminou quase todos os botões físicos a favor de superfícies sensíveis ao toque. As críticas foram imediatas.
Na actualização de 2024, os botões físicos regressaram aos controlos de climatização. A empresa reconheceu publicamente que a experiência táctil não tinha funcionado como esperado nas condições reais de condução.
Hyundai e Kia
O grupo sul-coreano apostou num equilíbrio deliberado, com ecrãs amplos para informação e entretenimento, mas botões físicos dedicados para as funções que os condutores usam com mais frequência, como climatização, volume, modos de condução.
Renault
O novo Renault 5 eléctrico, um dos lançamentos mais aguardados dos últimos anos, adoptou conscientemente um painel híbrido, com ecrã central para navegação e multimédia, botões físicos para climatização e controlos essenciais.
BMW
A BMW reintroduziu o lendário iDrive com manípulo físico nos modelos mais recentes, depois de ter experimentado versões puramente tácteis.
A lição foi que o manípulo, especialmente para quem já conhecia o sistema, era mais intuitivo e seguro do que o toque.
Funções que regressam ao físico

Não se trata de regressar a tabliers cheios de botões. A tendência actual é mais cirúrgica e passa por identificar as funções que são acedidas frequentemente durante a condução e devolver-lhes um controlo físico dedicado.
As restantes podem perfeitamente viver num ecrã.
No topo dessa hierarquia de urgência estão o volume de som, a temperatura do habitáculo, a desativação de assistências à condução (como o alerta de saída de faixa, que muitos condutores desligam em determinadas situações) e o aquecimento dos bancos.
São funções que o condutor precisa de aceder enquanto conduz, por vezes em condições de chuva, frio ou tráfego intenso.
Um nível abaixo estão os modos de condução, as luzes de nevoeiro e o controlo de cruzeiro. Funções importantes, mas menos frequentes.