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Valdemar Jorge
Valdemar Jorge
30 Ago, 2021 - 13:40

Casal Boss: a motorizada portuguesa que marcou uma geração

Valdemar Jorge

Tornou-se, com os anos, uma verdadeira lenda. Venha conhecer a história da Casal Boss, uma das mais icónicas motorizadas portuguesas dos anos 70.

Mota Casal Boss

As décadas de 70 e 80 do século passado ficam marcadas pela presença da motorizada Casal Boss, modelo destinado aos jovens da altura e que depois de obterem licença de condução numa Câmara Municipal, faziam o choradinho aos pais para que lhes comprassem tão ansiado transporte..

O sucesso deste ciclomotor foi imenso e ainda hoje é procurado pelos fãs das duas rodas. A Boss, com era conhecida na gíria, estava bem adaptada à vida dos portugueses. Produzida pela Casal, era uma boa alternativa às Honda e Yamaha com motores de 50 cc, bem mais caras.

O modelo produzido em Aveiro foi um dos meios da Casal mostrar o seu vasto know-how na produção de motorizadas de penetração/expansão no mercado nacional e até internacional.

O sucesso foi de tal ordem que ainda hoje é possível ver circular modelos da Casal Boss da 1.ª geração de 1974.

Casal Boss: simplicidade e fiabilidade

O que atraiu os mais jovens para a Casal Boss foi a simplicidade, robustez e fiabilidade do pequeno ciclomotor, construído em tubo de aço e que quando pronto não passava os 55 quilos.

O motor monocilíndrico a dois tempos tinha uma potência de 2,5 cv às 5.500 rpm. A Boss estava disponível  com caixa de duas velocidades que podiam ser acionadas ao rodar o manípulo esquerdo, com a manete de embraiagem em banho de óleo que facilitava a passagem da caixa. A velocidade máxima era de 55 km/h.

Graças a estas características, e à economia de utilização, a Casal Boss, conquistou o público jovem. Mas não só. Recorde-se que os elementos da Polícia de Segurança Pública utilizaram, anos a fio, este meio de transporte para policiar nas cidades.

Uma das características que jogava a favor da Casal Boss, além da mecânica, era o facto de ser muito ágil na cidade. Com pouco mais de um metro e meio e uma largura de 0,700 m permitiam que se esgueirasse entre as filas de trânsito com grande facilidade.

De referir que, na época, a aquisição de uma Casal Boss rondava os 10 mil escudos (50 euros) e que hoje um modelo em bom estado para restaurar custa cerca de 200,00/250 euros. Restaurada, e em boas condições, chegam a custar à volta dos 2 mil euros.

Casal Boss: a história começa em 1964

A fundação da Metalurgia Casal (como sublinha o blogue CasalBoss.Portugal), considerada a maior empresa nacional do sector das duas rodas, remonta a 1964, por intermédio do empreendedor João Francisco do Casal.

O primeiro negócio deste empresário aveirense não está diretamente relacionado com a metalurgia, mas sim com produtos alimentares. Terá sido durante as viagens que fazia à Alemanha, com o objetivo de conseguir canais de exportação para os seus produtos, que João Casal teve contacto com a indústria motociclista daquele país. Contacto que o levou a ponderar o arranque de um negócio nessa área em Portugal.

No seguimento da sua vontade, solicita, em 1953, uma autorização ao governo Português para montagem de motorizadas com motor Zundapp. O pedido é negado, devido à pressão exercida pelos concorrentes Famel e Vilar.

João Casal não desiste e em 1961, juntamente com os irmãos e um primo, cria a Casal Irmãos, que mais tarde mudou o nome para Veículos Casal. É nesta oficina que começa a realizar a montagem, reparação e venda de motores Zundapp, bem como a fabricação de alguns dos componentes a utilizar nesses motores, que eram importados desmontados.

Como complemento do negócio João Casal cria uma circuito de distribuição a nível nacional para vender os produtos que saíam da Casal Irmãos.

Casal Boss

Novo alvará apresentado em 1963

Após o primeiro desaire de pedido de alvará, João Casal avança, em 1963, com novo pedido junto do Governo. O pedido visava a criação de uma unidade fabril para produção de carretos de motorizadas.

Mais uma vez as empresas da concorrência protestam, sublinhando que um novo concorrente no mercado iria prejudicar o negócio das unidades existentes.

No entanto, João Casal mantem-se firme e com o objetivo de fabricar motores Zundapp até 250 cc, sob licença. A maior parte das peças seriam produzidas em Portugal, com algumas a serem importadas da Alemanha. Mesmo sob protesto de empresas como Famel, Quimera Alma ou Miralago, João Casal obtém o alvará de motores com cilindrada até 250 cc. Nasce a Metalurgia Casal.

Paralelamente à obtenção do alvará, a Casal passa a contar com um importante aliado. Tratava-se do engenheiro Robert Erich Zipprich, diretor técnico da Zundapp, que sempre teve boa relação de amizade com João Casal, desde os tempos em que este era representante dos motores Zundapp para o território nacional.

A marca alemã passa a fornecer os seus motores à Famel, mas Robert Zipprich não se conforma com a decisão, pelo que abandona o seu lugar de diretor técnico na Alemanha e ingressa nos quadros da Casal, em Portugal.

Produção da scooter Carina

O ano de 1965 fica marcado, na Casal, pelo aumento de capital da empresa que passa de 6.000 contos para 30.000 contos. No ano seguinte, dá-se o arranque da produção da scooter Carina, veículo com inspiração na então Zundapp R50.

A Carina surge numa altura em que pululavam as scooter, na maioria animadas por motorizações com mais de 125 cc. Recorde-se que neste naipe de veículos destacava-se em toda a Europa a Piaggio, com a sua Vespa, modelo que detinha a preferência do público.

Entre os anos 1967 e 1969 a Casal produz um conjunto de motores (M151 e M148), bem como a motorizada K160), um novo motoatomizador agrícola, a motorizada K163 e a K181. A empresa aposta ainda na apresentação de estudos para futuros motores, caso dos protótipos de 50 cc automáticos, 75 e 150 cc.

Já entre 1970 e 1974 (ano da Revolução do 25 de Abril), a empresa de João Casal, apresenta (1970) na Feira de Março, em Aveiro, a motorizada K260, com motor de 125 cc, que será comercializada em 1972. No ano de 1973, tem início a comercialização da Casal K270 (motor de 125 cc).

Queda do regime retrai a Metalurgia Casal

Com o advento do 25 de abril de 1974 a produção da unidade fabril da Casal retrai-se, bem como as demais unidades do sector. O protecionismo dos produtos nacionais acaba e Portugal é, a pouco e pouco, invadido por produtos mais apelativos e com tecnologia mais moderna, que cativam o público.

A par disso, a instabilidade política que se viveu na altura não ajudou a que as empresas mantivessem as suas atividades em alta, uma vez que o preço das matérias primas sobe e, paralelamente, também os ordenados dos trabalhadores conhecem um incremento positivo.

Também a entrada de Portugal na então Comunidade Económica Europeia (hoje União Europeia), em 1986, aumenta o poder económico dos portugueses, que começam a equacionar a troca do popular meio de transporte, que era a motorizada, pelo mais confortável automóvel.

Entretanto, a chegada de modelos mais modernos e com inspiração desportiva, como eram a Honda NSR 50cc e 125 cc, entre outras, conquistam os jovens, em detrimento dos envelhecidos modelos Casal. Lentamente a Casal começa a sentir que as vendas não atingem os objetivos previstos. Nesta época salvou-se a produção do modelo Casal K276, uma mota vocacionada para o Enduro, com motor de 125 cc, com linhas muito elegantes.

Casal K168 Boss e Super Boss salvam os anos 90

Ainda longe do fracasso que se fez sentir em maio de 2000 (altura em que um grupo de credores recorrendo à via judicial exigiu a falência da empresa) a Casal continuou a lutar no segmento das duas rodas com todas as armas que tinha ao dispor.

Nessa altura, apresenta na rede de concessionários os modelos Casal Magnum (inspirada na Suzuki Wolf) e Casal Arizona (trail com design muito agradável, com potencial para andar em asfalto, como em piso de terra), que se juntam a modelos bem sucedidos como a Casal K168 Boss e a Super Boss.

Este último modelo produzido durante cerca de 20 anos, adaptou-se a diversas funções. Tanto serviu o trabalhador, como o estudante, os agentes da autoridade ou até o entregador de pizzas.

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Esperança curta em 2004

O ano de 2000 trouxe o primeiro grande golpe à empresa. Um grupo de credores, recorrendo à via judicial, exigiu a falência da Casal. Na mesma altura foi noticiado que os arquivos da Metalurgia Casal, que englobavam desde as fichas individuais dos colaboradores a projetos de motorizadas ou protótipos (e onde constava o plano para a construção de um automóvel) tinha sido destruído. Com este ato (que resulta da demolição do edifício onde estava o arquivo) perde-se o importante testemunho de 40 anos, de uma das maiores unidades fabris do sector, em Portugal.

O ano de 2004 marca a falência da Casal, apesar de ainda se noticiar de uma troca de intenções por parte do então presidente da Câmara Municipal de Aveiro, antigos funcionários da empresa e grupo de novos investidores.

A vontade de criar uma nova fábrica que agrupasse um significativo número de antigos colaboradores da Casal não passou disso mesmo, não chegando a concretizar-se. Terminava assim a maior unidade fabril do sector em Portugal, que durante 40 anos produziu e comercializou cerca de 77 modelos de motociclos. Como a mítica Casal Boss.

João Francisco do Casal homenageado por Marcelo Rebelo de Sousa

O fundador da Metalurgia Casal, João Francisco do Casal (nasceu em 1 de setembro de 1922, freguesia de Aradas, Aveiro, faleceu, com 98 anos, a 8 de agosto de 2021), foi homenageado pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em 7 de dezembro de 2017, na Câmara Municipal do Porto.

Este aveirense, que também foi pioneiro na formação profissional, recebeu a insígnia de Grande-Oficial da Ordem de Mérito Empresarial Classe Mérito Industrial. A sua obra ainda perdura, em especial a agora muito procurada Casal Boss.

(As imagens deste artigo foram gentilmente cedidas pelo Stand Orbita Radical)

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