Teresa Campos
Teresa Campos
17 Abr, 2020 - 11:38

COVID-19 e crianças: os mais novos são realmente menos afetados?

Teresa Campos

Neste contexto de pandemia, um dos únicos indicadores positivos parece ser o facto da COVID-19 e crianças ser uma combinação relativamente inofensiva.

Relação Covid-19 e crianças

A tendência para a relação COVID-19 e crianças não oferecer preocupações de maior foi verificada logo no início desta pandemia, na China, mas tem sido um padrão que se tem repetido na generalidade dos países.

No último Relatório Semanal acerca da Morbilidade e Mortalidade associadas a esta doença, emitido pelo Centers for Disease Control (CDC), os cientistas afirmam que, em comparação com os adultos, as crianças com menos de 18 anos tem menor probabilidade de sofrer dos sintomas típicos da COVID-19, como febre, tosse e dificuldade respiratória.

Por isso, também é menos provável que precisem de internamento hospitalar ou que venham a morrer devido a esta patologia. Mas, afinal, o que é que já se sabe sobre a COVID-19 e crianças?

COVID-19 e crianças: menos afetados?

Ao contrário de vírus como o da gripe que, habitualmente, afeta mais os sistemas imunitários mais vulneráveis dos mais velhos, mas também dos mais novos, o novo coronavírus parece “poupar” as crianças.

Yvonne Maldonado, Professora de Pediatria na Stanford University School of Medicine e membro do comité de doenças infeciosas da American Academy of Pediatrics, diz que não se consegue lembrar de outra infeção respiratória que só atinja os adultos tão severamente.

Naturalmente que esta constatação ainda tem por base uma amostra limitada. O relatório da CDC citado acima teve por base 2500 casos de infeções por COVID-19 em indivíduos com menos de 18 anos, num universo de 150.000 infetados pelo novo coronavírus, só nos EUA.

Sintomas de covid-19 e crianças

COVID-19 e crianças: o que dizem os estudos já disponíveis?

Este foi também, apenas, o segundo estudo feito acerca da COVID-19 e crianças, tendo sido o primeiro realizado na China, considerando 2100 crianças com COVID-19, com idades entre os 2 e os 13 anos. Essa investigação concluiu que 90% dessas crianças ou eram assintomáticas ou tinham sintomas leves a moderados.

Essa tendência tem sido replicada nos EUA. Entre as crianças com menos de 18 anos com COVID-19, 73% teve sintomas como febre, tosse ou dificuldade respiratória, em contraste com 93% dos adultos entre os 18 e os 64 anos que, devido à mesma infeção, tiveram esses mesmos sintomas. Ainda comparando, 6% das crianças com COVID-19 necessitaram de internamento hospitalar, em confronto com 10% de adultos.

As diferenças também se verificam nos números de mortos. Até ao momento, morreram 3 crianças com COVID-19 em confronto  com 5443 mortes entre adultos.

Os médicos no terreno corroboram esta mesma convicção. Os especialistas atendem menos crianças com COVID-19 do que adultos, mesmo em locais muito afetados pelo vírus como Washington.

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Mais protegidas

Kristin Moffitt, Professora Assistente de Pediatria na Harvard Medical School e especialista em doenças infeciosas pediátricas no Boston Children’s Hospital, adianta que a tendência das crianças estarem mais protegidas dos efeitos severos desta doença está a confirmar-se.

Moffitt acrescenta que são muito raros os casos de crianças a precisarem de internamento hospitalar. Porém, a Professora Moffitt considera que ainda é cedo para tirar conclusões acerca do porquê das crianças não desenvolverem sintomas mais graves desta doença.

Criança com suspeita de coronavírus

COVID-19 e crianças: quais as teorias avançadas até ao momento?

Ainda assim, alguns investigadores já avançam com certas teorias. Uma delas prende-se com o facto dos mais jovens, por alguma razão, não terem uma resposta imunitária tão agressiva como os adultos. Uma resposta imunitária mais agressiva afeta ainda mais os pulmões, dificultando a respiração.

O motivo pelo qual as crianças não têm uma resposta imunitária hiper reativa ainda não é totalmente claro para os especialistas, mas pode ter a ver com o facto dos seus sistemas imunitários não estarem preparados ou não serem capazes de dar uma resposta tão poderosa.

Yvonne Maldonado acrescenta que as respostas imunitárias das crianças evoluem ao longo do tempo. No primeiro ano de vida, os mais novos não têm um sistema imunitário tão robusto como as crianças mais velhas ou os adultos. Esta explicação pode ajudar a perceber o porquê das crianças mais pequenas precisarem mais vezes de internamento hospitalar do que as mais velhas.

Os estudos realizados a grávidas infetadas com o novo coronavírus podem ajudar a explicar o tipo de defesas que os mais pequenos têm contra o SARS-CoV-2. Porém, até agora, os dados são pouco conclusivos.

Estudos com recém-nascidos

Dois estudos efetuados com parturientes infetadas pelo novo coronavírus em Wuhan, na China, revelaram que alguns desses recém-nascidos apresentavam sinais de possíveis anticorpos contra o SARS-CoV-2. Porém, nenhum desses bebés tinha COVID-19. Assim, não é certo se esses anticorpos foram transferidos da mãe para o bebé ou se a sua origem era outra.

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Mas são precisas outras investigações para ficar a perceber como o sistema imunitário das crianças reage, realmente, ao SARS-CoV-2. Yvonne Maldonado e a sua equipa estão a preparar um estudo que tem por objetivo perceber como o novo coronavírus se transmite, mesmo quando as pessoas, inclusive as crianças, estão assintomáticas, ou seja, sem tosse, febre ou dificuldade respiratória.

Apesar desta tendência da COVID-19 e crianças, os números ainda são poucos e os pediatras acham mais prudente assumir que as crianças são tão vulneráveis a esta infeção como os adultos e que elas são capazes de transmitir o vírus como os adultos, mesmo que estejam assintomáticas. Yvonne Maldonado alerta que devemos ser cuidadosos e relembra que ainda não conhecemos a 100% o vírus com que estamos a lidar.

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