Miguel Pinto
Miguel Pinto
21 Abr, 2026 - 17:00

UE fixou a data: em 2027 já poderá mudar a bateria do seu gadget

Miguel Pinto

A partir de 18 de abril de 2027, todos os dispositivos eletrónicos vendidos na Europa terão de ter uma bateria facilmente substituível pelo utilizador.

bateria de telemóvel

Ainda se lembra dos tempos em que trocar a bateria de um telemóvel era tão simples como abrir a tampa traseira, retirar a bateria velha e encaixar uma nova.

Hoje, esse processo tornou-se uma tarefa para técnicos especializados e frequentemente cara o suficiente para levar muitos a comprar um aparelho novo em vez de reparar o que tem.

A União Europeia quer mudar isso. Em julho de 2023, o Parlamento Europeu e o Conselho aprovaram o Regulamento 2023/1542, um diploma legislativo que abrange todo o ciclo de vida das baterias, da produção à reciclagem.

E há uma data que importa reter: 18 de abril de 2027. A partir desse dia, qualquer dispositivo eletrónico com bateria portátil que seja comercializado na União Europeia terá de cumprir as novas regras.

Baterias: o que muda para o consumidor?

A nova regulamentação não exige que os fabricantes regressem ao modelo clássico das tampas amovíveis. O que exige é que a substituição da bateria possa ser feita pelo utilizador final, sem necessidade de recorrer a uma loja de reparações ou a um técnico certificado.

Na prática, isso significa que o processo deverá ser suficientemente simples para ser realizado em casa. As ferramentas necessárias terão de estar disponíveis no mercado de forma acessível, sem equipamento especializado nem componentes exclusivos de cada marca. Caso a troca exija ferramentas específicas, os fabricantes ficam obrigados a fornecê-las gratuitamente.

Que gadgets estão abrangidos?

O regulamento aplica-se a todos os dispositivos com baterias portáteis:

  • Smartphones e telemóveis;
  • Tablets;
  • Computadores portáteis;
  • Câmaras fotográficas e de vídeo;
  • Consolas portáteis;
  • Auscultadores e outros acessórios eletrónicos;
  • Meios de transporte ligeiros, como bicicletas elétricas e trotinetas.

A razão por detrás do regulamento

A degradação da bateria é, há vários anos, o principal motivo pelo qual as pessoas trocam de telemóvel. Quando um smartphone começa a não aguentar o dia com uma carga, a solução mais comum, sobretudo em aparelhos com design selado, tem sido adquirir um dispositivo novo, em vez de substituir simplesmente a bateria. Este comportamento tem custos elevados para os consumidores e um impacto ambiental considerável.

Baterias: o que dizem os fabricantes?

tablet internet

Nem todos recebem esta mudança com entusiasmo. A indústria tecnológica, e os fabricantes de smartphones em particular, tem levantado dúvidas legítimas sobre as implicações práticas do regulamento.

Um dos principais argumentos é o impacto no design dos dispositivos. Ao longo da última década, os telemóveis tornaram-se mais finos, mais leves e com maior resistência à água e ao pó, precisamente porque adotaram um design selado.

Tornar as baterias acessíveis ao utilizador pode implicar alterações estruturais que condicionem estas características, nomeadamente a certificação IP (resistência à água).

Existe também a questão da evolução tecnológica. Desde 2023, a tecnologia de baterias avançou significativamente e alguns fabricantes argumentam que uma regulamentação demasiado rígida pode travar a inovação ou limitar a variedade de produtos disponíveis no mercado europeu.

A Samsung, que se tem posicionado mais abertamente sobre o tema, indicou que pretende adaptar os seus designs para que os utilizadores possam substituir a bateria dos seus smartphones até meados de 2027.

iphone dobrável
Veja também Apple prepara iPhone dobrável. Será que vai mesmo mudar o jogo?

Um calendário faseado: o que já entrou em vigor?

O Regulamento Europeu de Baterias não chegou de uma vez só. A sua implementação tem sido gradual, com diferentes requisitos a entrar em vigor em datas distintas:

  • Fevereiro de 2024 – Aplicação inicial do regulamento;
  • Agosto de 2024 – Requisitos de segurança obrigatórios para sistemas de armazenamento de energia;
  • Fevereiro de 2025 – Requisitos de pegada de carbono para baterias de veículos elétricos;
  • Agosto de 2025 – Protocolos de gestão de resíduos de baterias;
  • 2026 – Entrada em vigor de requisitos de rotulagem;
  • 18 de abril de 2027 – Obrigatoriedade de baterias portáteis facilmente substituíveis pelo utilizador final;
  • 2027 – QR codes em todas as baterias com informação sobre composição, materiais reciclados e instruções de substituição.

Reciclagem e sustentabilidade

Para além da substituição das baterias, o regulamento impõe metas ambiciosas em termos de reciclagem e recuperação de materiais. Os fabricantes ficam obrigados a recolher 63% das baterias portáteis até 2027 e 73% até 2030. No que respeita ao lítio, a meta de recuperação é de 50% até 2027 e de 80% até 2031.

O regulamento também define níveis mínimos de conteúdo reciclado nas baterias de nova produção: 16% de cobalto, 6% de lítio e 6% de níquel, entre outros. Cada bateria industrial passará ainda a ter um passaporte eletrónico individual, acessível por QR code, com informação detalhada sobre a sua composição e origem dos materiais.

Tal como aconteceu com a imposição do USB-C pela UE, esta mudança dificilmente ficará confinada à Europa. Manter dois designs distintos para o mercado europeu e para o resto do mundo representaria custos de produção muito elevados para a maioria dos fabricantes. É provável que a indústria opte por adaptar os seus produtos a nível global, tornando as baterias substituíveis uma norma universal.

O que deve fazer como consumidor?

Homem a carregar o telemóvel todas as noites

Por agora, não é necessário fazer nada. Os dispositivos que comprar antes de abril de 2027 não estão abrangidos por esta obrigação. Mas vale a pena ter este prazo em mente quando for renovar o seu smartphone ou tablet e a partir de 2027, a facilidade de reparação deverá ser um critério de compra ainda mais relevante do que é hoje.

Se tem um dispositivo cujo desempenho da bateria está a deteriorar-se, o melhor conselho é procurar um serviço de reparação autorizado ou independente antes de equacionar a substituição do aparelho. Em muitos casos, trocar a bateria pode devolver anos de vida ao seu gadget e poupar-lhe uma quantia considerável.

Veja também