Cláudia Pereira
Cláudia Pereira
02 Fev, 2026 - 17:00

Descodificar os números do pneu: o guia que pode poupar multas e dinheiro

Cláudia Pereira

Sabe o que significam os números na lateral do pneu? Descubra como essa informação evita multas até 1.250€, chumbo na inspeção e ainda reduz 20% do consumo de combustível.

Olhe para a lateral do seu pneu neste momento. Vê uma série de números e letras que parecem um código secreto? Pois bem, essa sequência aparentemente confusa é o bilhete de identidade do pneu e desconhecê-la pode custar-lhe caro.

Circular com pneus não homologados pode resultar em multas e, inevitavelmente, numa avaliação desfavorável na inspeção periódica obrigatória. E não estamos a falar de valores simbólicos: as multas podem chegar aos 1.250 euros para veículos ligeiros, segundo dados de 2025 compilados pelo Instituto da Mobilidade e dos Transportes.

O código que poucos conhecem

Pegue no exemplo mais comum nas estradas portuguesas: a referência 205/55 R16 91 V. Parece grego? Cada elemento desta sequência conta uma história sobre o seu pneu e ignorá-la é como conduzir às cegas.

O primeiro número, 205, indica a largura do pneu em milímetros. Neste caso, estamos a falar de 20,5 centímetros de borracha entre si e o asfalto. O segundo valor, 55, representa a altura do perfil expressa em percentagem da largura, o que equivale a 112,7 milímetros. A letra R não é aleatória, significa estrutura radial, o tipo predominante nos automóveis atuais, embora ainda exista a estrutura diagonal identificada pela letra B.

Continuando a descodificação, o 16 corresponde ao diâmetro da jante em polegadas. Aqui mora um dos erros mais comuns dos condutores portugueses: comprar pneus para uma jante de 15 polegadas quando o carro necessita de 16. O resultado? Reprovação garantida na inspeção e risco acrescido de acidente.

O índice 91 refere-se à carga máxima que o pneu suporta. Neste caso, 615 quilogramas, numa escala que varia entre 60 e 125. Por fim, o V indica o código de velocidade, permitindo circular até 240 quilómetros por hora numa classificação que vai de A a Y.

Quando a ignorância sai cara

A regulamentação portuguesa não deixa margem para dúvidas. As medidas e o desenho dos pneus devem ser idênticos no mesmo eixo e corresponder às especificações da ficha técnica do veículo. O incumprimento resulta em coimas que variam entre 250 e 1.250 euros, dependendo do tipo de veículo e da gravidade da infração.

Mas o problema não se resume às multas. Em 2026, os preços da inspeção automóvel subiram para 37,47 euros nos veículos ligeiros, segundo a Deliberação n.º 1598-A/2025. E chumbar por causa de pneus não homologados significa pagar nova inspeção, mais a substituição dos pneus incorretos. A conta pode facilmente ultrapassar os 500 euros.

Os dados do último Relatório de Atividade dos Centros de Inspeção do IMT, de 2021, revelam que os pneus estão entre as principais causas de deficiências registadas durante as inspeções, a par de travões, direção e iluminação. Estas são falhas classificadas como deficiências de tipo 2, que comprometem seriamente o funcionamento do veículo e a segurança.

O peso escondido no bolso

Aqui está algo que a maioria dos condutores desconhece: os pneus são responsáveis por cerca de 20% do consumo de combustível do veículo. Não é uma estimativa da tasca da esquina, são dados de fabricantes como a Michelin, confirmados em estudos recentes sobre eficiência energética automóvel.

Escolher pneus inadequados afeta diretamente o orçamento mensal de quem conduz. Um pneu com maior resistência ao rolamento obriga o motor a trabalhar mais, queimando mais combustível para manter a mesma velocidade. Numa altura em que cada cêntimo conta no posto de abastecimento, este é um desperdício evitável.

A pressão inadequada agrava o problema. Pneus com pressão inferior à recomendada aumentam o consumo em até 10%, segundo dados de 2025. É como conduzir com o travão de mão ligeiramente puxado; o carro anda, mas custa-lhe mais esforço e mais dinheiro.

A etiqueta que ninguém lê

Todos os pneus comercializados em Portugal devem apresentar a etiqueta europeia de eficiência energética, estabelecida pelo Regulamento (UE) 2020/740 da União Europeia, que entrou em vigor em maio de 2021. Esta etiqueta avalia três critérios fundamentais: resistência ao rolamento, aderência em piso molhado e nível de ruído externo.

A resistência ao rolamento recebe classificações de A a E, sendo A a mais eficiente. Segundo a própria Comissão Europeia, “os pneus representam entre 20 a 30 % do consumo de combustível dos veículos“, o que significa que pneus com melhor classificação podem representar poupanças significativas. Ou seja, a escolha certa de pneus pode representar a diferença entre gastar 50 ou 60 euros por mês em combustível.

Como escolher os pneus certos

Antes de substituir os pneus, consulte a ficha técnica do veículo. Lá encontra as especificações exatas de medidas, índice de carga e código de velocidade. Esta informação também está disponível num autocolante colado na coluna da porta do condutor ou na tampa do depósito de combustível.

Não se deixe seduzir apenas pelo preço. Compare a classificação na etiqueta de eficiência energética. Um pneu ligeiramente mais caro com classificação A em resistência ao rolamento pode poupar-lhe mais dinheiro em combustível do que um pneu barato com classificação E ou F.

Considere o tipo de condução que faz habitualmente. Se passa a maior parte do tempo em cidade, pneus com menor profundidade de sulcos oferecem melhor rolamento e menor consumo. Para quem circula frequentemente em autoestrada ou em estradas rurais, a prioridade deve ser a aderência e a estabilidade.

Vai substituir os seus pneus em breve? Antes de comprar, tire uma foto da lateral do pneu atual e compare com as especificações da ficha técnica do veículo. Este simples passo pode poupar-lhe centenas de euros em multas e combustível!

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