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Miguel Pinto
Miguel Pinto
06 Mar, 2020 - 17:22

Dia Internacional da Mulher: origens de uma luta que continua

Miguel Pinto

Assinalar o Dia Internacional da Mulher é compreender uma longa luta que está longe de ter terminado e que começou há mais de um século. Pelo menos.

Manifestação no Dia Internacional da Mulher

O Dia Internacional da Mulher não é mais uma invenção da indústria do comércio, sempre em busca de uma data mais ou menos ridícula, mais ou menos importada, para fazer crescer o negócio. Não, a 8 de março as flores têm a força de punhais e recordam uma luta que está longe de estar ganha.

A igualdade de género é uma discussão que ganhou o seu espaço mediático, mas a verdade é que o caminho é sinuoso e pejado de obstáculos. Persiste o abismo das diferenças salariais entre homens e mulheres, a maternidade continua a ser vista como um entrave profissional, os lugares de chefia sempre ocupados, na sua esmagadora maioria, por homens.

Muito foi feito, muito há a fazer. Mas como é que chegamos a este dia?

dia internacional da mulher: história de uma luta

Manifestantes no Dia da Mulher

É preciso recuar a 26 de fevereiro de 1909, e à cidade de Nova Iorque, para encontrarmos o momento zero do que viria a ser o Dia Internacional da Mulher.

Foi nesse dia que teve lugar uma grande manifestação de mulheres, consta que cerca de 15 mil, onde era reivindicado o direito ao voto feminino e melhores condições de trabalho, uma vez que nos alvores do século XX, as mulheres trabalhavam em jornadas que podiam chegar às 16 horas, seis dias por semana. E muitas vezes estendia-se até ao domingo, com reflexos naturais na vida familiar.

Contestação na Europa

Este movimento contestatário já ia também fazendo o seu caminho na Europa, designadamente nas fábricas dos países mais industrializados, e foi durante a Conferência de Mulheres da Internacional Socialistas, realizada em Copenhaga em 1910, que o Dia Internacional da Mulher começou a ganhar forma.

Clara Zetkin, figura histórica do feminismo e uma das fundadoras e dirigentes do Socorro Vermelho Internacional, sugeriu que o dia da mulher fosse assinalado todos os anos. Contudo, ainda não foi ali que se fixou uma data.

Foi precisamente a 8 de março de 1917 que na Rússia as mulheres saíram à rua uma vez mais, em protesto contra a carestia, o desemprego e as cada vez mais precárias condições de vida no país dos czares. Os operários, homens, juntaram-se à luta, o que acabaria por precipitar a revolução bolchevique de 1917.

Seria preciso esperar quase 60 anos para que a Organização das Nações Unidas viesse a instituir, em 1975, o dia 8 de março como Dia Internacional da Mulher, uma data assinalada em quase todos os países do mundo. Quase, porque ainda há regiões onde este dia é olimpicamente ignorado e onde os direitos das mulheres são extremamente limitados, se não mesmo inexistentes.

Presente (ainda) sombro

Países como a Arábia Saudita, onde as mulheres têm os movimentos controlados, ou nações africanas onde a mutilação genital feminina é uma prática corrente e muitas vezes socialmente aceite, fazem-nos pensar que há muito estrada para andar antes de a comemoração do Dia Internacional da Mulher ser completa e definitiva.

E já que estamos em Portugal, numa sociedade supostamente igualitária, não esqueçamos neste dia, por exemplo, as mulheres que todos os anos são vítimas de violência doméstica, uma praga que tarda em erradicar-se. Ou o ainda diminuto número de mulheres em cargos de chefia.

Por isso, se hoje a brindarem com flores ou chocolates, recuse com delicadeza. Ou então grite bem alto que a luta das mulheres não é os 100 metros barreiras. É uma maratona e, infelizmente, com um final ainda longínquo.

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