Miguel Pinto
Miguel Pinto
19 Mai, 2026 - 17:00

23 mil milhões: o dinheiro que o Fisco não consegue cobrar

Miguel Pinto

São mais de 23 mil milhões de euros de impostos que estão por cobrar. Conheça em detalhe as contas do Fisco em Portugal.

dívidas ao Fisco

A Conta Geral do Estado (CGE) de 2025, divulgada pelo Ministério das Finanças, revela que o Fisco terminou o ano de 2025 com 29.592 milhões de euros em receitas por cobrar, montante que engloba dívida fiscal, não fiscal, municípios, Regiões Autónomas e outras entidades cujas cobranças são geridas pela AT.

Deste total, 22.999,8 milhões de euros dizem respeito exclusivamente a receitas fiscais, ou seja, impostos propriamente ditos.

Se juntarmos taxas, multas e outras penalidades (cerca de 850 milhões de euros), o montante de receitas que não entrou nos cofres do Estado em 2025 ultrapassa os 23.850 milhões de euros.

Não é surpresa que os três principais impostos do sistema fiscal português (IRS, IVA e IRC) encabecem a lista das receitas por cobrar.

Impostos diretos: 13.356 milhões de euros

  • IRS: 7.331 milhões de euros (mais 594 milhões face a 2024)
  • IRC: 5.967 milhões de euros (mais 220 milhões face a 2024)

Impostos indiretos: 9.644 milhões de euros

  • IVA: 9.087 milhões de euros (mais 412 milhões face a 2024)
  • Imposto do Selo: 358 milhões de euros (menos 39 milhões)
  • ISP: 140 milhões de euros (mais 71 milhões)
  • ISV: 50 milhões de euros (praticamente estável)

O IVA é, de longe, o imposto com maior peso na dívida ao Fisco. A dimensão deste valor reflete não apenas a evasão fiscal, mas também situações de insolvência empresarial e litígios tributários prolongados.

Quanto da dívida é efetivamente cobrável?

deduções do IRS

Esta é a pergunta que mais interessa e a resposta é menos animadora do que se poderia esperar. Apenas cerca de 30% do total está em cobrança coerciva ativa. Os restantes 70% ou são legalmente incobráveis ou estão “congelados” à espera de uma decisão judicial ou do desfecho de processos de insolvência.

A dívida suspensa cresceu 109 milhões de euros face ao ano anterior, reflexo da sobrecarga dos tribunais tributários e do aumento de empresas em processo de insolvência.

O que é dívida suspensa?

A dívida suspensa corresponde a montantes fiscais que não podem ser cobrados neste momento, mas que ainda não foram extintos.

  • Impugnação judicial: o contribuinte contesta a dívida em tribunal e, enquanto o processo decorre, a cobrança fica suspensa (geralmente mediante prestação de garantia)
  • Processo de insolvência: quando uma empresa ou particular entra em insolvência, os créditos tributários ficam sujeitos ao processo de recuperação ou liquidação

Em ambos os casos, o Estado fica numa posição de espera, às vezes durante anos.

O que é dívida incobrável?

A dívida incobrável ao Fisco são os 11.407 milhões de euros sobre os quais o Estado já não tem esperança realista de recuperação, mas que ainda constam formalmente nos registos da Autoridade Tributária (AT) enquanto não prescrevem ou são formalmente extintos.

Pode tratar-se de devedores desaparecidos, empresas já dissolvidas sem ativos, ou situações em que o custo de cobrar excederia o valor a recuperar.

Prescrições dispararam: o que significa?

Um dado que merece atenção especial é que em 2025, o valor das dívidas prescritas (aquelas cujo prazo legal de cobrança expirou) mais do que quadruplicou, atingindo 106,6 milhões de euros (face a apenas cerca de 24 milhões em 2024).

Um aumento de 335,6% num único ano é expressivo. A AT explica que este salto resulta de um esforço deliberado de saneamento da carteira de dívida, com ações focadas em identificar e regularizar dívida já prescrita.

Por imposto, o IVA foi o maior contribuinte para este aumento (mais 44,6 milhões), seguido do IRC (mais 15,1 milhões) e do IRS (mais 7,7 milhões).

A prescrição não é necessariamente má notícia em si mesma. É um mecanismo de segurança jurídica que protege os contribuintes de dívidas muito antigas. O que é preocupante é a dimensão do problema subjacente.

O que representa esta dívida para o orçamento?

Mulher a calcular despesas com a casa

Para contextualizar, o Orçamento do Estado para 2025 previa receitas fiscais totais da ordem dos 90 a 95 mil milhões de euros.

Os 23 mil milhões por cobrar equivalem, portanto, a cerca de um quarto das receitas fiscais anuais do Estado.

Claro que não seria realista cobrar tudo. Grande parte desta dívida é genuinamente irrecuperável.

Mas mesmo que se conseguisse recuperar apenas uma fração mais relevante da dívida ativa (os 8.994 milhões considerados cobráveis), o impacto nas contas públicas seria significativo.

O que pode mudar para combater o problema?

A AT tem investido em mecanismos de combate à fraude e evasão fiscais, na digitalização dos processos e no saneamento da carteira de dívida, como o esforço de identificação de dívida prescrita evidencia.

Mas os números mostram que o problema estrutural persiste e continua a crescer.

A simplificação do contencioso tributário, a agilização dos tribunais fiscais e políticas de regularização voluntária de dívidas são algumas das alavancas que poderiam, a prazo, reduzir a pressão sobre este valor.

Por enquanto, os 23 mil milhões de euros continuam a ser um espelho do quanto o sistema do Fisco ainda tem para melhorar.

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