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Gabriela Caçador
Gabriela Caçador
28 Mai, 2020 - 14:57

“É preciso ter cautela com os passaportes de imunidade”

Gabriela Caçador

Rúben Ausina é técnico de análises clínicas. Trabalha na linha da frente da deteção da COVID-19 e confessa que já sentiu a sua classe negligenciada.

Teste de despiste do covid-19

Presentes na linha da frente, na recolha de material e da realização de testes de diagnóstico COVID-19, estão os técnicos de análises clínicas. Trata-se de uma área fundamental da saúde, no entanto, foram já algumas as queixas apresentadas por estes profissionais de saúde, devido à desigualdade de tratamento face a outros, nomeadamente a nível de falta de equipamento, ou acesso prioritário nos supermercados. 

Rúben Ausina diz “ter conhecimento de algumas situações que foram reportadas ao Sindicato Nacional dos Técnicos Superiores de Saúde das Áreas de Diagnóstico e Terapêutica, nomeadamente no que diz respeito ao incumprimento do acesso prioritário” porém, considera que estas “foram ocorrências pontuais”.

Análises clínicas: profissionais têm menor visibilidade

Análises clínicas ao covid-19

De um modo geral, o técnico de análises clínicas considera que a sua profissão “não é tão visível como a de outros profissionais” e por isso, diz:

caímos no esquecimento, sobretudo na comunicação social. A verdade é que pertencemos a uma equipa multidisciplinar que só funciona com intervenção de todos os profissionais. Neste caso em particular da pandemia, temos um papel fundamental, já que somos responsáveis pelo processamento das amostras, que depois vão determinar se um caso é positivo ou negativo”. 

Hospitais reestruturam-se em função da atual pandemia

Interrogado sobre o receio que possa sentir por estar na linha da frente, Rúben Ausina considera que “o medo do desconhecido é transversal a todos”. No entanto, confessa que se sentiu negligenciado quando começaram a surgir os primeiros casos suspeitos, uma vez que “os laboratórios careciam de diretrizes específicas de como atuar e manusear as amostras. E nessa fase inicial de adaptação, foram adotadas medidas de segurança e estratégias, quase diariamente”. 

Com a evolução da pandemia, o técnico de análises clínicas considera que “o que até agora era novo e ‘anormal’, tornou-se, agora, parte da rotina para todos”. E acrescenta: “o ser humano, felizmente, tem essa capacidade de ser camaleónico face às mais diversas situações, quer sejam adversas ou não”.   

No hospital onde Rúben trabalha, tudo foi reestruturado em função da atual pandemia. “Foram estudados e implementados circuitos para prestar os cuidados de saúde necessários a utentes com e sem Covid-19, de modo a evitar contágios cruzados”, revela. 

Relativamente à sua equipa de trabalho,  adianta que esta “sofreu alterações, no que concerne ao número de técnicos por turno, assim como foram implementados circuitos de circulação de pessoas, uso sistemático de equipamentos de proteção individual e novas normas de processamento de amostras”. 

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Testes de diagnóstico covid-19

Desde o início da pandemia, milhares de pessoas já foram testadas em Portugal. A metodologia de referência para a pesquisa de SARS CoV-2, e consequente diagnóstico, “é realizada por técnicas de biologia molecular, nomeadamente RT-PCR, que deteta diretamente o material genético viral”, explica o técnico de análises. Embora no mercado existam kits das mais diversas empresas comerciais do setor da saúde, “todos partilham deste método de determinação”, conclui. 

É importante referir que para garantir a fiabilidade dos resultados, há técnicas que cumprem um elevado grau de especificidade e sensibilidade: “se as amostras não forem colhidas e manuseadas correta e cuidadosamente, podem levar ao aumento de casos de falsos negativos e falsos positivos”, adverte Rúben Ausina.

Segundo o Sindicato Nacional dos Técnicos Superiores de Saúde das Áreas de Diagnóstico e Terapêutica, há profissionais infetados. No dia 13 de maio, o STSS comunicou à DGS que até a data existiam 107 Técnicos Superiores de Diagnóstico e Terapêutica – TSDT, infetados com SARS Cov-2. Possivelmente, hoje, este número é ligeiramente superior.

Rúben garante que entre os seus colegas “felizmente” não há casos positivos, mas acrescenta que sentem “claramente mais receio, daí utilizarmos os equipamentos de proteção individual necessários e medidas complementares neste contexto sanitário”.

Testes serológicos ou de imunidade

Segundo Rúben Ausina, os testes serológicos “ainda não estão a ser utilizados em grande escala, e servem para aferir o grau de imunidade da população, não sendo contudo um teste de diagnóstico. Estes utilizam amostras de sangue e servem para quantificar o número de anticorpos, neste caso para o SARS CoV-2, presentes na amostra, sendo que no atual contexto mundial, sem presença de vacina, o indivíduo só apresentará anticorpos se tiver tido contacto prévio com o vírus” explica.

No entanto, até ao momento, “ainda não é possível determinar quanto tempo leva um indivíduo que tenha adquirido anticorpos a ficar imune ao vírus”. Para além disso, “existem outras variáveis em estudo, como as possíveis mutações e outras patologias associadas que podem afetar a imunidade do indivíduo”, esclarece.

Quanto à medida de adotar passaportes de imunidade, que identificam quem já poderá estar imune ao vírus, Rúben Ausina é de opinião que será necessário “ter cautela, visto não existirem evidências científicas que indivíduos que tiveram Covid-19 possam estar totalmente imunes a uma nova infeção. Os estudos que estão a ser desenvolvidos nesta área ainda carecem de conclusões mais objetivas”, conclui.

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