Mais de metade dos jovens portugueses tem adiado decisões como comprar casa, ter filhos ou avançar com os estudos. A conclusão consta do estudo “Gen Z and Millennial Survey 2026”, divulgado pela Deloitte a 31 de agosto de 2026, que ouviu 406 portugueses (203 da Geração Z e 203 Millennials) entre um universo global de 22.595 inquiridos em 44 países.
A explicação repete-se ano após ano: o dinheiro. O custo de vida é a maior preocupação da Geração Z (51%) e dos Millennials (50%) em Portugal, à frente da saúde mental da própria geração e da instabilidade política. E a habitação tornou-se o obstáculo mais difícil de contornar.
Na prática, 57% da Geração Z e 41% dos Millennials portugueses dizem não conseguir comprar casa. É menos famílias novas a formar-se, menos independência a acontecer e mais anos a viver à espera de uma folga no orçamento que tarda em chegar.
O que mostra o estudo da Deloitte sobre os jovens portugueses
O “Gen Z and Millennial Survey” já vai na 15.ª edição e é o maior estudo do género feito pela Deloitte a nível mundial. Em Portugal, o inquérito confirma um padrão que se repete há vários anos: os jovens continuam ambiciosos, mas deixaram de medir o sucesso pela rapidez com que sobem na carreira.
Apenas 6% da Geração Z e 4% dos Millennials portugueses apontam alcançar um cargo de liderança como o principal objetivo profissional. Em contrapartida, manter o equilíbrio entre vida pessoal e profissional (28% e 32%, respetivamente) e alcançar a independência financeira (23% e 30%) lideram as prioridades. A maioria — 55% da Geração Z e 52% dos Millennials, prefere um progresso estável a um crescimento rápido em posição ou salário.
Isto não significa desinteresse pela liderança. 63% da Geração Z e 61% dos Millennials continuam interessados em assumir cargos de chefia em algum momento da carreira. O que muda é a condição: só avançam se o salário compensar e se houver flexibilidade, são precisamente os dois fatores mais citados por quem hoje recusa a ideia.
Porque o dinheiro trava casa, família e estudos
Os números não deixam margem para dúvidas. 57% da Geração Z e 65% dos Millennials portugueses admitem já ter adiado decisões importantes como casar, ter filhos, mudar de carreira ou continuar os estudos, por causa da sua situação financeira. São valores acima da média global, onde a proporção ronda os 55% e os 52%.
O impacto sente-se também na saúde mental. 46% da Geração Z e 46% dos Millennials portugueses dizem sentir-se stressados a maior parte do tempo ou permanentemente. Entre as causas mais apontadas estão os longos horários de trabalho (65% e 60%), a falta de reconhecimento pelo trabalho realizado (52% e 61%) e culturas organizacionais tóxicas (44% e 57%).
Há, ainda assim, sinais de melhoria. Em 2026, 58% da Geração Z e 56% dos Millennials consideram que o empregador leva a saúde mental a sério — mais do que em 2025 (54% e 44%). Não resolve o problema de fundo, mas alivia a forma como se lida com ele.
Quanto pesa a habitação nas contas da Geração Z
A habitação é, sem competição, o maior condicionante das decisões de vida e de carreira em Portugal. 81% da Geração Z e 78% dos Millennials afirmam que a acessibilidade da habitação influencia diretamente as suas escolhas profissionais — valores claramente acima da média global (69% e 64%).
Entre os Millennials portugueses, 46% dizem ter dificuldade em suportar todas as despesas mensais, um valor superior à média global (34%). Já entre a Geração Z, 57% consideram simplesmente impossível comprar casa própria nas condições atuais.
Se está a poupar para uma entrada, vale a pena fazer as contas com números concretos: quanto precisa de guardar por mês para reunir 10% ou 20% do valor de um imóvel em três ou cinco anos. Sem essa meta escrita, a poupança fica sempre para o mês seguinte.
Como planear a vida financeira apesar da pressão
Adiar decisões não tem de significar deixar de as preparar. Três frentes ajudam a sair do imobilismo:
Reveja as despesas fixas. Subscrições, seguros e planos telefónicos são normalmente os primeiros candidatos a corte, e um euro poupado todos os meses vale mais do que uma grande poupança pontual.
Crie um fundo de emergência, mesmo que pequeno. Três meses de despesas essenciais evitam que um imprevisto como uma reparação, uma consulta ou uma quebra de rendimento obrigue a recorrer a crédito ao consumo.
Invista em competências que a Deloitte já identifica como diferenciadoras: fluência em inteligência artificial, comunicação e adaptabilidade. Em Portugal, 68% da Geração Z e 68% dos Millennials já usam IA no trabalho diário, sobretudo para identificar oportunidades de formação e desenvolvimento.
Compare também as opções de habitação disponíveis como arrendamento partilhado, programas de apoio à entrada ou garantias públicas de crédito, antes de assumir que comprar casa está fora de alcance.
O dinheiro que falta hoje custa mais amanhã
Cada mês sem folga no orçamento empurra a casa, os filhos ou o curso para o ano seguinte, e o ano seguinte raramente chega com mais margem do que o anterior. Fazer as contas agora, por mais desconfortável que pareça, é a única forma de parar de adiar.
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Deloitte. (2026). 2026 Gen Z and millennial survey: Progress on their own terms. Deloitte Global. https://www.deloitte.com/global/en/about/press-room/deloitte-2026-gen-z-and-millennial-survey.html
Deloitte Portugal. (2026, 31 de agosto). Jovens portugueses preferem bem-estar e estabilidade em detrimento de cargos, revela estudo [Comunicado de imprensa]