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Um guia para tempos complicados
Miguel Pinto
Miguel Pinto
12 Fev, 2021 - 10:55

Guerra do Ultramar começou há 60 anos: Portugal rumo a África

Miguel Pinto

Há 60 anos os primeiros jovens portugueses começavam a ser mobilizados para a Guerra do Ultramar. Um conflito que marcou toda uma geração.

Soldados na Guerra do Ultramar

Foi há 60 anos e algures em África iniciavam-se uma série de acontecimentos que haveriam de marcar toda uma geração. A guerra do ultramar, ou colonial, começava a ser inevitável e milhares de jovens portugueses iriam, em breve, começar a embarcar rumo ao desconhecido. Angola, Moçambique ou Guiné eram os destinos.

Ninguém sabia muito bem para o que ia, muito menos a razão de ir. Portugal vivia outros tempos, em que a imprensa era obrigada a submeter-se ao lápis azul da censura, onde as ordens vindas de cima não eram questionadas, muito menos contrariadas. Após séculos de domínio luso nas colónias, os ventos começavam a soprar noutra direção. A guerra do ultramar foi o último estertor da presença portuguesa em África.

Guerra do Ultramar: focos de guerrilha

Tropas na Guerra do Ultramar
Os combates rapidamente alastraram a todos os territórios

Um ataque à cadeia de Luanda, em Angola, a 4 de fevereiro de 1961, é um dos primeiros rastilhos do conflito entre os movimentos independentistas e Portugal, enquanto potência colonizadora. Reivindicado pelo Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), antecedeu uma sublevação do norte do país, a 15 de março, desta vez comandada pela União das Populações de Angola (UPA). Esta revolta será determinante para que o regime de António Oliveira Salazar envie tropas da metrópole, iniciando-se um conflito que haveria de durar 13 anos.

Sob o mote “para Angola já e em força”, a ditadura iniciava assim a chamada guerra do ultramar, que brevemente se alastraria a outros territórios. Em Julho de 1961, guerrilheiros do Movimento de Libertação da Guiné lançaram ataques às povoações de São Domingos, Suzana e Varela, perto da fronteira com o Senegal.

No entanto, a guerra na Guiné iria escalar em definitivo em  janeiro de 1963, altura em que o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) desferiu um ataque ao quartel de Time, a sul de Bissau. Pouco tempo volvido, a guerra estava em todo o território guineense, obrigando a uma presença acrescida das forças portuguesas.

Um ano depois, em 1964, abrir-se-ia mais uma frente de batalha, desta vez em Moçambique. A Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), lançou, a 24 e 25 de setembro, uma ofensiva em Chai, província de Cabo Delgado, levando depois os combates ao Niassa e a Tete. Nesse mesmo ano, as tropas portuguesas sofriam as primeiras baixas no país, na região de Xilama. A acção da FRELIMO viria a aumentar de intensidade a partir de 1970, em particular a partir do momento em que Samora Machel, então o líder dos revoltosos, se instalou em Cabo Delgado.

Ultramar: o problema indiano

Mas os problemas para a ditadura de Salazar não estavam circunscritos aos já de si gigantescos territórios em África. Com a descolonização europeia a ser um processo cada vez mais lesto, a Índia começou a olhar para os três enclaves portugueses que por ali ainda resistiam. Goa, Damão e Diu, os últimos resquícios da gesta dos descobrimentos portugueses para oriente, eram reclamados pela União Indiana, mas Portugal não cedia.

Em dezembro de 1961, as tropas de Nehru invadiam Goa e em 36 horas acabavam com a presença ininterrupta de Portugal no território indiano ao longo de 451 anos. Salazar ainda ordenou ao então governador Vassalo e Silva que resistisse até ao último homem. No entanto, vendo a inutilidade de resistir, e para evitar um banho de sangue, o governador rendeu-se, em conjunto com os cerca de 3 mil homens que comandava. A audácia da rendição custou-lhe a expulsão da Forças Armadas, onde só seria reintegrado após o 25 de abril.

Navio Vera Cruz
Navio Vera Cruz, que transportou milhares de militares portugueses

Quase nove mil mortos

O grande problema era, contudo, o palco de guerra africano. Não só consumia parte significativa dos recursos financeiros do país, como também ia reclamando vidas de milhares de soldados.

Portugal mobilizou para África, ao longo de toda a Guerra do Ultramar, cerca de um milhão e quatrocentos mil homens, registando aproximadamente nove mil mortes, trinta mil feridos e dezenas de milhar de soldados a sofrer de stress pós-traumático, fruto dos combates em que estiveram envolvidos.

Mesmo com a morte de Salazar, o esforço de guerra não afrouxa, continuando com Marcello Caetano o envio massivo de homens para as ainda possessões ultramarinas. Só que a geopolítica também ia mudando e o regime português sofreu um rude golpe em 1970, quando o então papa Paulo VI concede uma audiência a dirigentes dos movimentos de libertação das três colónias, como que legitimando a sua luta contra o colonialismo de Portugal. Só com a revolução de 25 de abril de 1974 se iria começar a colocar um ponto final numa guerra que ainda hoje tem algumas feridas abertas na sociedade portuguesa.

Para além das consequências médicas que muitos homens trouxeram de África, não deixa de ser verdade que os territórios ultramarinos, em especial Moçambique e Angola, deixaram marcas fortíssimas em todos aqueles que para lá embarcaram em navios como o Vera Cruz ou o Niassa. África tornou-se uma marca indelével da vida de toda uma geração. A guerra do ultramar ainda está longe de estar completamente digerida em Portugal.

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